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quinta-feira, 17 de Maio de 2012

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Do veredicto sobre a paywall do Times à frivolidade de alguns diretores: o futuro do jornalismo
 
Colocado por Paulo Querido 04 Novembro 2010 Comentar
 

Eu quero acreditar que as declarações de três diretores de jornais portugueses hoje ao Diário de Notícias são apenas bluff de quem insiste em fazer de conta que acredita que há segredos nesta fase do negócio do jornalismo ou apressadas respostas de circunstância.

É que, se assim não for, a forma como discorrem sobre a imposição do modelo pago -- fundamentando-se em inconsistências como "os conteúdos têm de ser pagos, são os únicos que têm valor" (Henrique Monteiro dixit) -- terá de entrar no departamento das frivolidades. O que, não me tocando pessoalmente, me leva a divagar sobre as incapacidades dos respectivos grupos editoriais, tanto mais inexplicáveis quanto o acesso a informação específica sobre os resultados das experiências com paywalls como a do The Times não lhes está propriamente vedado...

A ideia de que os "bons" conteúdos têm de ser pagos é interessante -- mas infelizmente não tem relação com a realidade. Dois exemplos rápidos para não perdermos mais tempo com isto: TSF e SIC. Pensem.

Há muitas formas de pagar os custos de produção da informação. A mais comum e transversal delas é a publicidade: aproveitar a audiência e o espaço que envolve a informação para passar mensagens de terceiros, que pagam a facilidade de acesso a alvos com a atenção garantida e até treinada.

Praticamente todos os modelos de negócio que permitiram nos últimos 2 séculos o florescimento da indústria da informação se basearam na publicidade; as receitas diretas, quando existem, não passam de complementares, em percentagem maior ou menor.

A Internet como veículo de informação tem sido erroneamente avaliada como imprensa, como jornal. Na prática ela está muito mais perto da difusão hertziana ou por cabo. Estabelecido o acesso à difusão, os conteúdos são omnipresentes e a única forma de cobrar pela sua entrega é cifrar o sinal à saída da emissora e decifrá-lo no receptor.

Ora, na Internet isto também é possível -- mas nem tudo o que é possível é viável e cifrar conteúdos digitais não vale o esforço. Por duas ordens de razões. Primeira, porque a capacidade de processamento é ilimitada e grátis e nenhuma cifra comercial resiste à força bruta (as militares resistem muito mais tempo, sendo o tempo o elemento crucial). Segunda -- e determinante -- porque o ambiente é de grande riqueza informativa. As alternativas são tantas, o acesso às fontes é tão fácil, inutilizando obstáculos como a geografia, que um conteúdo cifrado, ou de qualquer forma difícil de obter, é imediatamente substituído pelo conteúdo sem restrições.

No limite, na Internet os conteúdos lutam pela atenção das pessoas -- e não o contrário. Enquanto esta inversão não for compreendida, nada feito. Não se consegue avançar.

Nos modelos estabelecidos da difusão hertziana ou por cabo a fatura paga pelo consumidor envolve não apenas o acesso via antena, satélite ou cabo, mas também uma percentagem que o distribuidor entrega aos produtores dos conteúdos.

Em sentido estrito, não há essa coisa chamada conteúdos gratuitos. O que tem havido é a incapacidade -- ou, para os mais sensíveis, o atraso -- do jornalismo incumbente em estabelecer um modelo de negócio funcional: que compreenda a natureza da rede e as diferenças fulcrais entre a horizontalidade desta e as difusões verticais, o diferente comportamento das audiências de poderes reforçados pelas telecomunicações e informática de baixíssimo preço, e -- talvez o mais importante, nesta altura -- onde é que está a caixa registadora da Internet. Refiro-me aos ISP, Internet Service Providers -- as empresas às quais pagamos pelo acesso à Internet.

(Divagação: em vez de esconjurarem os leitores e os bloggers que lhes "roubam" os "conteúdos", ganhavam mais em enfrentar quem assume o papel económico determinante no novo ambiente comunicacional: os ISP.)

As funções de separar as informações, catalogá-las, relacioná-las, apresentá-las em narrativas coerentes e adequadas assumem maior importância num meio ultra-rico em informação, está bem de ver.

O problema de tantos jornalistas é insistirem em pensamentos que não se aplicam no novo ambiente. Um deles, o de que decretam o comportamento das audiências.

O outro, o de que tais funções -- historicamente cumpridas pela classe, com grande garbo e resultados discutíveis, mas isso são contas de outro rosário -- continuam sob seu monopólio.

Em parte a separação do que interessa e não interessa é cumprida pelas... redes sociais. Cada um dos nossos nós, followers, amigos, etc, funciona como um filtro para o qual passámos uma parte do trabalho anteriormente adjudicado ao profissional do jornalismo.

Outra parte é cumprida -- com maquinal isenção, eu diria -- pelos filtros informáticos. Sejam o News Google ou os agregadores e filtros montados pelos challengers da indústria do jornalismo (como o The Huffington Post ou, aqui ao lado, o La Información), filtram o caudal de informações com uma eficácia e rapidez que não estão ao alcance do jornalista desprovido de auxílio informático.

(Nota marginal: enquanto este grupo constituir a imensa maioria nas Redações, o papel de filtro do jornalista é tão limitado que as massas antigamente conhecidas por audiência optarão pela eficácia dos algoritmos. Esta está longe de perfeita, mas os resultados satisfazem e a rapidez compensa.)

Até a função de gate-keeping está a ser transferida do jornalismo para a cidadania de poder aumentado pela informática -- processo a que não será totalmente alheia alguma quebra de reputação de jornalistas comprometidos de forma menos clara com o poder, ou os poderes.

Quero com isto dizer que desacreditei no papel do jornalista? Não. De todo em todo, não. Pelo contrário. É verdade que há alguma desorientação com tanta mudança de funções, deslocação de poderes e modificação parcial das audiências, mas nada disso coloca em causa o valor de um profissional treinado.

Um jornalista em acção é capaz de "cheirar" a manipulação que a fonte procura fazer em menos tempo do que leva a um algoritmo para estabelecer comparações com os dados disponíveis, ou à rede social do leitor a perceber a marosca. Um jornalista em acção é capaz de apontar quase instintivamente (muito treino, muito treino) quais as 3 notícias mais confiáveis entre uma lista de 30 -- só lendo os títulos. Na altura de solucionar o puzzle de informações sobre um acontecimento ou encontrar uma explicação sobre o que acabou de suceder, esta vantagem é preciosa e ainda não encontrei software que a supere.

Estas aptidões mantêm intacto o seu valor -- assim saiba o jornalista, bem como a estrutura que o envolve profissionalmente, perceber como as deve enquadrar com as fabulosas ferramentas de tratamento de informação que são os computadores, o recurso de sabedoria formidável e de custo zero que são as massas de leitores (crowdsourcing, Mechanical Turk, wikis, Twitter), os serviços web auxiliares que nascem todas as semanas (já viram o Storify?) e as novas expressões da narrativa noticiosa.

Voltando ao essencial, para finalizar: as experiências com conteúdos pagos têm sido insatisfatórias -- se preferirem qualificá-las de desastres, quem sou eu para me opôr. O António Granado (ex-Público online, agora no grupo RDP/RTP) fez uma importante recensão: The Times revela números pós-paywall. Leitura recomendada para todos aqueles que se sintam tentados a trocar uns milhões de pageviews mensais, que demoraram anos a construir, por um muro entre as suas marcas e os leitores.

Nota final: o diretor do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, foi o mais prático. Tem razão num ponto -- que é uma das raras mais valias, ou vantagens, de que os incumbentes dispõem sobre os desafiantes do jornalismo. Curiosamente, essa vantagem escapa a João Marcelino, diretor do Diário de Notícias, pelo menos a avaliar pelo que declarou sobre a notícia na hora.

De que vantagem falo? Tema para um próximo artigo -- assim haja manifestações de interesse em que eu o escreva.

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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