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Novembro 2010 - Posts

O segredo é a alma do negócio (dos media online)
 
Colocado por Paulo Querido 29 Novembro 2010 Comentar
 

No âmago do “problema” que a Internet “criou” à indústria dos media estão dois assuntos.

O mais grave é ser um sistema aberto, que promove a disseminação do conhecimento e eleva a livre circulação de informação à categoria de princípio.

O menos grave é a redução dos custos de produção e distribuição, ao ponto de espatifar as barreiras de entrada para o clube dos proprietários dos “direitos de autor”.

Ao fim de década e meia a baterem com a cabeça na parede de uma equação que não compreendem, uma vez que é alienígena aos seus processos de gestão, os old media assumiram uma nova atitude. E desencadearam uma ofensiva contra a web.

Têm razão na sua hipérbole: sendo o segredo a alma do negócio, só existirá negócio em cima de segredo; logo, não pode existir negócio onde não há segredo. Decrete-se pois o fim dos ambientes abertos e criem-se barreiras à entrada.

É o que estão a querer fazer. Tirando algum partido do momento: as tecnológicas que pagaram a fatura do investimento que proporcionou essa abertura estão numa fase de alterações, tanto internas como de objetivos. Abriu-se uma janela de oportunidade para os players menores intervirem nas comunicações.

A ofensiva tem 3 frentes. A legal, a das alianças e a propagandística. Nesta última é onde os old media possuem maior capacidade, naturalmente. Mas também é onde enfrentam os exércitos maiores e melhor apetrechados de inteligência, com a agravante de serem sub-avaliados por quem vê neles nada mais que estúpidos bandos de pilha-conteúdos (em Portugal há disso nos melhores grupos de old media).

Frente legal

A frente legal teve na semana passada um desenvolvimento absurdo: um tribunal decidiu que os hyperlinks são propriedade intelectual (High Court rules newspapers can charge for web links). Segundo o tribunal, os direitos do proprietário de uma notícia (?) impõe-se ao direito de terceiros fazerem referências ou menções a essa mesma notícia.

A decisão tem um objetivo compreensível e aceitável: sacar uma parte das receitas do clipping, uma indústria que de parasita antes da Internet passou a respeitável depois da Internet — e, quiçá, necessária, tendo em conta as imensas quantidades de informação produzida pelos media que hoje é preciso filtrar. (A indústria do clipping online vale 11,7 milhões de euro anuais no Reino Unido, só para dar uma ideia.)

Mas tendo um tribunal decidido que o link tem propriedade, é uma questão de tempo até o conceito dos “nobres objetivos” ser alargado aos pilha-conteúdos. A interpretação da decisão é inequívoca: o simples uso do título de um artigo como referência bibliográfica pode infringir direitos de autor. O passado de meios como a Reuters deixa bem claro que só o facto de ser uma medida ainda sem sustentação legal e que gerou reações negativas na blogosfera travou o instinto: cobrar pelos links.

Esta situação tira evidentemente partido da fraca capacidade associativa e de resistência tradicional das redes — um paradoxo que é fácil de explicar: a qualidade das ligações é inversamente proporcional à quantidade delas que estabelecemos.

Será intelectualmente muito interessante ver até que ponto a vantagem da facilidade de criar ligações nas redes digitais se consegue consubstanciar numa vantagem usável na sociedade. Alguns acontecimentos recentes, da resistência e da organização social através do Twitter e do Facebook, permitem-me pensar que a entidade antes conhecida por “O Povo” é capaz de proporcionar agora uma resposta inesperada que baralhe o deve-haver da batalha legal.

Sendo práticos: aos old media o que menos interessa, claro, são os aspectos da razão, legitimidade, legalidade ou falta dela. Mesmo os resultados e os inevitáveis avanços e recuos nos labirintos das relações de poder entre (e com) os juízes e os legisladores e “O Povo” têm interesse secundário.

O principal, o que realmente interessa é manter essa frente aberta. Cansar e desgastar, minar e subverter. É o objetivo da batalha por esse lado. Com o tempo, tudo muda, até o mundo. Tempo e dinheiro são a alavanca para mudar a natureza da web pela via legal. Haja confiança no fator Arquimedes.

As alianças

A tática é a frente atualmente mais interessante de seguir. Os grupos de old media têm aliados naturais, claro. Levaram algum tempo a descobri-los, mas têm. Quem não gostaria de construir um redil para 2.500 milhões de carneiros? É esse o prémio para quem controlar a Internet: uma audiência cativa de 2.500 milhões de almas, e a aumentar.

Essa audiência foi conseguida numa velocidade incrível e como sub-produto dos investimentos noutros mercados (as telecomunicações, sobretudo), graças fundamentalmente à natureza aberta das suas tecnologias e técnicas e ao baixo custo da capacidade produtiva (a informática e o tempo de milhões de cidadãos libertado pela informática e pela conetividade).

A livre circulação e troca de informação foi determinante e essencial para a implantação dessa audiência, desse mercado pronto a explorar. Mas não está escrito em lado algum que o mercado tem de continuar a operar na mesma lógica de abertura onde não é possível ter segredos nem controlar a concorrência. O que está escrito, isso sim, é que quem conseguir construir uma cerca do tamanho da internet poderá ditar as regras a partir daí.

Cada uma à sua medida, a Apple e o Facebook estão nessa corrida. A Google e a Microsoft, gigantes históricos, não estão nessa corrida (a primeira porque aposta na abertura e a última com evidente contra-gosto). Mas enquanto a Apple é uma empresa tradicional, com a qual se podem procurar parcerias e negociar, o Facebook é obra de um doido imprevisível e único: não se sabe o que vai sair dali, mas sabe-se que nesta altura é um atirador solitário, pouco dado a servir estratégias que não a sua.

Mas não há ilusões. A ambição do Facebook é ilimitada e não há quartel na sua guerra. Está a um passo de fazer história tornando-se proprietária de uma palavra. Mais uns juristas sensibilizados pelos advogados de Zuckerberg e dentro em breve teremos de pedir autorização — ou pagar — para escrever na Internet a palavra “face”. Não, leitor. Não estou a alucinar. Leia na melhor das fontes: a oficial.

A News Corporation terá feito uma aliança com a Apple. Há evidentes benefícios mútuos, pelo que Steve Jobs decidiu condescender e apresentar como um favor o que de qualquer forma acabaria por fazer: modificar o iTunes para permitir modelos de subscrição ao tempo, em vez de à peça. Os produtores de media — todos, antigos e novos e futuros — agradecem.

Jobs não precisa de acreditar que vai salvar o seu negócio. Murdoch precisa. Mas isso é irrelevante. Uma fatia — por mínima que seja — dos “conteúdos” poderá ser fechada atrás de um muro com franquia. Saber se a quantidade é suficiente para um modelo de negócio alternativo, complementar ou de substituição é, para já, a questão realista. Menos realista será a crença em que a fatia mínima de conteúdos franquiados fará alguma diferença ambiental no curto prazo ou no prazo longo, tornando-se na diferença cultural, geracional, de que os old media precisam.

Frente propagandística

Julgarem-se os detentores de “A Verdade” está-lhes na massa do sangue. No código genético. Acredite, se ler no jornal — é o lema genérico que passam. Na verdade a capacidade propagandística dos media é um facto que a História tem infelizmente comprovado repetidamente. Não é preciso recorrer ao arquivo do século XX para encontrar exemplos de operações de propaganda impostas aos media por governos e grupos económicos. A segunda guerra do Iraque chega.

Na frente propagandística o objetivo atual é passar 2 ideias. Uma, a de que os editores e autores independentes — conceito tão lato que inclui a autoria que não tenha vendido o seu produto às empresas de media incumbentes — são ladrões dos conteúdos produzidos com tanto suor e sacrifício por essas mesmas empresas.

A outra, a de que as iniciativas de reconquista das ovelhas tresmalhadas são um sucesso, significando esse sucesso que a Internet não passou de um ciclo diabólico, um “Pequeno Interregno na Grandiosa Marcha Dos Media Fechados”. Um equívoco das multidões, enganadas pelos ladrões da informação.

Entre diversas peças citáveis, ligo esta de Cory Doctorow no Guardian: News Corp Kremlinology: what do the Times paywall numbers mean?. Resume-se numa frase: o segredo é a alma do negócio (e tudo faremos para impôr de volta o ambiente de secretismo).

Apesar de reconhecer como formidável o poder transformante dos media sobre a realidade, e de vislumbrar — tanto intelectual como operacionalmente — o fio invisível que separa a informação da propaganda –, penso que esta frente é a mais difícil para os old media. É o resultado mais incerto.

Desde logo porque “as massas” não são assim tão parvas e manipuláveis. Não pretendo aqui surgir como mcluhanista (até porque McLuhan refletiu sobre o mais fechado dos meios), mas há que perceber até que ponto a manipulação resulta do controlo sobre o meio, não do destinatário e da sua condição. Parece-me que quanto mais liberdade de escolha o destinatário tiver, menor é a dependência do meio, impossibilitando o controlo (ou pelo menos tornando-o impraticável enquanto modelo de negócio).

É descaradamente fácil condicionar uma audiência circunscrita a uma sala escura. É relativamente fácil condicionar uma audiência distribuída, agrupada em torno do mesmo écran em pequenas salas. Mas à medida que os ambientes envolventes se abrem e permitem a intervenção de terceiros sobre a mensagem, compromete-se a eficácia da manipulação. O processo será irremediável a partir de um certo limite de intervenções sobre cada mensagem.

Ou seja, e sintetizando: a mensagem “acredite, se ler no (meu) jornal” não tem eficácia num ambiente de concorrência de fontes emissoras e diversidade de intervenientes sobre as mensagens e os seus significados. (Fica igualmente difícil estabelecer a paternidade de cada mensagem e informação devido ao contributo distribuído.)

Penso, contudo, que não se deve cometer o erro de subestimar a capacidade dos old media de contarem uma história apresentando-a como “a verdadeira”. Sobretudo quando nos estão a contar uma história em que têm um evidente interesse próprio: a história da sua sobrevivência.

Portanto, a guerra em curso tem um desfecho imprevisível por agora. É possível que finde o período de abertura e os vencedores imponham as suas regras. Aconteceu antes (a rádio também prometeu a abertura e a liberdade e acabou instrumento de segredo como os outros — consta que está agora a voltar às origens, graças à… Internet).

Mas também é possível que se tenha atingido um ponto de não retorno com a Internet: nunca tantos tiveram tanto acesso à informação, em condições tão igualitárias e num ambiente tão livre.

Se assim for, o domínio do negócio pelo segredo e pelo clubismo dos auto-designados proprietários da informação não será mais opção. Se assim não for, voltaremos ao século XX e ao noticiário com dono. Há quem defenda que era bom para a democracia.

(Imagem de networking: Wine Diver Girl)

Do primeiro post à blogopedia: contributos para o estudo da blogosfera
 
Colocado por Paulo Querido 19 Novembro 2010 Comentar
 

A Catarina Campos, uma blogger amiga de longa data, fez-me recordar via Twitter um projeto que não pegou. A Blogopédia -- uma tentativa de produzir um registo histórico da blogosfera, blogs e bloggers, ao jeito de enciclopédia, usando a mesma ferramenta que a Wikipedia.

A Blogopédia começou em 2005 e ainda a mantive online até 2006 ou 2007, já não me recordo. Depois o domínio caiu. Mas na web pouco se perde: graças ao web.archive.org, é possível navegar pela Blogopédia, que na verdade faz o retrato da blogosfera até Novembro de 2006, quando deixou de ser editada.

Podeis ver a Blogopédia e navegar pelas suas entradas quase como se estivesse ativa. Basta clicar.

Entretanto, decidi republicar aqui um artigo que fui escrevendo ao longo de alguns dias, sobre o 1º post -- uma recolha dos primeiros posts, ou artigos inaugurais, de alguns dos blogs emblemáticos, e outros nem tanto, do período que vai da pré-história da blogosfera portuguesa até aos anos da expansão, 2003-2005. Fica aqui em baixo reproduzido esse pedacinho de história.

A leitura é morosa, bem sei, mas é deliciosa. Dá bem para ver as diferenças de estilo. A escrita começou por ser larga, descritiva, pessoal, às vezes íntima. Nada parecido com o tom de hoje, que é de diálogo ou profissional. Ou propagandístico. Façam favor:

O 1º post

 

10 de Março de 2007 - 06:45

Conteúdo

 [esconder]

 

Pioneiros (pré 2002)

Antes de haver sequer um nome para o fenómeno, antes de existir o Blogger, já se escreviam blogues em Portugal.

Macacos Sem Galho

30.03.1999 | link Arquivo de 1999 | link

Primeira entrada de sempre

It's 1:27 a.m. and I'm still sitting in front of the computer, listening to The Beatles and exchanging ICQ messages with some guys. The fact that I'm actually maintaining two conversations at the same time can get confusing, especially when I should actually be sleeping... perhaps I should get off my butt and go make myself some coffee.

Or maybe not, I do need to sleep if I am to begin working on the new cartoon series early tomorrow.

I finally brought myself to using the "please mail my password back to me, I'm a dickhead and lost it" service at fortune city so I can actually upload these files and let my life float around on that magnificently ethereal thing they call the "net".

I'm not in a bad mood today, which is a nice exception. Let's see exactly how long I can stay like this.

The shitty frozen lasagna I had for dinner is kicking my stomach and my brain is begging for some coffee, or maybe sleep.

I think I'll just throw my ass in bed, eat some ChocoCrispies and read Sandman comics, I'll come back later.

These are the very first lines of this completely uninteresting diary website; if all goes as nature intended this project will be forgotten within a week and a couple of html files will linger, lonely, here until Fortune City decides to put them out of their misery.

My special thanks to Kikoo for staying up late talking rubish with me and hitting reload on his tired browser to check out this page. Live long and prosper man.

It's 2:38 a.m. GMT, logging out.

Dee's Life

03.10.1999 | link

Como é que se começa um diário? Como tudo, o mais difícil é o início. Depois as coisas começam a encaixar nos seus devidos lugares e passa a ser rotina. Mas os inícios são sempre um desespero. Penso que o ideal será fazer um resumo do que se passou até aqui. Será mais simples depois explicar certos acontecimentos. [...]


01.12.1999 | link

Dia da Restauração. Em 1640 lá escovamos os espanhóis e retomamos a nossa independência. Como é que Portugal seria se isto não tivesse acontecido? Dia Mundial da Sida. Infelizmente de triste memória.

Acordei constipado, o que é uma chatice. A noite correu bem e a Joana dormiu que nem um anjinho. Fui ao Pingo fazer umas compras ( a Joana acha que eu estou a ficar obcecado pelo Pingo Doce, o que não deixa de ser verdade, porque aquilo é mil vezes mais civilizado que os hipermercados que por aí se encontra), aproveitei e passei pela casa dos PP's onde vi a mesa e cadeiras que ficaram lindas na sala. Eu tenho muito bom gosto ;-). Regressei a casa , onde estive a fazer coisas.

A Joana está farta de estar deitada. Imagino o que seria se estivesse os 9 meses ( como acontece com algumas pessoas). É sempre assim. Qunado queremos ficar a mongar, não podemos. Qunado temos de mongar, não nos apetece.

Ia buscar a Cat, mas achei que deviamos estar mais um dia sem ela. Afinal as 48 horas só terminam amanhã .

Jantar e estivemos a ver um filme giro sobre as artimanhas que se fazem qdo está em causa um escandalo presidencial. Isto na América do Clinton, pois claro! Adormeci e arrastei-me até à cama.


02.01.2001 | link

A COMISSÃO de Especialistas de Ensino de Comunicação do Brasil já entregou ao Ministério da Educação os novos padrões de qualidade que passam a ser exigidos a partir de 2001 para a autorização e o reconhecimento de cursos de Jornalismo, diz um artigo do Observatório da Imprensa brasileiro. Entre muitas exigências -- que abarcam sete áreas distintas (articulação e fundamentação didático-pedagógica dos cursos, corpo docente, coordenações e administração académica, biblioteca, laboratórios, infra-estrutura física e condições de estudo oferecidas aos estudantes) --, a Comissão de Especialistas estabelece medidas rigorosas quanto ao NÚMERO MÁXIMO de alunos em disciplinas teóricas, que passa a ser de 50, e em disciplinas práticas, que passa ser de 25. Alguém está a ler isto?


21.03.2001 | link

Esta é a primeira (de muitas) entradas nesta espécie de jornal/diário pessoal, mas não tão pessoal como isso. Eu sou a Marciana, benvindos ao meu mundo!


23.04.2001 | link

So I decided I should start 'blogging. In fact, almost a year ago I decided I should start blogging. I invited a few friends to 'blog along and the result was Cafeína, a sucessful 'blog that is starting to look more like an e-zine, rather than a typical weblog. Trouble is, it's in Portuguese (of the European variety), so 90% of the world's population can't read it. So here's IF/THEN/ELSE, in standard BBC English so everyone from Jamaica to Australia (even in the U.S.!) can read my stupid rants.


05.08.2001 | link

[05:03] Há muito tempo que não sentia este medo, esta ira, esta dor, esta raiva, esta desolação, esta insegurança.

Há muito tempo que não sentia falta de ir a correr para casa e de me deixar estar às escuras deitado no chão à espera de algo, Baco ou Morfeu me atacassem e me deixassem inconsciente.

(na realidade, se calhar foram só uns dias e este é o sítio perfeito para me documentar em relação a essa matéria… mas parece que quando as coisas correm bem que o tempo passa mais devagar, talvez a secreta vontade que se mantivessem assim)

[...]


1º Post de alguns blogues "precursores" (2002/2003)

20.07.2002 | link

Agora é que vai for. Depois de uma dúzia de tentativas, depois de todo o 'hype' dos blogs ter avassalado os media, e ter começado a morrer, cá vou eu.

Agora é que vai dar para ter o meu cantinho na web.


15.10.2002 (link)

BEM-VINDO. «A Coluna Infame» é o novo blog (web-log) português de artes, literatura, política e ideias. Para conservadores, liberais e independentes, mas não só. Mande-nos sugestões, comentários, links para artigos e sites. Não deixe evidentemente de visitar o nosso inspirador, o grande Andrew Sullivan, em www.andrewsullivan.com. Este blog, mantido por João Pereira Coutinho, Pedro Lomba e Pedro Mexia, é independente de partidos, igrejas, grupos económicos ou lóbis de qualquer género. Nem sequer estamos sempre de acordo uns com os outros. Somos homens livres, que maçada. «A Coluna Infame» ficará uns dias em fase meramente experimental, dado o facto de um dos seus autores estar em Oxford, a ver a civilização, o outro no Tribunal da Boa-Hora, a defender oficiosamente ladrões de auto-rádios, e o terceiro pelos cafés do Saldanha, entre pilhas literárias e musas condescendentes e caprichosas. Mas em breve o trio estará reunido. Num computador perto de si.


30.12.2002 link

Espero a partir do início do ano de 2003 iniciar uma série de intimidades escritas que os ouvintes da Intima Fracção já merecem. O programa vai a caminho de entrar no seu 20º ano de emissões. Embora esteja sempre disposto a dialogar com os verdadeiros amantes da IF, há uma grande quantidade de informação - pessoal e profissional - que não tem sido até aqui exposta. Contra aquilo que sempre pensei, há segredos que devem ser revelados. Quando, recentemente, acabei por acreditar que existe um público verdadeiramente fiel à IF, resolvi começar a responder a todos os que me têm conseguido contactar e até a estar presente em encontros públicos para que amavelmente me convidam.

Espero que o público compreenda algum afastamento resguardado em tantos anos. Particularmente entre 1986 e 1995, em que o programa foi realizado em estúdios (1º da RDP, depois, a partir de 1989 na TSF), estive sujeito a contactos que eu não pretendia. Salvaram-se alguns, poucos e bons. Desde Outubro de 1995, a IF é realizada no meu próprio pequeno estúdio. A intimidade foi ampliada. Com a facilidade dos contactos via internet, não vejo razão para não me expôr. Quem AMA a IF, é porque tem algo em comum.

Aqui estarei para contar tudo o que quiserem e tudo o que eu quiser. Fraccionadamente e na intimidade do Ciberespaço.


01.01.2003 | link

O PRIMEIRO DIA. Hoje, 1 de Janeiro de 2003, nasce um novo espaço de pensamento e opinião - sobre política e cultura, mas não só - no ciberespaço português. Como é evidente, não pretendemos inventar a pólvora. Desejamos apenas aproveitar esta admirável ferramenta que a Internet nos oferece para chegarmos ao maior número de amigos e cúmplices, tanto no campo da discussão de ideias políticas como na partilha de entusiasmos (ou repugnâncias) intelectuais. Sobretudo, queremos dizer de nossa justiça, num momento histórico em que as direitas vão ganhando um peso cada vez maior, não apenas nos aparelhos do poder político e na esfera económico-financeira, mas também no plano da influência mediática e do combate ideológico.

Com uma guerra à porta e os efeitos securitários do 11 de Setembro a fazerem-se sentir cada vez mais, é imperioso separar as águas. É preciso apontar o dedo, desmascarar as mecânicas de um capitalismo que se alimenta das suas fraquezas e denunciar - sempre, sempre, sempre - as injustiças que os outros calam ou ignoram. Uma esquerda que não seja capaz de remar contra a fortíssima maré conservadora e neo-liberal, é uma esquerda que não vale a pena e que está condenada, a médio prazo, a desaparecer. Ou, o que é pior, a tornar-se um ornamento folclórico.

Aqui, no Blog de Esquerda, estamos disponíveis para todos os debates, todos os diálogos, todos os recomeços. Com uma certeza: ser de esquerda, a sério, é hoje mais importante do que nunca. E nós não vamos faltar à chamada.


23.02.2003 | link

Estávamos no McDonald e saímos como brinde de um Happy Meal a um garoto mal encarado. Mais mal encarado que nós. Lembram-se de nós? Éramos aqueles que estavam no camarote do espectáculo dos Marretas. (Se querem saber mais cliquem nos nossos perfis. Se não ficarem satisfeitos, procurem no Google, que temos mais que fazer...) O *** queria que lhe saísse o Urso Fozzie e deixou-nos à solta. Agora ninguém nos cala, neste Blogástico!! Quem quiser ajudar a mandar marretadas, é escrever para marretas@tugamail.com STATLER & WALDORF


13.03.2003 | link

EXCITAÇÕES

Não consegui resistir ao trocadilho fácil (mea culpa) mas existem citações de abertura que são verdadeiras excitações, não só pelo que dizem mas também pelo que anunciam. Hoje trouxe da biblioteca municipal o último romance (à data) de Francisco José Viegas, Lourenço Marques, que abre com esta citação de Philipe Roth: "Então, eu pensava no género de histórias em que as pessoas transformam as suas vidas, e no género de vidas em que as pessoas transformam as suas histórias." A abrir o capítulo VI, Acção, d.A Condição Humana, a que regresso muitas vezes, Hanah Arendt, cita Isak Dinesen (aliás, se não me engano, Karen Blixen): "Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito." Fica-se ou não com vontade de mais?


19.03.2003 | link

PONTAPÉ DE SAÍDA Aviso à navegação: este é o 'post' de apresentação deste recém inaugurado blog. Link: www.contra-a-corrente.blogspot.com. Contacto (para comentários, sugestões, críticas, etc.): carlosccc@mail.telepac.pt. Tratarei de os colocar aqui, à medida da minha (in)disponibilidade.

Chamo-me MacGuffin. Nickname, ou alter-ego, de inspiração Hitchcokiana. Eles não o sabem (nem, aliás, me conhecem), mas foi graças ao blog A Coluna Infame (provavelmente, a minha principal referência no universo bloguiano) - do triunvirato Pedro Mexia, Pedro Lomba & João Pereira Coutinho - que resolvi aventurar-me nestas andanças. Como inflo-excluído assumido, é obra!

Para começar, e para efeitos de apresentação (confesso que tenho pouco jeito para «pontapés de saída»), tratemos já de abusar do name dropping. Vale mais fazê-lo agora, de uma vez por todas.

Se tivesse de escolher alguma fonte de inspiração para este espaço, escolheria... Nelson Rodrigues. Há anos que a qualidade literária e postura deste brasileiro ensombram (no bom sentido) os meus pensamentos. Para um conservador assumido, com uma costela liberal e outra ligeiramente anarquista (lá iremos, lá iremos...), o carácter desalinhado e saudavelmente «reaccionário» das suas posições, o seu apego incondicional à liberdade, a sua verve e humor têm constituído um nutriente precioso para o meu espirito, e um aconchego para a alma.

Nelson Rodrigues, para muitos o maior dramaturgo brasileiro de sempre, foi, para a época, um delicioso reaccionário . em contraponto relativamente à atitude disseminada do revolucionário de serviço. Conduziu um notável trabalho de decomposição do assombramento gratuito, servido por dogmas e iminências pardas, de inspiração esquerdista (by the way: sei que não sou de esquerda; de resto tenho algumas dificuldades em assumir-me como «de direita». Sobretudo em Portugal...). O seu olhar lúcido, incómodo e desassombrado da realidade, representou, e representa ainda hoje, uma verdadeira lição sobre o que significa pensar livremente, pela própria cabeça, contra certos modelos de alienação. Combatia, em particular, aquilo a que hoje denominamos de "politicamente correcto", bem como o culto do unanimismo, da falsa e gratuita solidariedade, das bebedeiras colectivas e das "vagas de fundo". A tentativa de imposição de modelos supostamente perfeitos de sociedade, por parte da esquerda, repugnava-o. Amante da diversidade e da liberdade, para ele, o indivíduo - o ser humano - estava acima de tudo. Qualquer tentativa para torná-lo em mais um parafuso de uma engrenagem superior revoltava-o.

Geniais e hilariantes foram, também, as suas posições relativamente à onda do .amor livre. e daquilo a que ele chamaria de "culto da imaturidade": a glorificação do pior sentido da palavra «jovem».

Se Nelson fosse vivo, estaria hoje aí, na frente de combate contra a «esquerdite» aguda e a «estalinização» sub-reptícia da sociedade. Contra a palavrosa e cega obsessão, que a esquerda teima em repetir ciclicamente, em torno das mesmas falsas aparências, dos mesmo dogmas, da mesma forma simplista e maniqueista de olhar o mundo. Contra o seu moralismo de pacotilha e a arrogância de tentar empurrar, por decreto, os seus modelos e as suas certezas superiores, para cima de nós.

É um bocadinho desse espírito que pretendo trazer para aqui. Farei deste espaço um espaço de comentário e desabafo livre, sem conotações politiqueiras ou pretensões de qualquer ordem. Não pretendo mudar consciências ou moldar opiniões. Não quero que concordem comigo, ou lançar bases para «capelinhas». Move-me o prazer de discutir pontos de vista. Educada e cortesmente."

Quanto aos vossos comentários, tratarei de os colocar aqui, à medida da minha (in)disponibilidade.

Para terminar esta apresentação, ou este caótico e provisório manifesto, e para esgotar de vez o estigma do name dropping, gostaria de colocar no ar o nome daqueles que, até hoje, mais me influenciaram. "Diz-me de quem gostas, dir-te-ei quem és". A ordem é arbitrária.

Política, Filosofia, História: Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, F. A. Hayek, Raymond Aron, Paul Johnson, A. J. P. Taylor

Jornalismo/Opinião: Nelson Rodrigues, Auberon Waugh, H. L. Mencken, George Orwell, Clive James, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Martin Amis, Christopher Hitchens, Maria Filomena Mónica, António Barreto, Pacheco Pereira, Theodore Dalrymple

Cinema: Otto Preminger, Billy Wilder, Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Nicholas Ray, John Huston, Martin Scorcese, Woody Allen, Ingmar Bergman, Frederico Fellini, Carl Dreyer, John Ford, Murnau, Jean Renoir, Michael Powell/Emeric Pressburger, Francis Ford Coppola, Krzysztof Kieslowski, Elia Kazan, entre muitos outros. Por razões estéticas, cumpre-me referir Monica Vitti, Juliet Binoche, Isabelle Hupert, Harriet Andersson, Elizabeth Shue, Nastassja Kinski, Lauren Bacall e Grace Kelly

Música: mostly jazz.

Literatura: Anton Tchekhov, Fiodor Dostoievski, Marcel Proust, Gustave Flaubert, Oscar Wilde, Edgar Allen Poe, William Shakespeare, Graham Greene, W. B. Yeats, Vladimir Nabokov, Walt Whitman, Philip Larkin, Charles Dickens, Eça de Queiroz, Cesário Verde, E. E. Cummings, Raymond Carver, Raymond Chandler, Franz Kafka, T. S. Eliot e Samuel Beckett. (já pareço o Neil Hannon na faixa "The Booklovers"...)

Feitas as apresentações, agradeço a vossa atenção e participação.

Tema a abordar brevemente: Liberalismo vs Conservadorismo.

PS: este texto foi escrito ao som do álbum "Nénette et Boni-OST", dos Tindersticks. Os meus agradecimentos.


27.03.2003 | link

O captain! my captain!

We dont read and write poetry because its cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. Medicine, law, business these are all noble pursuits necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, and love; these are what we stay alive for.

são 3 da manhã e Mr Keating, aka Robin Williams, faz-me saltar do sofá para leiturascom.net.

leia o verso do uncle Walt e se se lembrar que filme estou a ver, que me fez abandonar por 10 minutos o sofá para fazer algo mais interessante,

[uma das raras provas de utilidade das televisões em geral e da TVI em particular, btw...]

avise-nos aí nos comentários abaixo.

está aberto um blog de citações.

as citações que muitas vezes se tornam excitações.

já agora: como o captain my captain tão bem ilustrou, a poesia serve fundamentalmente para engatar.

«não menosprezeis o engate: sem ele, não estaríeis vivos». podeis citar-me. até já.


29.03.2003 | link

Olá! Bem-vindos ao mais jovenzinho blog português! Com efeito, preocupados com a abundância de fachoblogs de qualidade que pululam pelo ciberespaço (Coluna Infame, Marretas, Valete Fratres, etc.) em relação aos canhotoblogs de qualidade (Blog_de_Esquerda) motivou-nos a fazer aquele que é o princípio da esquerda: estar do lado dos mais fracos, dos oprimidos e de quem achamos que tem razão.

Como a política é um assunto de interesse um tanto limitado, vamos também versar sobre cultura, especialmente as culturas mais marginalizadas como teatro, cinema alternativo e de animação, banda desenhada, alguma literatura que nos interesse (pelos bons e pelos maus motivos) e sexo (e quem achar que o sexo não é cultural faça-nos o favor de bater cem vezes com a cabeça numa barra de ferro ou ir para ali!)

Por enquanto este blog é sustentado por duas letrinhas apenas (o J e o N), mas contamos com a vossa colaboração pelo cruzescanhoto@mail.pt. Até breve!


02.04.2003 | link

As bombas inteligentes não são estúpidas; são bombas que aprendem. Colin Powell, 1991 (segundo me informou a minha querida Ana Albergaria) e Nuno Rogeiro, 2003.


25.04.2003 | link

Gato Fedorento é, como o próprio nome indica, um blog de opiniões e de polémica.

Aliás, a polémica começa logo nesta apresentação porque, dos quatro autores do Gato Fedorento, um acha que o blog não devia ter polémica, outro defende que não devia ter opiniões e outro entende que não devia ser um blog, mas sim um espectáculo de marionetas. O quarto não quis dar a sua opinião, atitude que os outros três consideraram polémica.

À partida, este blog apresenta-se com ideias claras e com um objectivo preciso. Infelizmente, perdemos o papel onde tínhamos isso apontado. Mas eram, de facto, ideias mesmo muito claras, e o objectivo, esse, era particularmente preciso.

Aqui serão abordados diversos temas, com destaque para estes: literatura, política, seios femininos, cinema, a carreira de Tonicha (em especial o período que medeia entre 1977 e 1981) e futebol.


06.05.2003 | link

RTP2 5 de Maio de 2003 - Noticiário das 22 horas - apresentação de um livro de poemas contra a guerra no Iraque - Música e imagens de fundo propagandísticas de responsabilidade dos autores do noticiário. Soldados americanos, bombas, sofrimento nos hospitais. Será que os nossos jornalistas não percebem que inserir estas peças num noticiário é pura propaganda e nada tem a ver com jornalismo?


08.05.2003 | link

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS: Na esteira da tradição lusa, o Mar Salgado anuncia que se prepara para zarpar na blogosfera portuguesa. Não há torpedos relativos nem escorbuto canhoto que nos detenham! Assim que dobrarmos o cabo da nossa iliteracia informática (talvez lá para 2ª feira) prometemos navegar seguramente pelo oceano da blogosfera, enfrentando cara a cara os Adamastores rosas e vermelhos que nos tentem intimidar.

Aproveitamos para saudar calorosamente todos os blogs lusos de esquerda, direita, do Norte, do Sul, do Litoral e do Interior e da diáspora. Resistiremos a ondas e marés, navegaremos por vezes à vista, outras vezes com rumo certo.

Relataremos as nossas descobertas diurnas e nocturnas sobre política, economia, arte e cultura, desporto, astronomia, biologia e astrologia e demais temas caros a todos os marujos, nomeadamente os que andam em torno da magna questão da falta que faz uma mulher no mar alto.

O Mar Salgado é mantido por uma equipa de velhos lobos do mar com vasta experiência oceânica e em portos dos quatro cantos do Mundo, com especial incidência nas vielas do Cais do Sodré. Adeus, até ao nosso regresso. !!!


08.05.2003 | link

A importância de ser ponto.

Sou um ponto. Final, quando usado por si (mim) só, expectante quando em grupos de três, exemplificativo se estiver em pares e ao alto. O meu papel no mundo gramatical é, indubitavelmente, primordial. Apesar da importância que me é reconhecida, nem sempre me sinto respeitado. Escritores de craveira internacional e lóbulos da orelha bem lusos têm-me prestado as mais lisonjeiras homenagens, usando e abusando de mim em frases de alto gabarito:

Só. Sinto-me só. Porra. Porque é que ninguém me compreende. Afinal, sou um homem. E os homens precisam de sexo. Porra. Muito sexo. Compreensão. Foda-se, onde é que eu pus a minha cerveja?

Por outro lado, há quem receba nóbeis (leia-se "nó-beich") e me ignore, pura e simplesmente, optando por narrar momentos de intensidade dramática, como o acasalamento do pardal de bico pardo, em cinco páginas sem qualquer tipo de pontuação. Mas como me sinto melhor é mesmo acompanhado pela minha melhor amiga, a vírgula. Oh, quando nos juntamos os dois é um fartote, uma barrigada! Partimos textos por tudo e por nada, não o conseguimos evitar - às vezes, parecemos o "Boletim Paroquial do Salesianos", com tanta ideia encadeada.

Sou um ponto, sem final, e estou à espera da vírgula para poder partir este texto. Vírgula?


17.05.2003 | link

SAUDAÇÃO aos Manos da Blogosfera. Aqui estamos, respeitosamente, a apresentar a carta de alforria a todos vós, manos inteligentes e cultos, patriarcas das letras e da coisa pública.

O Almocreve é uma palavra com mil letras. Conhecemos bem as nove primeiras mas serão escritas como a libido nos permitir. Seremos brutais na boçalidade dos vossos desejos. O Almocreve será terrível e não faz propaganda. Carregamos o fardo de todos vós e a herança de poucos. Somos como lobos em deserto puro. Estranha maldição a de todos vós. Graças senhor!

Minhas senhoras e meus senhores é entrar é participar para distrair a mente serem luminosos em prosas de merecida estimação e quando à noite vos deitardes levareis reflexão intensa um estágio económico-político com liberdade de expressão ao fundo iniciações cabalísticas por jornalistas encartados dvd's eróticos para colunas infames consultas poéticas em antiquário discurso varonil F-16 para liberais não masoquistas uma rifa de S. Paulo da Moderna petas verdadeiras postas a circular por peixeiras inteligentes uma subida a S. Bento com paragem no Almarjão e egrégias virtudes de vida de cão que o Mondego é aqui. Basta de mau gosto! Sois encantadores!


19.05.2003 | link

de nada, porque é de nada que se trata. que é como quem diz, tudo isto é treta. mas e o resto, não é treta, também? ah, claro, posso dizer, que giro tenho um blog. agora estou up-to-date, é bem. mando o link, venham aqui ver-me a bater punhetas de janela aberta. deixo o diário aberto, esqueci-me dele em cima da mesa do quarto, que maçada, toda a gente vai ler e agora? vão saber como é que eu sou, o que é que penso...

...o que vale é que toda a gente é ninguém (só tu, meu vento do sul, só escrevo para ti) e o que eu penso, o que eu penso vale tanto como tudo o resto: nada.


05.06.2003 | link

O 1º post

Deve haver poucas situações tão necessitadas de um bom desbloqueador de conversa (para quem não conhecer o significado da expressão, aconselho a compra urgente do best seller "O Homem que mordeu o cão" de Nuno Markl) como o 1º post de um blog novo. De maneira que ficaram, de uma só vez, resolvidos dois problemas. O nome do blog e o tema do 1º post, que é, precisamente, a dificuldade de arranjar assunto para o 1º post de um blog novo.

Acho que é de bom tom apresentar-me. O meu nome é Nelson Santos, sou (ou era até 6ª feira passada, ou vou ser em breve de novo) geólogo, tenho durante mais uns dias 27 anos e faço parte, neste momento daquele grupo crescente de pessoas com tempo livre a mais nas mãos e, por isso mesmo, o gastam em coisas inúteis, ou não, ou não.

Há quem me chame desempregado, mas eu não gosto do termo. Daí que tente empregar o meu tempo o melhor que posso, fazendo as coisas que gosto até arranjar um novo emprego. Para começar ando a dormir muito mais, a comer muito menos e a passar demasiado tempo em frente a um teclado. Mas também para namorar, para ler, ver e ouvir, e até para dar mais atenção ao que se passa à nossa volta, todos os dias e para conversar com as pessoas. Desde *** que penso: "Porque é que com tanta gente com coisas interessantes para dizer porque é que as pessoas que ouvimos a comentar dizem sempre tão pouco?" Eu sei, eu sei, o comentário de um *** deveria ser "Ena, que gaja com mamas tão grandes", mas eu era um *** meio estranho, e por isso pensava em coisas mais desse género.

Bem, para 1º post, e como apresentação, acho que já me estiquei um pouco. Ao jeito de cumprimento, um grande abraço para quem tiver a (in)feliz ideia de ler isto...não se pode acertar sempre!


12.06.2003 | link

PORQUÊ?

Em poucas linhas:

a) entramos na blogosfera numa altura em que ela está em ebulição, e não pelos melhores motivos. Fazemo-lo com algum orgulho - é bom que coisas nasçam em tempo de crise.

b) juntamos neste projecto um grupo de pessoas que, dos Açores ao Porto com centro em Lisboa, não teriam outra oportunidade de integrar juntas um projecto.

c) discute-se muito a verdadeira relevância dos blogs. Será, seguramente, coisa para avaliar a médio, longo prazo. Mas comprometemo-nos a publicar diariamente porque:

1) acreditamos na separação entre o trigo e o joio; 2) acreditamos que os blogs são uma boa sede para jovens cronistas ou cronistas sem oportunidades na imprensa; 3) é aliciante fazer parte de um novo tipo de media; 4) agrada-nos a oportunidade de escrever, pelo simples prazer de fazê-lo, partilhar opiniões, informações, histórias.

Somos um grupo que inclui jornalistas, arquitectos, designers, juristas, argumentistas, filósofos, numa média de idades que vai dos 22 aos 39.


16.06.2003 | link

Comentários & distracções - é isso mesmo. Não vale a pena enumerar grandes princípios sobre o assunto. A partir de amanhã, 17, começará a vida do «Aviz». Vivo lá e isso é suficiente.


Dicionário do Diabo

18.06.2003

O nome deste blog, Dicionário do Diabo, é uma homenagem a The Devil's Dictionary (1906), de Ambrose Bierce, escritor satírico americano. The Devil's Dictionary está para a sociedade americana como o Dictionnaire des Idees Reçues para a francesa, embora supere em cinismo o manual de Flaubert. Podem saber tudo sobre Bierce, e inclusivamente aceder integralmente ao texto do seu dicionário, por exemplo aqui.

Significa esta homenagem que Dicionário do Diabo é um blog cínico? Provavelmente, sendo essa uma das características assumidas do seu autor.

Aqui se escreverá sobre política, artes e letras, comportamentos. Haverá diálogos com os leitores. Umas quantas polémicas serão inevitáveis. E não recuso uma boa dose de pura escrita diarística, cujo conceito também se discutirá nesta página. «Um blog de Pedro Mexia», como se diz aqui em cima, é uma indicação descritiva, mas em certa medida exaustiva: sendo um blog pessoal, Dicionário do Diabo terá com certeza as virtudes, defeitos e fobias do seu autor. Alguns meses de experiência bloguística trouxeram decerto algumas lições; e muito mais há para aprender neste admirável mundo novo. O Dicionário inicia hoje a sua actividade. Passem por aqui sempre que acharem bem. Obrigado.


20.06.2003

ON YOUR MARKS, GET SET...: A partir de hoje, amigos, estamos aqui num novo blog chamado «Flor de Obsessão». Este nome, como muitos sabem, é uma referência ao dramaturgo Nelson Rodrigues que será um dos padroeiros desta página.

«Flor de Obsessão» foi uma de muitas expressões geniais inventadas por Nelson Rodrigues (e a selecção dessas melhores frases, organizada pelo magnífico Ruy Castro, foi editada justamente com este título). Escolhi-a porque ela ressalta o lado de Nelson Rodrigues que mais me interessa. Nelson Rodrigues definia-se como uma caprichosa e dedicada «flor de obsessão» e a sua faceta de obsessivo tímido e repetitivo, de crítico desvairado de comportamentos é uma coisa que não pára de me espantar.

Quanto mais o leio, mais me apercebo do seu intenso e provocador lirismo, da radicalidade das suas escolhas, da sua «reivindicação de pureza» como muito bem observou o Francisco José Viegas num óptimo post que dedicou ao escritor brasileiro. E digo-vos que sou tudo menos insensível ao modo como Nelson Rodrigues tratava a língua portuguesa, à sua insistência no adjectivo, ao vigor admirável dos seus parágrafos, aos começos e finais dos seus textos (de uma beleza fulgurante, conradiana.

Falaremos muito de Nelson Rodrigues por aqui. Tal como ele, considero-me um escravo da forma, com todos os perigos e adversidades que isso comporta. Pois é: 2 mil anos de civilização, a Crítica da Razão Pura, a física quântica mas esta dependência da forma, do estilo, a sonoridade de um bom adjectivo é algo que não conseguimos erradicar por mais que tentemos. E olhem que já tentámos. Todos. Voltarei a este assunto muitas vezes daqui para a frente. Resta-me desejar que passem por aqui quando vos apetecer. Este blog é vosso.


20.06.2003 | link

SOCIO[B]LOGUE: APRESENTAÇÃO

Num dos seus mais conhecidos ensaios, «Marginalia», E. A. Poe (1809-1849), debruçava-se, de forma eloquente, sobre o seu fascínio pelas anotações, apontamentos e comentários com que coloria abundantemente as margens dos seus livros. Essas notas anódinas - nas suas palavras «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» - constituíam, em sua opinião, lembretes imprescindíveis na reconstituição do texto; embora se tornassem desprovidos de significado e ininteligíveis se separados, isolados ou subtraídos do seu contexto original. Este blogue é, também, ou sobretudo, de alguma forma, uma compilação desses «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» que tanto fascinavam Poe. Sociológicos, claro.


22.06.2003 | link

Chego atrasado ao mundo dos blogs atraído pelas modas dos solitários de fim-de-semana. Em bom rigor para mim faz sentido, sobretudo aos dias da semana.

Após um périplo pelos blogs de direita percebo que há algo de sedutor da estratégia discursiva reinante: o cinismo. É só. Talvez a distância que deles me preserva esteja para além de uma libido estético-política.

Exercem em mim sedução neste momento: Laetitia Casta e José Mourinho. A necessidade de afirmação heterossexual/homofobia deveria obrigar-me a uma clarificação das pulsões sedutoras. Mas não. Vou deixar a coisa assim. Sem saldo no telemóvel vou a net e adio a minha agonia ritual para o fim do mês.

Após a Guerra do Iraque e a acalmia sobre a pedofilia os telejornais parecem tornar-se lugares sombrios e vazios. Estranho...

Fui ao fórum social Português e gostei. Adoro socializar. Tenho também uma tendência para acreditar em coisas que não se vêem mas se esperam. Talvez seja das boas companhias.


24.06.2003

INÍCIO

Sim, também eu não resisti. O prazer de ler os outros (o Abrupto, o Aviz, o Dicionário do Diabo, o Blog-de-Esquerda, o essencial Ponto Media e por aí adiante) deu-me o alento necessário. Puro umbiguismo, claro está.


25.06.2003 | link

A POLÉMICA BLOG

Feliz coincidência esta, poder começar uma nova coluna semanal de imprensa ao mesmo tempo que um blog - e vou usar a forma blog em vez do blogue politicamente correcto. A coisa tem ainda mais graça por causa da polémica desencadeada por um editorial do DNA de sábado passado, onde se defendia, na realidade, que quem tem acesso a escrever nos media tradicionais não devia utilizar este novo media que são os blogs.

Num interessante artigo publicado na Online Journalism Review Mark Glaser aborda a forma como os blogs estão a influenciar os media e pediu a oito influentes bloggers para estabelecerem listas dos seus blogs preferidos. Listas e artigo em glaser.


25.06.2003 | link

Primeiro

«E as coisas? Como vão as coisas? As coisas estão malparadas. O que quer dizer, exatamente, a Coisa? Não é a vida em geral. A Vida é tudo o que tu tocas e que te toca. Já a Coisa é outra coisa.»

O Luis Fernando Verissimo (assim, sem acentos), nem que seja em versão amputada, como é o caso, vai ser um dos visitantes involuntários mais frequentes destas Terras. Porque sim, mas também porque não. O Nelson Rodrigues tem quase tanto espaço como ele na estante. Mas, no que às Coisas diz respeito, este blogue tem tudo a ver com o Luis e nada a ver com o Nelson. Se quiserem, tomem isto como uma declaração de princípios.


03.07.2003 | link

Começar

Gostava de ter um blog com um aspecto gráfico à Pacheco Pereira, aquela barra vermelha com a palavra fica muito bonita, mas por enquanto isto é o que se pode arranjar.

Desconfio que este blog vai ser do género diário, inspirado ou mesmo copiando involuntariamente aqueles que eu mais aprecio no género, o do Pedro Mexia e o do Pedro Lomba. Não sei se este blog merece um título tão bom. Vou mudar de parágrafo para falar sobre o título.

A Praia foi o título que eu inventei para uma revista sobre política e ideias que havia de ter saído por 1999 - mas não saíu. Tenho um orgulho imenso neste título - e a bem dizer noutros que já inventei (more on this later; aliás, aqui vai haver umbiguismo em barda).

A Praia era um projecto excelente, só foi pena não se ter feito. A minha ideia era juntar um grupo de amigos para coordenar a revista, e depois pedir artigos a uma série de gente. Alguns dos amigos já não são meus amigos, mas eu continuo a não ter dúvidas de que teriam sido óptimas pessoas para fazer A Praia:

o Daniel Oliveira, que entre outras coisas agora assina de vez em quando uns posts no blog-de-esquerda e teve uma polémica com o João Pereira Coutinho (para este não faço link, esteja lá onde estiver) que deu origem ao fim da Coluna Infame (quem nunca a leu, vá ler, porque mesmo depois de morta continua a valer a pena); o Pedro Adão e Silva, que agora é membro do secretariado do PS e escreve no País Relativo; o Pedro Magalhães, que entre outras coisas escreve óptimos artigos de opinião no Público (hei-de falar muito nisto); o António Ravara, que agora talvez seja uma espécie de infoexcluído; o Pedro Rufino, que é um dos autores da revista de arquitectura Prototypo; o André Belo, que faz um blog a partir de Paris; o Paulo Varela Gomes, que escreve umas colunas de opinião numa revista que não se recomenda, Os Meus Livros.

Numa próxima ocasião explico o título.


03.07.2003 | link

Uma questão de princípio O colonialismo foi o fenómeno de mais longa duração na história portuguesa e Moçambique, porventura, o território colonial português onde o seu exercício mais se distanciou do pretenso luso-tropicalismo. Colonialismo, tão-somente, portanto.


18.07.2003 | link

Primeiros passos - Teste

Até agora os passos que segui foram bastante simples: a) digitei "blogs" no Google e segui um dos primeiros links que me apareceu e vim dar a blogger.com, b) após um breve scanning da informação na primeira página seleccionei a opção "start now" no topo da página, c) apareceu um ecran para eu fazer o meu registo, d) foi criado o espaço para o meu blog onde seleccionei "add my first blog" e... e) aqui estou eu.

Acho que mais simples deve ser difícil.

PS - Depois de ter pré-visualizado o conteúdo (Preview your post) verifiquei que a única coisa que não funcionou bem foi a determinação automática da hora - penso que o servidor deve estar nos EU... também não me posso queixar pois não paguei nada para que o alojassem.

 


29.07.2003 | link

Hipótese

Não se publicava poesia. Ninguém atribuía qualquer importância às capas dos livros. O design gráfico não existia, naquela sociedade radicalmente anti-materialista com que sonhei. Uma sociedade anti-esteta, racionalista, nos limites do suportável. As capas dos livros eram feias mas isso não tinha qualquer relevância. As capas dos livros eram todas iguais. Uniformizadamente: uma fotografia tirada por um mau fotógrafo de instantâneos que levava 25 euros por fotografia. Mal se adivinhavam os corpos dos escritores, sentados algures em cafés indistintos, longínquos e misturados com a multidão de bebedores de bicas e comedores de pastéis de nata. Às vezes os escritores eram fotografados a esbracejar e enquanto falavam. Ficavam de boca aberta ou com os rostos tapados pelos braços em movimento. Nas contracapas publicavam-se os nomes dos autores e os dos seus pais e os números de contribuinte e de beneficiário da segurança social. Os autores publicavam em quartetos, um livro continha sempre quatro textos de quatro escritores que não tinham nada a ver uns com os outros. Os autores disputavam entre si a abertura dos livros. Organizavam-se duelos à moda antiga. Às vezes os autores morriam naquilo. Fazia-se lobbying junto dos editores para que colocassem este ou aquele romance no princípio dos livros. Às vezes funcionava. Os livros eram objectos horrendos com lombadas enormes. A tendência era para aumentar o número de romances por livro.


10.08.2003 | link

Primeira "posta": a TSF

Regressado de férias corro para os blogues. Quero ver, prioritariamente, como foi tratada a questão TSF (demissão da direcção, projecto Rangel, reacção dos trabalhadores, etc). Entristeço-me. Muita conversa - mas quase tudo ao lado. E tudo porque um trabalhador da casa, Carlos Vaz Marques, decidiu responder a uma "posta" de, se não me engano, Pedro Mexia, em que este considerava a TSF uma "rádio de esquerda".

Ligam-me à TSF profundas razões do coração. Mas também da razão. E, sendo assim, lamento que na luso-blogosfera não se tenha debatido o essencial: o que pretende a PT (via Emídio Rangel) para a TSF?

As indicações disponíveis prometem o pior. Ou seja: acabar com a estação enquanto rádio-notícias. Porquê? Para bem de quem? Como inverter este processo? Porque não usar a blogosfera para fazer chegar este debate aos tubarões da PT, fazendo-os perceber que há no corpo ouvinte da rádio quem esteja preocupado?

Lanço uma proposta concreta: que os trabalhadores da rádio preparem um documento sobre "O que deve ser e o que não deve ser a TSF". E que o preparem já, antes da divulgação na íntegra do "projecto Rangel", para que não seja demasiado contaminado por raciocínios meramente reactivos.

Darei as minhas achegas. Humildemente, como simples jornalista. Porque não sou da TSF nem nunca fiz rádio. Como - digamos assim - um ouvinte especializado.


31.08.2003 | link

Primeira entrada :)

Bom, esta é a primeira entrada do meu weblog... Desde já algumas considerações quanto ao porquê, modo, frequência, estilo e conteudo dos textos, vários espero eu, que irão aparecendo aqui. Começo pelas mais fáceis:

  • Frequência: Como passo pelo menos 8 horas à frente desta maldita máquina, os textos irão aparecendo ao correr do trabalho...conforme o estado das coisas e o tempo livre... pelo menos uma entrada por dia :).
  • Estilo: Livre
  • Modo: Discurso indirecto livre...não consigo escrever majestaticamente :)
  • Porquê: Not yet available...
  • Conteúdo: Devido à natureza profissional: relatividade geral, cosmologia, sistemas dinâmicos...para perder tempo tb se arranja alguma coisa sobre: Software Livre... e o mais que venha...

Esta coisa dos blogs tem q se lhe diga. Mandaram-me este Blogs em .pt q lista alguns dos weblogs criados por portugueses ou em Portugal entre 25 de Janeiro e 2 de Julho de 2003.


01.09.2003 | link

Caros Bloguistas, blogueiros.....

Como já repararam este é um blogue diferente. Primeiro, porque é diferente; segundo, porque não é igual aos outros; terceiro, porque não venho para aqui escrever sobre tudo e sobre nada; quarto, porque nem sempre escrevo.

Por isso mesmo, este blogue está já no top 10 dos blogues mais vistos, lidos e relidos em todo o mundo. Daí que brevemente haverá alterações de fundo - Mais colunistas, mais informação, mais reflexão.

Haverá um painel fixo de colunistas que será constituído por jornalistas activos e passivos, politicos activos e passivos, cidadãos activos e passivos, homens públicos e homens secretos - também activos e passivos...


10.09.2003 | link

O que é que tem o Barnabé?

O que é que tem o Barnabé? O Barnabé é um blogue sobre política e cultura. O Barnabé não é um blogue intimista. O Barnabé é tão Narciso como os outros, mas tem vergonha na cara. O Barnabé é um blogue pós-narcisista. O Barnabé é um blogue de esquerda e heterodoxo. O Barnabé não é um albergue espanhol. É um hotel de seis estrelas. O Barnabé não é paroquial e acompanha os debates internacionais. O Barnabé é laico, republicano e há mesmo quem seja socialista. Há até um anarquista. O Barnabé não está com meias medidas. Defende nem mais nem menos do que a redistribuição das riquezas à escala mundial. O Barnabé considera a Internet uma dessas riquezas e age, no cantinho que é o seu, pela partilha dos extraordinários recursos e conhecimentos que ela pode oferecer. O Barnabé procura a polémica entre blogues, entre colunistas de jornais e entre os seus próprios criadores. O Barnabé ameaça com a mão e dá com o pé. O Barnabé não é simpático. Não é nem do Belenenses nem da Académica. O Barnabé é plural. O Barnabé não tem entre os seus participantes neo-conservadores, testemunhas de Jeová e munícipes de Felgueiras. O Barnabé é diferente dos outros. Não será lido por mais de cem pessoas, e fará tudo para dar nas vistas, entrará em polémica com Pacheco Pereira. Os pais do Barnabé têm mais ou menos a idade do Barnabé . alguns são mais velhos ., canção de Sérgio Godinho de 1972. São eles:

. Daniel Oliveira é político a tempo inteiro, polemista, bloquista, bloguista, sensacionalista e pai babado. . André Belo é historiador em fase terminal de doutoramento caótico, escritor anedótico e emigrado neurótico em Paris . Rui Tavares é historiador em fase comatosa de doutoramento, anarquista, percussionista e voyeurista. . Pedro Oliveira é historiador, conservador de esquerda, ex-editor da revista .Política Internacional. e em fase vegetativa de doutoramento. . Celso Martins é jornalista do .Expresso., pai babado mas crítico de arte, professor. . Rosa Pomar é conhecedora do misterioso mundo do html, ilustradora, tecnológica, pós-moderna e mãe babada.

São quase todos amigos há mais de 10 anos. Discutem violentamente e atacam-se mutuamente. Não são, no entanto, permitidos insultos vindos de pessoas estranhas ao serviço. O email do Barnabé é barnabe@yahoogroups.com.


30.10.2003 | link

CHEGA DE SAUDADE. Os Diários começam agora. Eu sei que demorei. Nada disto é fácil. Foi preciso reunir três incomparáveis génios da computação e assaltar o banco.

Tudo tratado. O Pedro estruturou a coisa. A Marlene desenhou a coisa. O Hélder caricaturou o coiso. E eu, penhorado, fugi para parte incerta. Prometi apenas escrever.

Diariamente. Ninguém falou em pagamento. Pagamento? Tenham vergonha na cara. Isto é arte. A arte deve ser o avesso das mesquinhas questões mundanas. Os filistinos nunca aprendem. Nem eu.

Obrigado por terem vindo. Façam o favor de entrar. Não se assustem com o cão. À vossa esquerda, os pecados. À vossa direita, as virtudes. Faz sentido: pecados para a esquerda, virtudes para a direita. Eu juro que foi totalmente involuntário. Não se ria, dr. Sigmund. E de hoje em diante, pecados e virtudes, devidamente alternados.

De que tratam estes Diários? Como o nome indica, dos dias do plumitivo. Os meus. Os vossos. Não existem diários privados. Eu sei, eu sei: podemos citar dezenas de exemplos. Mas citamos dezenas de exemplos precisamente porque são exemplos públicos. Fim de conversa. Melhor abreviar a missa e passar directamente ao ataque. Eu acredito na posteridade. Mas a minha posteridade será triste. Larvas e bichos. Viúvas carentes. Amantes recentes. Uma prole alargada a discutir a paternidade. A Associação Portuguesa de Escritores a esgadanhar-se de remorsos. Maria Gabriela Lençol a murmurar: «ele até era bom moço...». O melhor é aproveitar. Já. Para ler. Escrever. Rir. Chorar. Fustigar. Ser fustigado. São as linhas da minha rotina. Prometo controlar-me. Mas se algum filho da *** sair das marcas, eu juro que [Peço imensa desculpa ao auditório. Não volta a acontecer.]

De modos que: cinco dias por semana. Dias úteis. Dias inúteis. De segunda a sexta. Prometo abrir a alma - a alma - e comentar o mundo. Que será, no essencial, o meu. Não é uma questão de vaidade. É uma questão de fé: espalhar a Palavra pelos incréus é tarefa que me coube em vida. Aceito com resignação e cumpro com esperança. Todos temos contas a prestar a Deus no Dia do Juízo Final. Eu procurei abreviar caminho e passarei a prestar contas ao auditório neste Juízo Final - canto inferior direito, com actualização diária. Ou quase. Não se acanhem. Não se excitem. Não se macem.

Segunda estou de volta para começar a trabalhar. No duro. Até lá, passem a palavra. E, por favor, tenham medo, tenham muito medo. Um cronista sem reputação é como um político que diz a verdade. Não. Faz. Sentido.

1º Post de outros blogues

07.09.2004 | link

Da origem dos blogues e de outros estados de melancolia

Começo hoje este blog como terapia para o meu recém-adquirido estado de desempregado (há cerca de três horas). São dias sempre árduos, esses em que nos despidimos de alguém. Daí que, para mim, um blog será sempre um reflexo de um estado de melancolia que é, como toda gente sabe e vem nos livros, de todos os estados de alma, o mais produtivo.

Há um conto que gosto muito do Nuno Bragança em que uma personagem feminina diz que «é triste partirmos sem termos ninguém a quem dizer adeus». Fica desta forma provada que as mulheres nem sempre sabem o que dizem.

PS: Tem piada. Acabo agora de verificar a citação que fiz do conto «Despedida» e ela está errada (ESTAçÂO, p. 77, Assírio & Alvim, 1981). Na verdade, diz assim: «É mau embarcar sem acenar a alguém», o que é mais bonito, mas menos apropriado à utilidade que tinha em mente para a dita citação. Das virtudes da memória e dos seus esquecimentos, sussura-me alguém do lado. É. Mas isto há-de ficar para depois.


13.08.04 | link

Getting started

"Quem não vê bem uma palavra

não pode ver bem uma alma"

Who doesn't see a word well

doesn't see a soul well

Fernando Pessoa (in A LÍNGUA PORTUGUESA, 1997:Assírio & Alvim)

I want to explore my world as a "privileged outsider" in Portugal, working in two languages. It's not so much the language itself that interests me, it's the worlds that those languages represent. English is my connection to the international academic and professional world and to my family. Portuguese is my connection to my day-to-day world, my friendships, my survival, my local knowledge. Both represent different and equally important aspects of my learning, my struggles and my alma.

In terms of language, English is my first language and Portuguese my second. As a child I spoke Swahili although I didn't have a clue how it was written nor any notion of the grammar. I did French up to A'level which helped me read and understand Moliére and other French literature, but I can hardly speak a word.

Now the first question is: Do I translate or not? If I do, how? How do I represent the words in different languages? This is an exploratory blog, to try out what I do.

alma = soul


17.05.2005 | link

À Chegada

A ideia do blog e o titulo deste foram iniciativas da Joana Vicente Dias às quais me associei com o apelativo verso do Rilke.

Conheci a Joana Amaral Dias num estúdio de TV e, depois na sua meteórica passagem pela Assembleia da República, onde revelou, desde logo, uma enérgica insubmissão perante os seus pares, e todos os poderes instalados e a instalar. Agradou-me o tom, o som, o carácter.

Aqui estou com ela, e com os futuros participantes neste blog para me expressar o mais livremente que conseguir. Serão textos breves e variados nos temas, em contraste com outros exercícios escritos meus.

Sou um leitor assíduo de blogues há cerca de dois anos e já dediquei um ou outro artigo no DN ao fenómeno que me valeram variadas respostas e convites simpáticos para entrar na blogosfera. Sozinho não me aventuraria. Com as companhias esperadas sinto-me com BICHO CARPINTEIRO!


Diale

02.10.2005 | link

Depois de duas tentativas relativamente bem sucedidas de blogs aqui começa a terceira. Esta num formato bastante mais completo e robusto.

Começo a suspeitar que o formato blog está esgotado, isto é, tem algumas falhas que de seguida explico:

  • Linearidade: os blogs são lineares, são usualmente ordenados cronologicamente. O erro óbvio está no problema de escrever num mesmo sítio sobre, por exemplo, matemática, literatura, nuvens, software livre.
  • Não conformidade com os standards: quando se publica um post, confirma-se se o HTML está em conformidade com os standard daW3C?
  • Impermanência: a única coisa constante é a mudança, e assim muita coisa muda e a nossa visão das coisas e da vida muda também (embora se possa negar). Voltar atrás e mudar não faz sentido quando a informação está estruturada cronologicamente.

Mesmo assim, com tudo isto, aqui fica. O começo!


03.03.2004 | link

Página de partida Neste meu filho vou colocar textos já publicados em Grupos MSN de discussão, tais como o MOH (Moçambique Ontem e Hoje) e no MGM (Comunidade Lourenço Marques/Maputo). Do baú sairão coisas antigas, sabe-se lá porquê guardadas, muitas vezes gritos de dor por viver num mundo onde valores se perdem como referência, onde o seguidismo ideológico cega o espectador passivo para a violação contínua dos tais Direitos & Liberdades, parece que constitucionalmente protegidos em todo o mundo, ignorados neste dia-a-dia que nos agride. Aqui quero deixar memórias e reflexões. Aqui quero ser eu. Carlos Gil.


29/07/2005 | link

ACORDEI

Acordei do meu sono e olhei em volta, reparei que muita coisa se alterara por entre os muros da minha urbe, isto sem contar com a explosão de telhados, que do meu posto avisto fora da protecção destas seculares pedras que protegem o burgo. Surpreso pela evolução que avisto, vislumbro aqui e acolá pretextos da falar em evolução, em modernidade ou em autênticos ataques à mais simples da regras da vida, a noção de estar ou fazer a bem da coisa comum. Se houve uma revolução urbana nesta urbe em tempo idos, esta foi operada no tempo d'El-Rey D. Manuel I, foram tempo de modernidade, em que esta velha e nobre vila se abriu, viu como das suas escuras ruelas nasciam espaços abertos, se erguiam, para glória do clero, novas e modernas igrejas e como se empreendiam esforços para dignificar a urbe, que El-Rey elevou à categoria de Cidade, à dignidade de Sede Episcopal. Mas o tempo passou, passaram as dignidades, as solenidades, os cercos e batalhas, as nobrezas e o sangue do povo que com o seu suor fez de Elvas a "Chave do Reyno". Queira pois El-Rey, muy senhor nosso com a benção de Deus Redentor, que esta minha cidade, não seja apenas os telhados que vislumbro. Pois sim, acordei...

 

Uma conversa com Eric Schmidt, o CEO da Google. A não perder
 
Colocado por Paulo Querido 18 Novembro 2010 Comentar
 

A web 2.0 Summit 2010, da O'Reilly Media, é um dos eventos mais sérios sobre a Internet e as tecnologias de comunicação. Esta conversa de John Battelle e Tim O'Reilly com o CEO da Google, Eric Schmidt, é um daqueles momentos em que não devemos perder pitada. Sente-se e ganhe estes 44 minutos na sua vida.

 

Google Instant chega a Portugal
 
Colocado por Paulo Querido 18 Novembro 2010 Comentar
 

A Google anunciou hoje uma nova interface e um reforço da infra-estrutura que a torna rápida e com maior capacidade de previsão, segundo um press-release da empresa.

O Google Instant vem tornar a pesquisa mais fácil ao apresentar aos utilizadores resultados de pesquisa na própria página principal à medida que vão escrevendo na caixa de pesquisa.

A Google estima que o Instant permita a um utilizador comum poupar entre 2 a 5 segundos em cada pesquisa. Se todos os utilizadores do Google usassem o Instant seria possível poupar mais de 11 horas por segundo.          

A partir de agora, a nova funcionalidade estará disponível no google.pt para todos os utilizadores portugueses com conta Google iniciada. A nova funcionalidade será disponibilizada faseadamente ao longo das próximas 24 horas.     

O objectivo da Google é tornar o processo de pesquisa de informação mais rápido e por isso todos os segundos contam. Do Google suggest - que a partir de hoje é passa a ter o nome de “Google autocompletar” – a Google aprendeu que a previsão dinâmica daquilo que os utilizadores pesquisam reduz em 50% o tempo que demoram a escrever uma pesquisa comum.   

Com o Google Instant, um utilizador nem precisa acabar de escrever ou carregar em “enter” para pesquisar. A nova funcionalidade oferece:

    * Resultados dinâmicos – Os resultados de pesquisa relevantes são apresentados dinamicamente à medida que se escreve na caixa de pesquisa de modo a permitir uma interacção rápida e clicar nos conteúdos nos quais estamos interessados.

    * Previsão de texto – Prevê o resto da pesquisa do utilizador numa linha de texto cinza antes mesmo de acabar de escrever. Basta olhar e encontrar o que procura.  

    * Percorra a pesquisa – Percorra as previsões e veja instantaneamente os resultados para cada uma à medida que passa por cada uma delas.

A Internet é para pornografia (já sabíamos, mas os números impressionam)
 
Colocado por Paulo Querido 15 Novembro 2010 Comentar
 

A Internet é para pornografia (the internet is for porn), eis uma ideia muito antiga e que tem sido alvo de centenas de paródias, de que o video no final deste artigo é apenas um exemplo ao acaso.

Nos últimos anos a presença das redes sociais no noticiário levou ao esquecimento dos media essa verdade que sempre atraía as atenções. Mas os números permitem ressuscitar o tema e voltar ao título irresistível: a Internet é para pornografia.

Destaco alguns números da infografia reproduzida abaixo.

Mais de 24 milhões de sites são pornográficos -- 12% do total de sites no mundo.
São gastos 3.000 dólares por segundo em pornografia online.
As mulheres constituem um terço dos consumidores de pornografia online (desculpem se os números desfazem algum mito).
O domingo é o dia em que se consome mais pornografia (enfim, sempre permite uma outra leitura sobre o "senhor", em "o dia do Senhor").

 

 

The Stats on Internet Pornography
[Source: OnlineMBA.com]

 

 

Paywall: Murdoch, Balsemão e outros não vão lá assim. Próximo passo: usar a lei
 
Colocado por Paulo Querido 12 Novembro 2010 Comentar
 

Está a levar um pouco mais de tempo do que na música, mas o efeito digital está a alterar radical e definitivamente o status quo financeiro da indústria dos media. As experiências com as paywalls simplesmente não saem da cêpa torta (conferir Clay Sirky, The Times’ Paywall and Newsletter Economics).

Ora, se levarmos em consideração as reações dos industriais que já foram apanhados antes no turbilhão, podemos prever o próximo passo de Murdoch, Balsemão e o pelotão de executivos dos media que resiste a compreender o que é e como funcionam as redes (que se juntam na rede das redes, a Internet).

O que resta da antiga indústria musical insiste na via legal para recuperar o império. É patético, mas porém sejamos práticos: há uma bateria de advogados e de funcionários das empresas resistentes que ainda tem salário garantido por essa via.

Há sinais de que as perseguições judiciais, brandindo conceitos desajustados como os "direitos de autor" e ameaçando todo o tipo de práticas de difusão não controladas pelos incumbentes, estão entre a artilharia a usar a seguir. Claro que é legal -- mas essa está longe de ser a questão essencial. Perseguir o clipping é louvável -- mas vem tarde: é um alvo perfeitamente secundário, ele próprio em mutação acelerada e destinado à substituição.

O futuro das empresas ainda incumbentes joga-se agora na velocidade de transformação e adaptação. Nota: o tempo começa a fugir.

Os novos desafios do jornalismo, por Steve Doig
 
Colocado por Paulo Querido 10 Novembro 2010 Comentar
 

Este post é de uma autora convidada, Vanessa Quitério *

Nos tempos que correm, e na área de comunicação e jornalismo, o clamar que mais se houve é sobre os novos desafios com que se deparam os profissionais e, mais que eles, aqueles que estudam e almejam um lugar ao sol da prática de reportar a realidade.

No passado dia 29 de Setembro tive o prazer de assistir à pequena conferência do ilustre Steve Doig, conceituado professor de Computer-Assisted Reporting na Arizona State University, e Pulitzer Prize for Public Service em 1993. (bio completa aqui)

Mais que tentar absorver toda a experiência daquele profissional, tentei perceber o que leva uma pessoa como o Steve Doig a lutar por uma prática como o jornalismo, mais a mais nos tempos que correm. Facilmente percebi que ele é uma pessoa apaixonada. Apaixonou-se sempre pela prática de contar e encontrar a verdade; pela busca de razão para o leitor e depois nas aulas, na formação de novos historiadores do instante.

Fiquei contentíssima por não ter escolhido outro afazer naquele dia, em Lisboa. Porque quem me conhece sabe que não prescindo de aprender com os profissionais, de ouvir as boas estórias de quem ainda tem pó nos sapatos e, neste caso concreto, caminhou pelo advento da computação e chega aos dias de hoje com a prática desde o início. Steve Doig é um mestre no computer assisted reporting. Atentem nisso!

Deixo aqui algumas dicas que o próprio deixou na conferência na FCSH-UNL. Retirem ilações e acima de tudo, olhem para o jornalismo com paixão e suor. As lágrimas também fazem parte deste árduo caminho. Mas sem elas não valorizamos a prática nobre que é lidar com a informação:

  • Journalism is a great profession: important for democracy and society. You (we) can make a difference;
  • Journalism can impact; is fun and exciting. Journalism is walking in the morning and make a lot of different things every day,
  • Multimedia skills are necessary and useful in many areas;

Journalism assists many challenges today:

  • Delivery is changing;
  • New business model is installed;
  • Investigative reporting is endangered (watch dog democracy);
  • 24/7 news cycle:
  • Every moment is deadline!
  • Ethical questions are important (very);
  • Proliferation of information sources
  • What audience wants vs needs

* AUTORA: Vanessa Quitério edita o blogue Historiador do instante. Jornalismo, Twitter e Jazz addicted. 

(imagem retirada do blogue de Tom Scott)

Do veredicto sobre a paywall do Times à frivolidade de alguns diretores: o futuro do jornalismo
 
Colocado por Paulo Querido 04 Novembro 2010 Comentar
 

Eu quero acreditar que as declarações de três diretores de jornais portugueses hoje ao Diário de Notícias são apenas bluff de quem insiste em fazer de conta que acredita que há segredos nesta fase do negócio do jornalismo ou apressadas respostas de circunstância.

É que, se assim não for, a forma como discorrem sobre a imposição do modelo pago -- fundamentando-se em inconsistências como "os conteúdos têm de ser pagos, são os únicos que têm valor" (Henrique Monteiro dixit) -- terá de entrar no departamento das frivolidades. O que, não me tocando pessoalmente, me leva a divagar sobre as incapacidades dos respectivos grupos editoriais, tanto mais inexplicáveis quanto o acesso a informação específica sobre os resultados das experiências com paywalls como a do The Times não lhes está propriamente vedado...

A ideia de que os "bons" conteúdos têm de ser pagos é interessante -- mas infelizmente não tem relação com a realidade. Dois exemplos rápidos para não perdermos mais tempo com isto: TSF e SIC. Pensem.

Há muitas formas de pagar os custos de produção da informação. A mais comum e transversal delas é a publicidade: aproveitar a audiência e o espaço que envolve a informação para passar mensagens de terceiros, que pagam a facilidade de acesso a alvos com a atenção garantida e até treinada.

Praticamente todos os modelos de negócio que permitiram nos últimos 2 séculos o florescimento da indústria da informação se basearam na publicidade; as receitas diretas, quando existem, não passam de complementares, em percentagem maior ou menor.

A Internet como veículo de informação tem sido erroneamente avaliada como imprensa, como jornal. Na prática ela está muito mais perto da difusão hertziana ou por cabo. Estabelecido o acesso à difusão, os conteúdos são omnipresentes e a única forma de cobrar pela sua entrega é cifrar o sinal à saída da emissora e decifrá-lo no receptor.

Ora, na Internet isto também é possível -- mas nem tudo o que é possível é viável e cifrar conteúdos digitais não vale o esforço. Por duas ordens de razões. Primeira, porque a capacidade de processamento é ilimitada e grátis e nenhuma cifra comercial resiste à força bruta (as militares resistem muito mais tempo, sendo o tempo o elemento crucial). Segunda -- e determinante -- porque o ambiente é de grande riqueza informativa. As alternativas são tantas, o acesso às fontes é tão fácil, inutilizando obstáculos como a geografia, que um conteúdo cifrado, ou de qualquer forma difícil de obter, é imediatamente substituído pelo conteúdo sem restrições.

No limite, na Internet os conteúdos lutam pela atenção das pessoas -- e não o contrário. Enquanto esta inversão não for compreendida, nada feito. Não se consegue avançar.

Nos modelos estabelecidos da difusão hertziana ou por cabo a fatura paga pelo consumidor envolve não apenas o acesso via antena, satélite ou cabo, mas também uma percentagem que o distribuidor entrega aos produtores dos conteúdos.

Em sentido estrito, não há essa coisa chamada conteúdos gratuitos. O que tem havido é a incapacidade -- ou, para os mais sensíveis, o atraso -- do jornalismo incumbente em estabelecer um modelo de negócio funcional: que compreenda a natureza da rede e as diferenças fulcrais entre a horizontalidade desta e as difusões verticais, o diferente comportamento das audiências de poderes reforçados pelas telecomunicações e informática de baixíssimo preço, e -- talvez o mais importante, nesta altura -- onde é que está a caixa registadora da Internet. Refiro-me aos ISP, Internet Service Providers -- as empresas às quais pagamos pelo acesso à Internet.

(Divagação: em vez de esconjurarem os leitores e os bloggers que lhes "roubam" os "conteúdos", ganhavam mais em enfrentar quem assume o papel económico determinante no novo ambiente comunicacional: os ISP.)

As funções de separar as informações, catalogá-las, relacioná-las, apresentá-las em narrativas coerentes e adequadas assumem maior importância num meio ultra-rico em informação, está bem de ver.

O problema de tantos jornalistas é insistirem em pensamentos que não se aplicam no novo ambiente. Um deles, o de que decretam o comportamento das audiências.

O outro, o de que tais funções -- historicamente cumpridas pela classe, com grande garbo e resultados discutíveis, mas isso são contas de outro rosário -- continuam sob seu monopólio.

Em parte a separação do que interessa e não interessa é cumprida pelas... redes sociais. Cada um dos nossos nós, followers, amigos, etc, funciona como um filtro para o qual passámos uma parte do trabalho anteriormente adjudicado ao profissional do jornalismo.

Outra parte é cumprida -- com maquinal isenção, eu diria -- pelos filtros informáticos. Sejam o News Google ou os agregadores e filtros montados pelos challengers da indústria do jornalismo (como o The Huffington Post ou, aqui ao lado, o La Información), filtram o caudal de informações com uma eficácia e rapidez que não estão ao alcance do jornalista desprovido de auxílio informático.

(Nota marginal: enquanto este grupo constituir a imensa maioria nas Redações, o papel de filtro do jornalista é tão limitado que as massas antigamente conhecidas por audiência optarão pela eficácia dos algoritmos. Esta está longe de perfeita, mas os resultados satisfazem e a rapidez compensa.)

Até a função de gate-keeping está a ser transferida do jornalismo para a cidadania de poder aumentado pela informática -- processo a que não será totalmente alheia alguma quebra de reputação de jornalistas comprometidos de forma menos clara com o poder, ou os poderes.

Quero com isto dizer que desacreditei no papel do jornalista? Não. De todo em todo, não. Pelo contrário. É verdade que há alguma desorientação com tanta mudança de funções, deslocação de poderes e modificação parcial das audiências, mas nada disso coloca em causa o valor de um profissional treinado.

Um jornalista em acção é capaz de "cheirar" a manipulação que a fonte procura fazer em menos tempo do que leva a um algoritmo para estabelecer comparações com os dados disponíveis, ou à rede social do leitor a perceber a marosca. Um jornalista em acção é capaz de apontar quase instintivamente (muito treino, muito treino) quais as 3 notícias mais confiáveis entre uma lista de 30 -- só lendo os títulos. Na altura de solucionar o puzzle de informações sobre um acontecimento ou encontrar uma explicação sobre o que acabou de suceder, esta vantagem é preciosa e ainda não encontrei software que a supere.

Estas aptidões mantêm intacto o seu valor -- assim saiba o jornalista, bem como a estrutura que o envolve profissionalmente, perceber como as deve enquadrar com as fabulosas ferramentas de tratamento de informação que são os computadores, o recurso de sabedoria formidável e de custo zero que são as massas de leitores (crowdsourcing, Mechanical Turk, wikis, Twitter), os serviços web auxiliares que nascem todas as semanas (já viram o Storify?) e as novas expressões da narrativa noticiosa.

Voltando ao essencial, para finalizar: as experiências com conteúdos pagos têm sido insatisfatórias -- se preferirem qualificá-las de desastres, quem sou eu para me opôr. O António Granado (ex-Público online, agora no grupo RDP/RTP) fez uma importante recensão: The Times revela números pós-paywall. Leitura recomendada para todos aqueles que se sintam tentados a trocar uns milhões de pageviews mensais, que demoraram anos a construir, por um muro entre as suas marcas e os leitores.

Nota final: o diretor do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, foi o mais prático. Tem razão num ponto -- que é uma das raras mais valias, ou vantagens, de que os incumbentes dispõem sobre os desafiantes do jornalismo. Curiosamente, essa vantagem escapa a João Marcelino, diretor do Diário de Notícias, pelo menos a avaliar pelo que declarou sobre a notícia na hora.

De que vantagem falo? Tema para um próximo artigo -- assim haja manifestações de interesse em que eu o escreva.

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BLOG Ondas na Rede é uma coluna de divulgação/opinião publicada em papel e em formato eletrónico. Aos sábados e domingos é publicada na página de Televisão & Media do Correio da Manhã a versão para o papel.

Diariamente, e em contínuo, são publicados neste blog artigos e e dicas. O diálogo com os leitores do Correio da Manhã (papel e online) é mantido sempre que possível em tempo real, tanto neste espaço como através das redes sociais onde me encontro.

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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