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quinta-feira, 17 de Maio de 2012

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O WikiLeaks não é jornalismo: notas adicionais à "orgia informativa"
 
Colocado por Paulo Querido 13 Dezembro 2010 Comentar
 

Estrela Serrano, vogal da ERC, responde no blog Vaivém às questões que levantei no artigo no Correio da Manhã de domingo, intitulado hacktivismo e mudança -- respostas que naturalmente agradeço.

E agradeço desde logo porque este tema -- o WikiLeaks e os seus efeitos -- é de difícil discussão. Estamos a viver a quente as "revelações", tendo-se criado um clima singular onde notícias que já o foram voltam a ser, notícias que não o seriam tornam-se magicamente títulos de primeira página, um clima -- socorrendo-me de uma expressão de Estrela Serrano noutro post sobre o assunto -- de "orgia informativa". O ruído sobrepõe-se ao diálogo, forçando a comunicação entrincheirada em posições extremas: a favor ou contra, é o que me perguntam, e é a muito custo -- e desiludindo os interlocutores -- que consigo dar uma resposta maior do que essas cinco ou seis letras.

Basta, aliás, ler este post de Daniel Oliveira invectivando "os jornalistas" para percebermos como a função arma de arremesso do WikiLeaks é tão importante. Sobrepõe-se, quase sempre, ao debate. Toda a gente se apressa a cavalgar a onda WikiLeaks, toda a gente tem de ter uma posição, toda a gente coloca uma tabuleta prévia à comunicação manifestando a indignada certeza de que está certa.

Em particular, querem reivindicar o WikiLeaks para a SUA causa todas as pessoas que a) por princípio, devoção ou obrigação sejam anti-americanas, b) nutram ódio e outros sentimentos menos edificantes pelos jornalistas, esses amanuenses do poder, c) lhes dê jeito incomodar a diplomacia americana (veja-se Lula), d) sejam ciber-deslumbradas recentes, e) gostem de pensar sobre si próprias que são "anarquistas", f) todas as anteriores.

O segredo de Assange

É fácil (quase irresistível) devolver ao Daniel o argumento-João-Miranda, dizendo-lhe que "está a instalar-se a ideia de que nada pode ser considerado segredo de Estado, desde que a turba social assim o determine, mesmo que estejamos perante ações de gestão corrente que se pedem a um governante".

Daniel tem uma frase que considero uma extravagância, quiçá fruto do entusiasmo: "ou seja, o papel de selecção que é suposto os jornalistas cumprirem revelou-se, em muitos casos, absolutamente dispensável". Faz eco, aliás, de outra inventona que passa no Twitter como uma verdade insofismável: a de que o WikiLeaks publicou os 250.000 documentos e toda a gente os pode ler lá.

O Daniel parece ter esquecido que quem ordenou a sequência das primeiras revelações não foram os jornais envolvidos: os cables iniciais só continham a palha das festas de Berlusconi e da hipocondria de Kadhafi.

Na realidade, Julian Assange tem feito uma gestão criteriosa dos tempos e dos canais de divulgação dos cables, usando os jornalistas como amplificadores de sinal. Os cables são divulgados às massas pelos jornais e não pelo site, que quase ninguém consegue ver, aliás. Essa gestão dos media é o segredo de Assange.

Na realidade, se não fosse a legitimação da seleção, por critérios jornalísticos (que poderemos discutir num clima mais ameno), e a credibilização pelo prestígio associado aos Órgãos de Comunicação Social que Julian Assange tão bem soube escolher, estes leaks teriam tido o mesmo sucesso relativo que as anteriores levas -- ou ainda menos, tendo em conta a fraca qualidade média da informação, como comecei por escrever quando a coisa rebentou.

Na realidade, a maioria das reações populares -- e até dessa élite dispersa e anónima que sabe usar as ferramentas informáticas para se organizar e riscar os vidros das montras web das Grandes Empresas -- visa provocar os media, primeiro, e eventualmente através deles o poder político, esse escudo cada vez mais indispensável do poder económico.

Assim, e resumindo a ideia: ao contrário do que pensa o Daniel, eu penso que os jornalistas fizeram o seu papel de seleção e foram indispensáveis ao "sucesso": a mensagem ter passado com estrondo.

Não fora a má resposta inicial de Hilary Clinton e dos EUA a contracenar e os jornalistas eram mesmo a única personagem principal da peça intitulada "O Sucesso Do WikiLeaks" -- mantendo-se em qualquer caso a divulgação e a conversa das redes sociais como personagem secundária.

Discordo também do balanço dele. A imprensa dos países democráticos não é uma derrotada, mas sim a primeira vencedora. Sobretudo os jornais envolvidos, que estão a acumular uma quantidade colossal de citações, de pageviews, de followers nas redes sociais, e, estimo, de vendas em banca. Mas também todos os outros que estão a retransmitir as notícias. O WikiLeaks é, antes de mais, um maná. A tal "orgia informativa", que permite que todo o tipo de abusos passe por comportamento normal.

É claro que há algumas notícias dignas do nome nos cables (o BCP é uma das novidades que o merece). Mas existem muitas outras que não o são. Umas não passam de takes requentados, arquivo completamente morto que só mesmo num excecional clima de orgia informativa se conseguem revender como "novidade" (exemplos não faltam, da cena das Lajes aos infelizes McCann). Outras iriam diretamente para o espeto se surgissem na secretária do editor fora deste clima, tal a sua irrelevância, ou acabavam a fechar alguma página caso houvesse algum azar com o feed da Lusa (uma reunião do embaixador dos EUA com o Ministro da Comunicação de Marrocos para debaterem o combate à pirataria? Tem dó, Daniel.)

Quando a rede despertar, o mundo tremerá

Voltando a um mundo ao "estilo Assange" e a uma conversa na qual ninguém procura ser popular: Estrela Serrano alvitra que Assange, não sendo nem um herói nem um terrorista (as situações extremas que exemplifiquei no artigo), "é talvez um fanático ou um sonhador". De acordo. Mas há sonhadores que mudaram o mundo com as suas fantasias -- e nem todos para melhor.

"O WikiLeaks não é jornalismo", responde também Estrela Serrano. Estou no essencial de acordo com o que escreveu sobre o jornalismo neste particular. Mas a questão do jornalismo interessa-me pouco -- bem sei que pode não parecer, tendo em conta os carateres que já lhe dediquei, mas o interesse não se mede ao Kilobyte. Pelo que vou adiantar-me. O que me entusiasma aqui são as questões da cidadania. E da política.

O ensaísta francês Alain Peyrefitte escreveu nos anos 70 uma obra intitulada "Quando a China despertar... o mundo tremerá" (frase atribuída a Napoleão, obra disponível num alfarrabista perto de si, como este de onde saquei a imagem de capa). A ideia central era mais ou menos isto: tendo em conta a quantidade de chineses, mal tenham uma organização, cultura, economia e a tecnologia suficiente, impor-se-ão ao resto do mundo.

A ideia aplica-se ao "continente reticular". A massa crítica está atingida. A tecnologia é hiperabundante. A matriz cultural -- partilha, hacking ou curiosidade, vagas ideias libertárias, sentimento de superioridade, ego valorizado, características comuns desde os primeiros habitantes do ciberespaço  -- está a atingir a maioridade.

Alguns comentaristas escreveram, erradamente, estarmos perante a primeira ciberguerra. Há um passado de ciberguerras e olhar para ele dá jeito para sabermos o que podemos esperar. As picardias e escaramuças dos hacktivistas são mais parecidas, nos efeitos, com a guerra de guerrliha: vai moendo, vai moendo, vai moendo, tem um poder transformativo composto por pequenos passos. É igualmente difícil  de combater pelos "exércitos regulares".

Mas a aparência mediática dessas escaramuças tem sido desproporcional. Esse empolamento faz, de resto, parte da tática do hacktivista. Dohacker para o hacktivista ganhou-se em inteligência o que se perdeu em brilhantismo e ego, mas -- ordenada ou desordenada, consciente ou inconsciente -- a manipulação da informação e dos seus agentes, agora rebaixados do segundo balcão à plateia, está incrustada no código genético.

As ações propriamente ditas valem o que valem -- provocar uma negação de serviço não passa de cuspir na cara do soldado inimigo. Mas esta não é uma guerra física: é uma guerra simbólica. A ação vale pelo que potencial que demonstra e pelo que simboliza, mais que pelos danos imediatos.

(Áparte: os jornalistas nunca evitaram ser instrumentos das guerras, tendo de gerir relações e sobrevivência -- algo que está para lá do que afirmam em público os puritanos da ética. Vão agora ter de aprender a fazer o mesmo aqui. Julian Assange, como qualquer outro general, pode ter uma aura heróica para as falanges de apoio que o escondem nos seus sótãos resistentes e por ele disparam nas trincheiras do tempo real, e por isso vir a ser eleito o Homem do Ano pela Time, que isso não invalidará que tenha a sua própria agenda, motivação e estratégia.)

O caso WikiLeaks tornou-se uma notícia maior do que os cables. Tem o lado bom, apesar do folclore: confirmou que a cibercidadania deixou de ser um nicho de loucos e early-adopters e passou a ser uma corrente sólida de respeitáveis cidadãos com os mais nobres interesses -- os seus. Há hoje uma massa crítica de nós de rede, de pessoas interligadas, e dentro dela um número suficiente de pessoas apetrechadas informaticamente para as ações da cidadania: organização, exposição e defesa de causas, princípios e direitos. Os apetrechos modernos são importantes para a comunicação (barata, mediata e imediata, à medida das necessidades de cada um e de cada grupo). E também para a ação: existem milhares de cópias dos ficheiros da WikiLeaks espalhadas por outros tantos servidores, e bastaram para isso umas linhas de código de copiar e colar acessíveis a qualquer pessoa que saiba mexer num rato (ler e escrever não são requeridos).

E não acaba?

"It's a shootin' war, and no one knows where it will lead or when it will end. You'd best keep your head low" - escreve Robert X. Cringely numa das suas demolidoras crónicas, the Web will eat itself over WikiLeaks, que recomendo a todos os leitores.

Na verdade acaba. E eu sei quando acaba. Acaba no dia em que outro assunto passar a dominar as manchetes e o prime time. Uma guerra daquelas onde se morre ou pelo menos se disparam canhões reais, uma desgraça natural (mas com milhões afetados, dezenas ou milhares pode não dar), um romance feliz como o dos mineiros chilenos. Ou, se nada deste calibre acontecer, o cansaço mediático que inevitavelmente fará os editores escolherem outra manchete. Ronaldo. FMI. Sócrates. Presidenciais, anyone?

Não sei onde conduzirá, mas deixará mossa. O mesmo tipo de mossa que deixou o Napster. O mesmo tipo de mossa que deixou a fácil reprodução digital dos bens de consumo incorpóreos. Quando se entrega a milhões de pessoas o tipo de poder computacional colossal que se banalizou nos nossos desktops e até nos bolsos, e se lhes dá uma rede para se interligarem, não se deve esperar que fiquem a jogar vaquinhas, a palrar em 140 caracteres e a clicar likes em causas no Facebook para a eternidade. Algumas delas cansar-se-ão antes.

Fica em aberto a questão: que mundo vamos construir com esse poder distribuído? Projetando o que defendem as falanges de Assange, vamos inevitavelmente parar a uma sociedade bigbrotherizada invertida -- uma ditadura em tempo real das massas que bloqueará as decisões às elites e terminará rapidamente com uma golpada e a substituição por um regime fortemente centralizado de algum tipo -- no pior cenário, um ditador de carne e osso; no melhor cenário, um fascismo corporativo.

Mas eu sou um crente :) O grosso das falanges de Assange vai entreter-se com outra causa qualquer dentro de alguns dias ou semanas. Aprendida a lição, os países remendarão as suas políticas. Há uma geração a despontar, a começar a chegar ao poder, que -- independentemente do arco partidário -- tem uma consciência aguda e realista do potencial da sociedade reticular. O atual PM britânico, David Cameron, é o primeiro exemplo. Acredito que a democracia tem uma capacidade regenerativa e que esta é suficientemente elástica para ir absorvendo as melhores dádivas da sociedade -- ciber ou não. Dádivas como a transparência enquanto prática, e não um embrulho bonitinho.

 

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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