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Depois da #manif #12M: metam na cabeça a crowdpolitics e a wikirrevolucion
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A questão que sobra da manifestação de sábado é saber se a sua génese organizativa é, ou não é, determinante para a política e a democracia.
As duas linhas de argumentação consistem em:
- o que importa é a motivação das pessoas. É secundária a forma como se organizam, e que naturalmente se moderniza através dos tempos, incorporando as novidades;
- a ligação em rede proporciona um tipo de comunicação distribuída que além de facilitar a organização tem, graças ao potencial de transmissão livre, ubíqua, instantânea, viral e de massas, o efeito de influenciar a própria motivação, mudando a natureza e o alcance dos eventos do tipo manifestação.
Em português simples (que já merecia uma Wikipedia como a Simple English): as redes e o Facebook são só megafones que amplificam o ruído do pessoal ou trouxeram novidades à política?
À luz desses dois eixos de argumentação, as leituras da manifestação agrupam-se em:
- foi uma grande jornada de protesto que juntou várias correntes descontentes, a “voz da rua”, não significando nada além de um sinal do eleitorado;
- tendo passado, como nenhuma outra até aqui em Portugal, o teste da organização através de redes de laços frouxos, a manifestação mostrou que existe um canal emergente de ação social que em breve tocará a ação política.
Atalhemos caminho desde já: concordamos todos que a motivação é o ingrediente principal e esteve presente tanto nos motins digitais que estão a mudar o mapa político do Médio Oriente, como na sublevação ordeira deste dia 12 de Março em cidades portuguesas (e onde portugueses residem, como Londres e Barcelona, para citar apenas 2 onde também houve #manif).
O aumento das malhas urbanas levou as sociedades islâmicas contemporâneas a um ponto de ruptura muito interessante: o pensamento tribalista característico do campo, que é o pasto dos extremismos, cede lugar ao pensamento das classes que vivem nas cidades. Essas “classes médias” (comparativo exclusivamente a benefício de conversa) têm um nível de instrução e sobretudo de acesso aos bens culturais universais que proporcionam a forte motivação para a mudança.
Em Portugal a motivação veio de tipos de descontentamento muito diferentes, ainda que com esse traço comum da mediania. São as nossas imensas classes médias e médias baixas as principais afetadas pelo encerramento dos elevadores da mobilidade social (cursos universitários sem propósito ou escoamento) e pelo impasse do crescimento económico local ditado pela globalização e por três décadas de erros próprios no desenho do desenvolvimento do país.
Em democracia o poder dessa “horda média” está (esteve) historicamente associado — limitado, se preferirmos — ao voto nos três ciclos quaternais: local, nacional e presidencial. De quatro em quatro anos cidadão é promovido à categoria de eleitor e tem o privilégio de ajudar a escolher qual a elite que, tendo apresentado o mais convincente programa de ação, vai legitimamente formar Governo para dirigir a Nação e o Estado.
A explosão da televisão veio condicionar o livre arbítrio do cidadão tornado eleitor de vez em quando: as elites com acesso a ela (e aos jornais, que em Portugal são bastante secundários) puderam circunscrever o leque de opções disponíveis e ajudar a erguer as barreiras de acesso ao próprios círculos de poder.
Assim, a imensa maioria do povo pouco pôde fazer nos intermináveis anos entre eleições: as elites do poder — e sobretudo a classe comunicacional que se foi construindo em torno dele, parte da qual se foi convencendo durante o processo de que também era poderosa — movem-se em casulos com ar condicionado onde a “voz da rua” só chega quando é necessário que chegue. Isto é: quando, em determinadas alturas, é preciso saber até que ponto vai o contentamento ou descontentamento das massas, num grau fino que escapa aos mecanismos normais de auscultação que são as sondagens de opinião.
Eis a democracia representativa sofisticada.
(Anarquista por convição, escolho contudo o sistema com base em critérios de realidade que julgo adequados — um dos quais é o ambiente circundante. Assim, esta democracia representativa justificada é o sistema que eu professaria, se um extraordinário impossível acaso levasse a que me pedissem opinião.)
Não nos demos mal com ela — assim aceitemos como bons os diversos indicadores civilizacionais que foram subindo com o passar do século XX. Em sistemas económicos de elevado crescimento, a democracia representativa (mais ou menos) sofisticada e com variações locais deu conta do recado da gestão da res publica menos mal que outras soluções de gestão, democráticas ou não.
Assumo-me portanto como sistémico, mas não me obrigo à cegueira que pelos vistos outros acham obrigatória. Há vinte anos atrás começámos a adivinhar o impacto das então novas tecnologias de informação e conhecimento na organização social e política. Desde logo se sonhou com a democracia direta, assente nas tecnologias do tempo real. Otimistas e catastrofistas anteciparam sociedades em que as decisões políticas eram tomadas com base em votações de massas — a cada decisão cabe um referendo.
Tal como sucedeu com as outras antecipações, também esta ficou longe da realidade — tanto nos aspectos de que afinal se reveste, como no poder de impacto.
Tem vindo a suceder nas indústrias e na economia, na socialização, na privacidade: a Internet — a sociedade digital reticular — tudo toca e transforma. É ingénuo imaginar que a política resiste ao efeito.
Se é verdade que em democracia a cidadania activa confere a indivíduos e associações uma capacidade de intervenção que está para além do voto, não o é menos que tal participação é extremamente limitada, circunscrita a pequenos grupos. Além do voto, não existem formas de intervenção susceptíveis de representar todas as perspectivas do eleitorado. Muito menos existem mecanismos que permitam consultar a sociedade de forma imediata — tanto no sentido do tempo como no sentido de livre de intermediação.
A rede acaba com essas falhas. Estar em rede empossa tanto os indivíduos como os grupos de todos os tamanhos e feitios. Empossa-os de ambas as faculdades: fazerem ouvir a sua voz sem a filtragem da sub-elite que decide o que cabe nos meios de comunicação de massas tradicionais e influenciarem a governação em ciclos temporais muito mais curtos.
Ao contrário do que muitos disseram temer, nas reações à manifestação de 12 de Março, esse empossamento não se reveste da capacidade golpista: por si só não derrubará governos ou promoverá ditadores. Mas tem um impacto pesado e direto nas formas de exercer (e legitimar) a ação governativa diária.
Voltando por uma frase ao português simples: subitamente, “a rua” passou a ter mais do que o voto de 4 em 4 anos.
Em sociedades onde a governação já esteja demasiado longe da “rua”, criando um vazio que lhe tira sustentabilidade, pode acontecer que o empossamento digital reticular implique uma “diferença de temperaturas” capaz de dar o golpe final para o derrube do regime.
Podemos incluir o Egito nesse quadro. Mas não Portugal. A pressão sobre as classes da imensa mediania — isentando-se daqui as super-elites e o lumpen, que não só não foram tocados como beneficiam da situação de crise — resulta bastante mais dos problemas gerais do sistema do que da ação governativa, com as suas contradições e, até, respostas erradas aos desafios gerais.
Isto explica porque o 12 de Março foi sobretudo uma manifestação, apresentou sinais de rebelião, mas ficou muito longe da revolução silenciosamente temida por um pequeno grupo e secreta e ardentemente desejada por outro pequeno grupo.
Em poucas palavras: no caso português o tiro não atingiu diretamente o governo (ou o PR, ou a AR), mas chamusca visivelmente os partidos. Porque os curto-circuita, estabelecendo ligações diretas entre governados e governantes. Podemos detestar perder o estatuto de intermediários ou não gostar que os níveis de intermediação, tão essencialmente democráticos, sejam postos de lado, como fez Cavaco Silva ao usar o Facebook para responder às críticas ao seu discurso, fazendo Marcelo Rebelo de Sousa abanar a cabeça e manifestar a sua desaprovação. Mas não podemos ignorar.
Como comecei por dizer no Correio da Manhã, o desafio dos empossados, não é um desafio à democracia em si mesma, pelo menos por enquanto. Mas é um desafio para a sua organização — o que em Portugal é feito através do sistema partidário.
Não é, sequer, a primeira vez que vemos o sistema partidário ser abalado. A sua perda de eficácia é notória de eleição para eleição, visível no aumento do número de eleitores que não se reconhece nele.
O que fazem as crowdpolitics e wikipolitics — a política ativa das multidões, por analogia com os termos wikinomics e crowdsourcing — é desafiar a lógica hierárquica dos partidos e apresentar uma alternativa horizontal, em que a colaboração das massas coloca as questões a que a classe dirigente tem o dever de dar resposta, e concorrer com eles na apresentação de propostas de ação.
Uma das características mais importantes destas rebeliões — faz notar Manuel Castells, que lhes chama wikirrevoluciones — é não poderem ser abafadas. A Internet não se trava ou pára facilmente. Quando muito, consegue-se desacelerar durante breves períodos de tempo.
Ontem o El País apresentou uma reportagem intitulada Twitterrevolución em que identifica alguns aspetos das mudanças no poder político resultantes do empossamento reticular.
Resumindo, como fiz na primeira versão da crónica para o CM: a Internet tem vindo a desconstruir sucessivamente tudo o que toca. Depois de atirar indústrias ao tapete, está agora a baralhar as contas da democracia representativa.
Os partidos deverão ter algum tipo de reação. Tanto podem vir a aproveitar o caudal de energia e a janela tecnológica para usar a política das massas, a crowdpolitics, para a revitalização de que tanto têm vindo a falar, como perderem importância para novos tipos de interlocutores eventuais, que saltam do Facebook como pulgas da areia.
Há reflexões pertinentes por produzir, nomeadamente em torno do conceito de mediação. O tempo de maturação, de diálogo, até de negociação têm sido fundamentais para o exercício democrático, estão na sua genética. Até que ponto vem a crowdpolitics mexer com essa genética?
Contudo, nenhuma reflexão pode omitir, marginalizar ou esquecer a crowdpolitics. Em português simples: é como estar nos anos 90 a pensar sobre a música ignorando os downloads.
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Depois da #manif: como canalizar a energia e dar expressão funcional ao crowdpolitics?
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Este sábado, ainda os manifestantes não tinham dispersado na Baixa lisboeta e no resto do país e já eu terminava a crónica para o Correio da Manhã de domingo. Nem todos os assuntos encaixam tão justamente no cabeçalho da crónica, que é também o título deste blog: "ondas na rede". A versão final está publicada, além do papel, na edição online, aqui: a geração desafio.
Mas entendi publicar a primeira versão, ainda sem os cortes e ajustes imprescindíveis para a limitação de espaço do papel. Fi-lo também porque pretendo realçar o que não pude no papel, devido à mesma limitação: o conceito de crowdpolitics e a sua emergência nas várias latitudes. Segue-se abaixo o texto original.
A Internet tem vindo a desconstruir sucessivamente tudo o que toca. Depois de atirar indústrias ao tapete, está agora a baralhar as contas da democracia representativa. Não direi que seja totalmente inesperado, mas já não tenho dúvidas de que confundiu mesmo os que puderam ver a onda chegar, logo à entrada do século.
O poder da informática e da sociedade reticular não é disruptivo só para os downloads de canções: uma vez aprendidas, as ferramentas de comunicação e partilha ganharam outras utilidades. Vimo-lo repetidamente no Médio Oriente, vimo-lo ontem nas nossas cidades.
A manifestação "organizada" através do Facebook teve na televisão e na imprensa um eco legitimador. Apanhou a sociedade no momento certo e explodiu: deixou de ser um movimento "jovem", da "geração à rasca", ou incentivado pelo Presidente da República, para se tornar num evento coletivo e plural, sem etiquetas.
Mas protestar só por si serve de pouco ou nada. Terminada a catártica festa, o desafio agora é: como canalizar a energia e dar expressão funcional ao crowdpolitics?
(Foto: Correio da Manhã)
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Contratar spam? Para quê? É ainda mais barato aproveitar as listas geradas pelo utilizador
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Comprar uma lista de milhares de endereços de e-mail para enviar mensagens comerciais é barato, bem sei, mas é cada vez mais um disparate do ponto de vista económico. Na verdade, basta aproveitar as listas de endereços geradas pelos utilizadores: é grátis.
E tem uma vantagem provável: a taxa de endereços de confiança, ativos, é certamente maior do que nas listas vendidas comercialmente. Mais: podemos sempre usar os próprios endereços dos remetentes, aumentando estelarmente as probabilidades de não estarem filtrados.
Espero que já tenham compreendido que este é um post irónico. É que acabo de receber mais um mail a "divulgar" um blog de poesia, tudo tão inocente que até faísca, abro o cabeçalho e a mensagem tem mais de 100 destinatários, no campo "Para:", alguns deles belíssimos, entre jornalistas, bandas, músicos e até comediantes, que eu próprio tenciono aproveitar (embora não para spam).
Tanto caminho a percorrer na aquisição de competências no mundo ligado...
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Palavras-chave no Correio da Manhã: completa-se o ciclo
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E pronto, o ciclo completa-se. Aí está a aplicação Palavras-chave desenvolvida para o Correio da Manhã. É a “irmã” mais nova dos Tópicos do Jornal de Negócios e de O Que Está a Dar no Record.

Já apresentei e desenvolvi o projeto aquando do lançamento dessas duas versões (ler Tópicos do Jornal de Negócios: uma novidade no jornalismo em português bem como O Que Está A Dar, no Record: o agregador esperto que faltava ao jornalismo de desporto), pelo que aqui vou dar notícia apenas das novidades agora introduzidas.
Em Palavras-chave voltamos a ter como página inicial uma nuvem de termos. Com a mesma lógica: a dimensão de cada palavra-chave dá-nos de imediato a noção do seu peso no noticiário das últimas 24 horas.
Suprimimos aqui o modo de visualização de uma "primeira página" definida pelo “editor-robô”, que avalia as palavras-chave, a relação entre elas e o próprio fluxo das notícias para seleccionar uma quantidade variável de assuntos. Essa forma de visualização continua, porém, dentro do projeto, para aplicações futuras.
Introduzi uma novidade ao nível da navegação: a segmentação das palavras-chave por prateleiras dominantes (política, desporto, mundo, etc).
Mas a melhoria que mais destaque merece foi feita ao nível da página de cada palavra-chave, ou tópico: a introdução de um gráfico de barras representando a frequência com que a respectiva palavra-chave surgiu nas notícias ao longo do último mês (ver imagem ao lado).
Tal como nas outras duas aplicações, também esta tem uma extensão no jornal em papel, apresentando a nuvem, mas da semana. E com duas nuances:
- a introdução de um sobe-desce — as palavras-chave que vieram a subir e assim se deverão manter, e as que pelo contrário estiveram a descer ao longo da semana, sendo de prever que deixem o topo do noticiário;
uma nova funcionalidade da aplicação: descobrir uma palavra-chave há muito tempo infrequente no noticiário ou de preferência totalmente nova.
Pode ler aqui a primeira crónica saída das Palavras-chave: Benfica emocionante culmina mês de luxo
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O iPad 2 e porque muito provavelmente não o irei comprar
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O iPad é um aparelho espantoso, a vários níveis. Soube antes do lançamento -- é ler o que escrevi em 29 de Janeiro do ano passado: iPad: promessas de amanhãs que cantam (e porque estou cauteloso com elas).
É claro que acabei por ter um. Não porque seja um Apple fan boy. Sim: tenho a maçã no computador (um MacBook Pro a entrar no seu excelso quinto ano e está aqui para lavar e durar, dos melhores investimentos possíveis em computadores pessoais), tenho a maçã no telemóvel (o meu iPhone faz 2 anos este mês e vai bater outros 2 antes de eu pensar em mudar) e tenho a maçã no tablet. Tal qualifica-me como um consumidor de produtos Apple -- um fan boy é outra coisa e há, até, fan boys que não têm um único produto Apple.
O nosso iPad é uma maravilha (digo nosso porque ele é utilizado por mim e pela minha mulher).
Ontem foi anunciada a segunda versão do iPad. O iPad 2. Vai estar à venda em Portugal mais cedo do que o costume.
Meia dúzia de luminárias acha que quem comprou o iPad no Natal foi enganado, só porque a Apple lançou uma segunda versão 3 meses depois. Desculpemos-lhes: vivem nos anos 80, quando uma segunda versão vinha corrigir e substituir a primeira, quando uma segunda versão vinha colmatar uma necessidade de maior capacidade.
Hoje não é assim. A capacidade superior do hardware é gira e interessante e, nalguns casos, útil -- mas deixou de ser um fator determinante para o upgrade do equipamento. Deixou de o ser aí pelos inícios da década passada, graças à Lei de Moore.
E dela decorre em boa parte a explicação: muito provavelmente não irei comprar um iPad 2 pela simples razão de que dele não necessito, obrigado, e porque não sou um Apple fan boy.
Calculo que uma pequena parte dos utilizadores atuais de iPad precise das capacidades suplementares do iPad 2, como as duas câmaras. Estimo que sejam em percentagem inferior aos que farão o upgrade por uma razão estupidamente simples: porque podem.
Mas isso não me aquece ou arrefece. E estimo que seja o que se passa com a grande maioria dos utilizadores atuais do iPad.
Como consumidor Apple, sei que posso esperar do meu iPad de primeira geração um desempenho idêntico ao do meu iPhone de primeira geração, que cumpre brilhantemente as funções para as quais foi adquirido.
Então o iPad 2 não vai ser um sucesso?
Claro que vai. A Apple não fez este upgrade a pensar no mercado de substituição, que sabe ser irrelevante (quem não sabe são os analistas desatentos, os passadistas e os wannabees crónicos a quem o ecosistema reticular, no qual Darwin não se aplica, permite a subsistência).
A Apple fê-lo porque é a sua natureza e modus operandi pensar nos próximos clientes. Nos milhões de clientes que ainda não têm um iPad e que estão na mira também da sua concorrência, que não tem estado propriamente a dormir.
Não está na genética da Apple avaliar pormenores tão insignificantes como o que pensarão os clientes sobre a "obsolescência de moda" -- porque é de uma questão de moda e de imagem que se trata, não de uma obsolescência funcional, de capacidades ou de desempenho.
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Apreciação das edições iPad do Expresso (2 estrelas) e Diário de Notícias (4,5 estrelas)
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Instalei e apreciei as edições iPad dos dois jornais portugueses que as apresentaram esta semana: Diário de Notícias e Expresso. Segue-se uma primeira e breve apreciação.
A do Expresso arruma-se rapidamente: 2 estrelas. 1 estrela pelo esforço, outra pelo trabalho da transposição do design do papel para o digital: o facto de ser inútil e até contraproducente não invalida que foi um bom trabalho.
A versão iPad do Expresso não passa do encapsulamento da edição papel numa embrulho subordinado à lógica gráfica daquela, mas inadequado ao aparelhos do tipo tablet.
O Expresso segue a orientação do grupo Impresa que já vimos nas edições da Caras, Exame e Visão. As 4 têm a mesma aproximação: encaram os aparelhos móveis como suportes, desprezando como irrelevantes as mudanças nos hábitos de leitura e de consumo de informação, bem como o próprio aparelho e a versatilidade com que nele se manuseia e navega pelos artigos. (E mantém a arreliadora característica, já uma imagem da marca Impresa, de só permitir a visualização de certas páginas, como o índice de conteúdos, virando o iPad na horizontal).
Sendo uma aproximação válida (quais não são?), é uma aproximação conservadora e minoritária na migração dos jornais para os tablets.
No que respeita às funcionalidades esperáveis em tablets, a versão iPad do Expresso não apresenta nenhuma: partilha, envio por e-mail, marcas ou classificações, pesquisa, zero: tudo modernices desnecessárias. Geralmente as aplicações que nascem tortas não se endireitam -- mas há exceções, como a app do Jornal de Negócios, que corrigiu a falta de funções numa segunda e rápida versão. Esperemos que a do Expresso esteja entre elas, até porque o jornal já antes soube corrigir erros de trajectória, como murar os conteúdos na web.
A versão iPad do Diário de Notícias também se arruma facilmente: 4,5 estrelas. Só não leva as 5 porque o conteúdo é somente o da edição web, apresentando incongruências: há notícias telegráficas que se poderão justificar numa edição web mas que numa aplicação deveriam surgir ou numa seção específica, ou então esperarem pelas peças já desenvolvidas. Mas é um pequeno pormenor que não deslustra uma edição que me surpreendeu pela positiva: é a que apresenta mais recursos esperáveis em edições em rede, na época da partilha e do poder do leitor.
O DN apresenta uma edição iPad moderna, racional, adaptada ao aparelho. E sobretudo adaptada ao leitor destes meios "modernos".
Mais: a app do DN é a primeira portuguesa que eu conheço que tem.... pesquisa! Uma função essencial em ambientes de hiperabundância de informação.
De resto, a app do DN tem partilha. Tem navegação horizontal. Tem boa apresentação.
Resumindo a semana iPad portuguesa: Expresso, 2 estrelas; Diário de Notícias 4,5 estrelas.
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A economia do jornalismo é efetivamente muito simples
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Deixemos de lado por um momento os yes-man pagos para pensar o contrário e aceitemos o que julgo estar suficientemente demonstrado: que no mundo off-line nunca descobrimos um modelo económico para sustentar o jornalismo usando exclusivamente, ou principalmente, a sua produção como produto (mais aqui). O modelo dominante, de muito longe, é o da venda da atenção dos leitores a anunciantes, embalando a publicidade destes rodeando os conteúdos jornalísticos. A escassa quantidade de exemplos do contrário é eloquente.
A economia do jornalismo é efetivamente muito simples.
Se o preço da publicidade cai, a única forma de sustentar um jornal/marca jornalística é aumentar a exposição (o número de páginas, contatos, horas de atenção do consumidor) e diminuir os custos de produção (despedir jornalistas e funcionários em fim de carreira ou de baixa produtividade).
Em alternativa, é possível vender um produto jornalístico baseado na sua qualidade intrínseca, dispensando o modelo da publicidade. Se a quantidade de pessoas dispostas a pagar por ele for suficiente para gerar um lucro. No mundo físico a ineficácia dos sistemas de produção, distribuição e coleta impossibilita as micro-operações. Mas na Internet, o reino da cauda longa, é economicamente viável explorar nichos. As tecnologias de produção, distribuição e coleta existem e são usadas com regularidade há décadas.
O caminho para os micro-pagamentos não foi fácil e rápido como se esperava nos anos 90, mas está na sua maior parte percorrido: há um mercado a funcionar com produtos na ordem de um dólar e até menos.
Agora, façam o seguinte exercício. Perguntem ao Doutor Balsemão (que homenageio, personificando na realidade qualquer outro media tycoon, nacional ou estrangeiro) que caminho prefere. Alargar a exposição e embaratecer os custos de produção desinvestindo nos produtos caros e com baixa taxa de retorno, ou diminuir as suas operações e concentrar-se nos produtos com potencial de qualidade para atrair a exígua minoria de consumidores de informação que pagam por ela?
Em seguida, perguntem a um jornalista o que prefere: ficar num grupo de massas para aviar e curar conteúdo indistinto ao metro, sonhando com a posição social de que a classe outrora beneficiou, ou libertar-se, levar o seu conhecimento (e as fontes) de um nicho, focar nele as suas atenções e usar as ferramentas digitais, com vista a explorar o micro-cosmos que a Internet torna economicamente viável?
As respostas andarão a meio caminho, espero. Mas é este o quadro de decisões e não a fábula do consumidor ter de pagar duas e três vezes para ler notícias do domínio público, como alguns querem fazer o mercado acreditar, usando sem pestanejar o seu poder para impôr a ordem.
Nota adicional: o iPad deslumbra os media porque vêem nele, muito justamente, a nova embalagem. Estou certo que há um nicho para explorar ali. O nicho das pessoas que gostam de informação embalada com alguma elegância. Procuremos mais nichos, está bem?
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"Os conteúdos online dos jornais portugueses devem ser pagos pelo leitor?" e outros equívocos
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A pergunta é um problema. "Devem" é uma expressão moralista. Tem implícita a ideia (falsa) de que os conteúdos não são pagos por quem os consome online, ao mesmo tempo que empurra a responsabilidade do sucedido para cima do presumido ladrão, vitimizando os jornais.
Esta é, a meu ver, a aproximação errada às questões que se colocam com o futuro da atividade económica do jornalismo. Que é o que está aqui em causa, e não as mudanças no papel do jornalista, que são dirimidas noutras instâncias ou -- como é mais o caso -- ignoradas pelos próprios.
Grassam três equívocos no espaço comunicacional, veiculados por representantes da indústria incumbente, que é bastante poderosa e acredita precisamente no seu poder para (voltar a) impôr o seu modelo sobre a sociedade, repondo o status quo nos eixos.
Equívoco 1: os consumidores de informação pagam as notícias.
Equívoco 2: o leitor só tem jornalismo de qualidade se pagar por ele.
Equívoco 3: o acesso à informação na Internet é grátis.
O que os leitores de jornais e revistas pagam é o serviço de transporte de uma embalagem contendo notícias e a embalagem ela própria. A propriedade que muda de mãos é uma embalagem da qual depois selecionam, como quem escolhe as melhores batatas da terra, as notícias que querem ler. O número de items que lêem é muito inferior à quantidade de items embalados -- a maioria das notícias não lhe servia para nada, ou seja, não lhes atribui, sequer, valor. Na realidade, os leitores nem sequer adquirem direitos de propriedade sobre as notícias, uma vez que correm o risco de ser processados se as revenderem na sua própria embalagem. Podem revender, sim, o objeto que efetivamente adquiriram: um pedaço de papel.
Não poderia ser de outra maneira. Não se chegou a revelar, no mundo do átomos, um processo economicamente viável de o consumidor escolher as notícias que lhe interessam e pagar unicamente por essas.
É na empacotagem que está o (segredo do) negócio. O que tem implicações, como veremos mais à frente.
Seguindo para o equívoco 2: o consumidor paga por jornalismo de qualidade duvidosa e consome jornalismo de alta qualidade sem esportular um cêntimo -- isto no mesmo dia e dentro do mesmo grupo editorial. Dispenso-me de dar exemplos, remetendo o leitor para os grupos portugueses proprietários, ao mesmo tempo, de televisões, jornais e revistas.
Só há uma forma de entender isto: é que há diversas formas de operar um negócio de conteúdos. Há formas de lucrar com jornalismo de qualidade sem que o consumidor pague um tostão diretamente por ele, abundando exemplos na televisão e na rádio, e há formas de obter lucro de jornalismo descuidado ou mau ou simulado.
Finalmente, o equívoco terceiro. Na verdade o consumidor paga o acesso à Internet. Sem esse acesso, não poderá ler as notícias. Não sei colocar o assunto de forma mais simples. Logo, as notícias não lhe ficam de graça.
Na hipótese, absurda, de eu querer ler uma única notícia por mês na Internet, tal teria um custo não inferior aos 19 euros que, penso, são o pacote mais barato existente em Portugal.
Nesta altura há sempre quem apresente o argumento de que o custo é diluído uma vez que com esse acesso o cliente pode fazer muito mais coisas. É verdade. (Já era verdade com o papel, que também tinha mais usos depois de lidas as notícias.) Mas sem esse custo não pode ler as notícias. Logo, há um custo -- única demonstração necessária para desfazer o equívoco.
Na realidade, todo o acesso à informação fora da Internet tem um preço. Nunca os jornais deram nada de borla, nem mesmo os gratuitos; e todo o acesso à informação na Internet é pago -- bastante barato, é certo, do ponto de vista do cidadão, que fica contente, e de quem opera a caixa registadora.
O problema dos incumbentes da indústria de produção, embalagem e transporte de conteúdos é que não podem meter a mão nessa caixa registadora. Como metem na anterior, que lhes pertence. É essa a barreira que tem de ser contornada. Não o leitor, ou a tecnologia, ou outro diabo à mão de semear.
O debate sobre o futuro do jornalismo online enferma sempre do mesmo erro de partida, que de resto é um dos óbices à evolução dos atuais jornais e órgãos de comunicação para a transposição dos seus processos para as plataformas digitais em rede.
O erro é o seguinte. A esmagadora maioria dos conteúdos produzidos pela indústria profissional do jornalismo não tem valor suficiente para gerar receitas diretas. Nunca teve. É certo que os jornalistas gostam de pensar e dizer o contrário, o que nos fica bem pois temos de valorizar o que fazemos, mas a realidade é diferente.
Tenho-o dito e repetido: o modelo de negócio dos jornais decorre principalmente dos acidentes geográficos. A maior fatia de lucro está na embalagem e respetivo transporte até uma audiência e na venda da atenção das diferentes audiências aos anunciantes. O que os jornalistas produzem tem o papel de prestigiar a embalagem, de forma a esta distinguir-se das restantes (separar as audiências implica aumentar a eficácia da venda da sua atenção). Por si só, no mundo offline, o produto jornalístico tem um valor próprio praticamente nulo. A única forma de o explorar consiste em explorar os negócios associados (embalagem, transporte e venda da atenção da audiência através dos espaços publicitários) e mesmo para isso é necessário reunir um número mínimo de produtos de forma a interessar o leitor.
O modelo de negócio da rádio e televisão é semelhante, com uma diferença: na maior parte das situações não era possível cobrar a jusante pela embalagem. O cabo veio alterar isso (acabando com a dependência do jornalismo como agente de prestígio e credibilidade, para grande satisfação dos donos das cadeias pois viram diminuir os custos de fabrico e manutenção da marca).
Agora, a Internet e o avanço tecnológico vieram alterar a situação porque introduziram sistemas que permitem explorar economicamente a "cauda longa". Algumas empresas já o demonstraram cabalmente, como a Amazon e a Google. A única explicação que encontro para a indústria do jornalismo ainda não ter encontrado, ou inventado, o seu próprio método de exploração desses sistemas, abertos a todos, reside na sistemática recusa dos seus principais agentes em entender o que é e como se organiza e funciona o ambiente digital em rede, que é o espaço onde se movimentam hoje os seus clientes.
Ou seja, e para terminar: a aproximação certa a esta equação é a contrária à formulada na questão e os algozes do jornalismo online encontram-se do lado dos incumbentes, que se têm declarado repetidamente, e com grande gáudio, incapazes de se re-orientarem, e as vítimas são os leitores, privados contra a sua vontade do consumo de informação de qualidade.
Se, chegado aqui, o leitor -- que é um representante dos incumbentes -- tamborila e diz, está bem está bem, já sei disso de cor e salteado, diz-me lá mas qual é a saída, pois é já para a próxima frase. As saídas, porque há várias, passam pela fragmentação. Small is the new big. Essa palavra é a chave. Agora, puxe um bocadinho pela cabeça e com ela abra o seu raciocínio, pense no que isso significa nos vários níveis e como se pode fazer em cada um deles. Sempre é mais útil do que invectivar contra os ladrões dos leitores. Sobretudo porque ele não o são.
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A parte má das redes? A autorização social 2.0 para julgarmos os outros...
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A parte boa das redes e da Internet? Podermos trabalhar para os mesmos objetivos de uma forma económica, com menos restrições, ferramentas possantes, o conhecimento de uma imensa mão de obra especializada ao nosso dispôr.
A parte má das redes e da Internet? Pensar que o poder da rede nos torna sábios juízes com uma autorização social 2.0 para julgarmos os outros e ditar o que devem e o que não podem fazer.
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BLOG Ondas na Rede é uma coluna de divulgação/opinião publicada em papel e em formato eletrónico. Aos sábados e domingos é publicada na página de Televisão & Media do Correio da Manhã a versão para o papel.
Diariamente, e em contínuo, são publicados neste blog artigos e e dicas. O diálogo com os leitores do Correio da Manhã (papel e online) é mantido sempre que possível em tempo real, tanto neste espaço como através das redes sociais onde me encontro.
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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.
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