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Os 15 anos do Público.pt e os pioneiros do jornalismo na Internet: quem conta um conto
 
Colocado por Paulo Querido 22 Setembro 2010 Comentar
 

 

No editorial que assinala os 15 anos da edição online do Público escreve-se: "o jornal que tem entre mãos foi o pioneiro em Portugal do jornalismo na Internet". No Indústrias Culturais Rogério Santos esclarece que não é assim, socorrendo-se de um texto de Hélder Bastos (à época jornalista do Jornal de Notícias): "na realidade, o primeiro jornal a ter edição na internet foi o Jornal de Notícias, a 26 de Julho de 1995; seguir-se-ia o jornal Público, a 22 de Setembro do mesmo ano" (link).

Isto quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. E eu idem.

Em Julho de 1995 já existia há alguns meses uma edição regular na Internet de um jornal português. O Blitz era divulgado, em versão full text, a partir de uma BBS tanto quanto me lembro desde 1994. A sua primeira edição web foi em Novembro de 1994 (c.f. obra O passado da Internet, Libório Silva, Centro Atlântico).

Em Agosto de 1995 (ou seja: depois do Jornal de Notícias mas antes do Público), a Rádio Comercial teve a primeira emissão na web. Não recordo se foi um "conteúdo" jornalístico ou musical: algum dos leitores poderá lembrar-se?

Se falamos de edições próprias para a Internet, que o Público passou a ter apenas em Setembro de 1999, então teremos de falar do Correio Informático/Computerworld, da Recortes, da Dígito, do Top 5% webzine e, se bem me recordo, do próprio Tek Sapo -- tudo sites com jornalistas a produzir notícias originais, artigos e fotos, em contínuo, uns desde 1995, outros 96. Um deles, o Correio Informático/Computerworld, vazava também a edição que era publicada em papel, já desde 1995, e publicava notícias apenas na edição online, para exaspero do seu proprietário.

Segundo a FCCN, o endereço do Jornal de Notícias (jn.pt) foi registado em Outubro de 1998. Espero que tal não desqualifique a première do concorrente do Público.

Isto falando de edições de jornais. Mas o editorial do Público é específico num ponto: "o pioneiro do jornalismo na Internet". Não só das edições na rede: do próprio jornalismo. Para que não fique um conto coxo, acrescento alguns dos pontos que sei. Não sendo historiador nem editorialista do Público, vou adicionar factos sem os classificar. Também não estou a recapitular o que investiguei. Estou a declará-los, aos factos, enquanto deles testemunha ou interventor. A esta distância não posso ser mais específico do que "neste ano" ou "naquela época". Serve para o contexto: os factos são muito anteriores à data em que Público se declarou a si próprio o pioneiro do jornalismo na Internet em Portugal.

Em 1990 o Expresso começou a publicar, no papel, notícias recolhidas através da Internet. Um modem, uma ligação internacional à CompuServe -- e tinha acesso a noticiário que não circulava pelas agências. O jornalista Norberto Santos (hoje no Record) publicava ao sábado peças só possíveis graças a essas tecnologias. Nesse tempo menos de 200 portugueses tinham ligação à CompuServe. O jornal continuou a incorporar, ainda que lentamente, a Internet nos seus processos jornalísticos, alastrando a secções como a Economia. Um dos jornalistas que colaboravam nessa seção tinha, já em 1995, a sua própria operação pessoal na web, onde publicava notícias e entrevistas com figuras internacionais da gestão. Tratava-se de Jorge Nascimento Rodrigues  e da Janela na Web (*).

Em 1991/92 dois jornalistas que eu sei (um deles já deixou a profissão) editavam uma newsletter sobre o mercado bolsista que era produzida com noticiário internacional recolhido na Internet, incluindo entrevistas realizadas através da Internet; essa newsletter, diária, era exclusivamente digital embora muitos assinantes mandassem a secretária imprimi-la. Era distribuída por correio electrónico e fax. A conversão para o fax era feita graças a um programa chamado WinFax Pro, uma aquisição radical à época. No auge a newsletter teve cerca de 200 assinantes, a maioria de Lisboa, alguns do Porto.

Em 1989/90 decorreu a regata à Volta do Mundo Whitbread, que contou pela primeira vez com um velejador português. João Cabeçadas foi entrevistado em pleno alto mar, no decurso de uma das etapas, através da CompuServe. A entrevista foi publicada no jornal Expresso.

Além destes exemplos, o próprio Blitz incorporava noticiário, artigos e opinião -- penso que isto se qualifica como jornalismo -- recolhidos graças à, ou através da Internet. É estranho que o próprio jornal tenha optado por não manter registo do seu papel na História, mas que sei eu disso.

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Em diálogo sobre este assunto no Twitter, alguém envolvido na História às tantas esclareceu uma sua afirmação: "eu referia-me a jornais diários generalistas". Pois. Isso explica muita coisa. Cada um de nós conta a história vista do seu canto.

A finalizar, e compreendendo o autismo em dia de aniversário: parabéns, Público, pelos 15 anos de coragem e liderança.

(Crédito da fotografia: Breathtaking Photos)

(*) Tratava-se e trata-se: o Jorge ainda edita a Janela na Web, em endereço próprio desde 1997, depois de 2 anos na Cidade Virtual da Telepac, e desde há algum tempo em formato de blog.

ADENDA 1

O Hélder Bastos fez-me chegar por mail cópia da comunicação que apresentou no VI Congresso da SOPCOM, (Universidade Lusófona) intitulado "Da implementação à estagnação: os primeiros doze anos de ciberjornalismo em Portugal". Dele recorto dois excertos:

 

  • O ano de 1995, sobretudo no segundo semestre, foi o ano fundador da relação entre os media noticiosos generalistas portugueses e a Internet. No dia 26 de Julho de 1995, era inaugurada a edição na Web do Jornal de Notícias, que se tornou deste modo o primeiro diário de informação geral a actualizar, diariamente, a informação na sua edição online.
  • "O primeiro órgão de comunicação social português a registar oficialmente o seu domínio havia sido, no entanto, a RTP, a 28 de Maio de 1993 (Granado, 2002). Apesar disso, a televisão estatal só inauguraria uma página sua, a da RTP Internacional, em Novembro de 1995".

 

Faço notar que o Hélder estava lá, no Jornal de Notícias, nessa altura. É uma boa fonte.

 

ADENDA 2

Ainda sobre quem foi o primeiro: António Granado, que teve responsabilidade na aniversariante edição do Público durante a maior parte desses 15 anos, tem um texto de partida, já com uns anos, que evidentemente o editorialista do Público não conhece: os media portugueses na Internet. (Oportuna lembrança de @pjeronimo.)

ADENDA 3

Esta já é anedótica e foi-me contada por um jornalista que também estava lá. O Público registou o publico.com em Agosto de 1998. Mas alguém se esqueceu da renovação do domínio, que caiu. (Hoje é de uma empresa de Helsínquia).

 

ADENDA 4: LINKS

A discussão deste tema tem envolvido diversas pessoas e vão surgindo contributos em forma de posts. Aqui ficam alguns deles para manter o círculo:

Sobre os jornais pioneiros na Web, Hélder Bastos no Travessias Digitais.

Jornalismo (de proximidade) na Internet, por Pedro Jerónimo no jornalices.

15 anos de jornalismo online, onde Rogério Santos se deixou convencer por José Vítor Malheiros, que reduz o jornalismo na Internet em Portugal a uma corrida entre o Público e o Jornal de Notícias.

 

SE TEM mais dados, episódios, factos, histórias ou lembranças que ajudem à história dos media portugueses na Internet, em 1995 ou antes, se esteve ligado a alguma BBS ou lia os títulos do Expresso e do Público no soc.culture.portuguese, partilhe. Nos comentários abaixo, no meu Twitter, no meu Facebook ou no mail paulo.querido @ gmail.com.


 

 

 

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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