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quarta-feira, 23 de Abril de 2014

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O segredo é a alma do negócio (dos media online)
 
Colocado por Paulo Querido 29 Novembro 2010 Comentar
 

No âmago do “problema” que a Internet “criou” à indústria dos media estão dois assuntos.

O mais grave é ser um sistema aberto, que promove a disseminação do conhecimento e eleva a livre circulação de informação à categoria de princípio.

O menos grave é a redução dos custos de produção e distribuição, ao ponto de espatifar as barreiras de entrada para o clube dos proprietários dos “direitos de autor”.

Ao fim de década e meia a baterem com a cabeça na parede de uma equação que não compreendem, uma vez que é alienígena aos seus processos de gestão, os old media assumiram uma nova atitude. E desencadearam uma ofensiva contra a web.

Têm razão na sua hipérbole: sendo o segredo a alma do negócio, só existirá negócio em cima de segredo; logo, não pode existir negócio onde não há segredo. Decrete-se pois o fim dos ambientes abertos e criem-se barreiras à entrada.

É o que estão a querer fazer. Tirando algum partido do momento: as tecnológicas que pagaram a fatura do investimento que proporcionou essa abertura estão numa fase de alterações, tanto internas como de objetivos. Abriu-se uma janela de oportunidade para os players menores intervirem nas comunicações.

A ofensiva tem 3 frentes. A legal, a das alianças e a propagandística. Nesta última é onde os old media possuem maior capacidade, naturalmente. Mas também é onde enfrentam os exércitos maiores e melhor apetrechados de inteligência, com a agravante de serem sub-avaliados por quem vê neles nada mais que estúpidos bandos de pilha-conteúdos (em Portugal há disso nos melhores grupos de old media).

Frente legal

A frente legal teve na semana passada um desenvolvimento absurdo: um tribunal decidiu que os hyperlinks são propriedade intelectual (High Court rules newspapers can charge for web links). Segundo o tribunal, os direitos do proprietário de uma notícia (?) impõe-se ao direito de terceiros fazerem referências ou menções a essa mesma notícia.

A decisão tem um objetivo compreensível e aceitável: sacar uma parte das receitas do clipping, uma indústria que de parasita antes da Internet passou a respeitável depois da Internet — e, quiçá, necessária, tendo em conta as imensas quantidades de informação produzida pelos media que hoje é preciso filtrar. (A indústria do clipping online vale 11,7 milhões de euro anuais no Reino Unido, só para dar uma ideia.)

Mas tendo um tribunal decidido que o link tem propriedade, é uma questão de tempo até o conceito dos “nobres objetivos” ser alargado aos pilha-conteúdos. A interpretação da decisão é inequívoca: o simples uso do título de um artigo como referência bibliográfica pode infringir direitos de autor. O passado de meios como a Reuters deixa bem claro que só o facto de ser uma medida ainda sem sustentação legal e que gerou reações negativas na blogosfera travou o instinto: cobrar pelos links.

Esta situação tira evidentemente partido da fraca capacidade associativa e de resistência tradicional das redes — um paradoxo que é fácil de explicar: a qualidade das ligações é inversamente proporcional à quantidade delas que estabelecemos.

Será intelectualmente muito interessante ver até que ponto a vantagem da facilidade de criar ligações nas redes digitais se consegue consubstanciar numa vantagem usável na sociedade. Alguns acontecimentos recentes, da resistência e da organização social através do Twitter e do Facebook, permitem-me pensar que a entidade antes conhecida por “O Povo” é capaz de proporcionar agora uma resposta inesperada que baralhe o deve-haver da batalha legal.

Sendo práticos: aos old media o que menos interessa, claro, são os aspectos da razão, legitimidade, legalidade ou falta dela. Mesmo os resultados e os inevitáveis avanços e recuos nos labirintos das relações de poder entre (e com) os juízes e os legisladores e “O Povo” têm interesse secundário.

O principal, o que realmente interessa é manter essa frente aberta. Cansar e desgastar, minar e subverter. É o objetivo da batalha por esse lado. Com o tempo, tudo muda, até o mundo. Tempo e dinheiro são a alavanca para mudar a natureza da web pela via legal. Haja confiança no fator Arquimedes.

As alianças

A tática é a frente atualmente mais interessante de seguir. Os grupos de old media têm aliados naturais, claro. Levaram algum tempo a descobri-los, mas têm. Quem não gostaria de construir um redil para 2.500 milhões de carneiros? É esse o prémio para quem controlar a Internet: uma audiência cativa de 2.500 milhões de almas, e a aumentar.

Essa audiência foi conseguida numa velocidade incrível e como sub-produto dos investimentos noutros mercados (as telecomunicações, sobretudo), graças fundamentalmente à natureza aberta das suas tecnologias e técnicas e ao baixo custo da capacidade produtiva (a informática e o tempo de milhões de cidadãos libertado pela informática e pela conetividade).

A livre circulação e troca de informação foi determinante e essencial para a implantação dessa audiência, desse mercado pronto a explorar. Mas não está escrito em lado algum que o mercado tem de continuar a operar na mesma lógica de abertura onde não é possível ter segredos nem controlar a concorrência. O que está escrito, isso sim, é que quem conseguir construir uma cerca do tamanho da internet poderá ditar as regras a partir daí.

Cada uma à sua medida, a Apple e o Facebook estão nessa corrida. A Google e a Microsoft, gigantes históricos, não estão nessa corrida (a primeira porque aposta na abertura e a última com evidente contra-gosto). Mas enquanto a Apple é uma empresa tradicional, com a qual se podem procurar parcerias e negociar, o Facebook é obra de um doido imprevisível e único: não se sabe o que vai sair dali, mas sabe-se que nesta altura é um atirador solitário, pouco dado a servir estratégias que não a sua.

Mas não há ilusões. A ambição do Facebook é ilimitada e não há quartel na sua guerra. Está a um passo de fazer história tornando-se proprietária de uma palavra. Mais uns juristas sensibilizados pelos advogados de Zuckerberg e dentro em breve teremos de pedir autorização — ou pagar — para escrever na Internet a palavra “face”. Não, leitor. Não estou a alucinar. Leia na melhor das fontes: a oficial.

A News Corporation terá feito uma aliança com a Apple. Há evidentes benefícios mútuos, pelo que Steve Jobs decidiu condescender e apresentar como um favor o que de qualquer forma acabaria por fazer: modificar o iTunes para permitir modelos de subscrição ao tempo, em vez de à peça. Os produtores de media — todos, antigos e novos e futuros — agradecem.

Jobs não precisa de acreditar que vai salvar o seu negócio. Murdoch precisa. Mas isso é irrelevante. Uma fatia — por mínima que seja — dos “conteúdos” poderá ser fechada atrás de um muro com franquia. Saber se a quantidade é suficiente para um modelo de negócio alternativo, complementar ou de substituição é, para já, a questão realista. Menos realista será a crença em que a fatia mínima de conteúdos franquiados fará alguma diferença ambiental no curto prazo ou no prazo longo, tornando-se na diferença cultural, geracional, de que os old media precisam.

Frente propagandística

Julgarem-se os detentores de “A Verdade” está-lhes na massa do sangue. No código genético. Acredite, se ler no jornal — é o lema genérico que passam. Na verdade a capacidade propagandística dos media é um facto que a História tem infelizmente comprovado repetidamente. Não é preciso recorrer ao arquivo do século XX para encontrar exemplos de operações de propaganda impostas aos media por governos e grupos económicos. A segunda guerra do Iraque chega.

Na frente propagandística o objetivo atual é passar 2 ideias. Uma, a de que os editores e autores independentes — conceito tão lato que inclui a autoria que não tenha vendido o seu produto às empresas de media incumbentes — são ladrões dos conteúdos produzidos com tanto suor e sacrifício por essas mesmas empresas.

A outra, a de que as iniciativas de reconquista das ovelhas tresmalhadas são um sucesso, significando esse sucesso que a Internet não passou de um ciclo diabólico, um “Pequeno Interregno na Grandiosa Marcha Dos Media Fechados”. Um equívoco das multidões, enganadas pelos ladrões da informação.

Entre diversas peças citáveis, ligo esta de Cory Doctorow no Guardian: News Corp Kremlinology: what do the Times paywall numbers mean?. Resume-se numa frase: o segredo é a alma do negócio (e tudo faremos para impôr de volta o ambiente de secretismo).

Apesar de reconhecer como formidável o poder transformante dos media sobre a realidade, e de vislumbrar — tanto intelectual como operacionalmente — o fio invisível que separa a informação da propaganda –, penso que esta frente é a mais difícil para os old media. É o resultado mais incerto.

Desde logo porque “as massas” não são assim tão parvas e manipuláveis. Não pretendo aqui surgir como mcluhanista (até porque McLuhan refletiu sobre o mais fechado dos meios), mas há que perceber até que ponto a manipulação resulta do controlo sobre o meio, não do destinatário e da sua condição. Parece-me que quanto mais liberdade de escolha o destinatário tiver, menor é a dependência do meio, impossibilitando o controlo (ou pelo menos tornando-o impraticável enquanto modelo de negócio).

É descaradamente fácil condicionar uma audiência circunscrita a uma sala escura. É relativamente fácil condicionar uma audiência distribuída, agrupada em torno do mesmo écran em pequenas salas. Mas à medida que os ambientes envolventes se abrem e permitem a intervenção de terceiros sobre a mensagem, compromete-se a eficácia da manipulação. O processo será irremediável a partir de um certo limite de intervenções sobre cada mensagem.

Ou seja, e sintetizando: a mensagem “acredite, se ler no (meu) jornal” não tem eficácia num ambiente de concorrência de fontes emissoras e diversidade de intervenientes sobre as mensagens e os seus significados. (Fica igualmente difícil estabelecer a paternidade de cada mensagem e informação devido ao contributo distribuído.)

Penso, contudo, que não se deve cometer o erro de subestimar a capacidade dos old media de contarem uma história apresentando-a como “a verdadeira”. Sobretudo quando nos estão a contar uma história em que têm um evidente interesse próprio: a história da sua sobrevivência.

Portanto, a guerra em curso tem um desfecho imprevisível por agora. É possível que finde o período de abertura e os vencedores imponham as suas regras. Aconteceu antes (a rádio também prometeu a abertura e a liberdade e acabou instrumento de segredo como os outros — consta que está agora a voltar às origens, graças à… Internet).

Mas também é possível que se tenha atingido um ponto de não retorno com a Internet: nunca tantos tiveram tanto acesso à informação, em condições tão igualitárias e num ambiente tão livre.

Se assim for, o domínio do negócio pelo segredo e pelo clubismo dos auto-designados proprietários da informação não será mais opção. Se assim não for, voltaremos ao século XX e ao noticiário com dono. Há quem defenda que era bom para a democracia.

(Imagem de networking: Wine Diver Girl)

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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