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A questão que sobra da manifestação de sábado é saber se a sua génese organizativa é, ou não é, determinante para a política e a democracia.
As duas linhas de argumentação consistem em:
- o que importa é a motivação das pessoas. É secundária a forma como se organizam, e que naturalmente se moderniza através dos tempos, incorporando as novidades;
- a ligação em rede proporciona um tipo de comunicação distribuída que além de facilitar a organização tem, graças ao potencial de transmissão livre, ubíqua, instantânea, viral e de massas, o efeito de influenciar a própria motivação, mudando a natureza e o alcance dos eventos do tipo manifestação.
Em português simples (que já merecia uma Wikipedia como a Simple English): as redes e o Facebook são só megafones que amplificam o ruído do pessoal ou trouxeram novidades à política?
À luz desses dois eixos de argumentação, as leituras da manifestação agrupam-se em:
- foi uma grande jornada de protesto que juntou várias correntes descontentes, a “voz da rua”, não significando nada além de um sinal do eleitorado;
- tendo passado, como nenhuma outra até aqui em Portugal, o teste da organização através de redes de laços frouxos, a manifestação mostrou que existe um canal emergente de ação social que em breve tocará a ação política.
Atalhemos caminho desde já: concordamos todos que a motivação é o ingrediente principal e esteve presente tanto nos motins digitais que estão a mudar o mapa político do Médio Oriente, como na sublevação ordeira deste dia 12 de Março em cidades portuguesas (e onde portugueses residem, como Londres e Barcelona, para citar apenas 2 onde também houve #manif).
O aumento das malhas urbanas levou as sociedades islâmicas contemporâneas a um ponto de ruptura muito interessante: o pensamento tribalista característico do campo, que é o pasto dos extremismos, cede lugar ao pensamento das classes que vivem nas cidades. Essas “classes médias” (comparativo exclusivamente a benefício de conversa) têm um nível de instrução e sobretudo de acesso aos bens culturais universais que proporcionam a forte motivação para a mudança.
Em Portugal a motivação veio de tipos de descontentamento muito diferentes, ainda que com esse traço comum da mediania. São as nossas imensas classes médias e médias baixas as principais afetadas pelo encerramento dos elevadores da mobilidade social (cursos universitários sem propósito ou escoamento) e pelo impasse do crescimento económico local ditado pela globalização e por três décadas de erros próprios no desenho do desenvolvimento do país.
Em democracia o poder dessa “horda média” está (esteve) historicamente associado — limitado, se preferirmos — ao voto nos três ciclos quaternais: local, nacional e presidencial. De quatro em quatro anos cidadão é promovido à categoria de eleitor e tem o privilégio de ajudar a escolher qual a elite que, tendo apresentado o mais convincente programa de ação, vai legitimamente formar Governo para dirigir a Nação e o Estado.
A explosão da televisão veio condicionar o livre arbítrio do cidadão tornado eleitor de vez em quando: as elites com acesso a ela (e aos jornais, que em Portugal são bastante secundários) puderam circunscrever o leque de opções disponíveis e ajudar a erguer as barreiras de acesso ao próprios círculos de poder.
Assim, a imensa maioria do povo pouco pôde fazer nos intermináveis anos entre eleições: as elites do poder — e sobretudo a classe comunicacional que se foi construindo em torno dele, parte da qual se foi convencendo durante o processo de que também era poderosa — movem-se em casulos com ar condicionado onde a “voz da rua” só chega quando é necessário que chegue. Isto é: quando, em determinadas alturas, é preciso saber até que ponto vai o contentamento ou descontentamento das massas, num grau fino que escapa aos mecanismos normais de auscultação que são as sondagens de opinião.
Eis a democracia representativa sofisticada.
(Anarquista por convição, escolho contudo o sistema com base em critérios de realidade que julgo adequados — um dos quais é o ambiente circundante. Assim, esta democracia representativa justificada é o sistema que eu professaria, se um extraordinário impossível acaso levasse a que me pedissem opinião.)
Não nos demos mal com ela — assim aceitemos como bons os diversos indicadores civilizacionais que foram subindo com o passar do século XX. Em sistemas económicos de elevado crescimento, a democracia representativa (mais ou menos) sofisticada e com variações locais deu conta do recado da gestão da res publica menos mal que outras soluções de gestão, democráticas ou não.
Assumo-me portanto como sistémico, mas não me obrigo à cegueira que pelos vistos outros acham obrigatória. Há vinte anos atrás começámos a adivinhar o impacto das então novas tecnologias de informação e conhecimento na organização social e política. Desde logo se sonhou com a democracia direta, assente nas tecnologias do tempo real. Otimistas e catastrofistas anteciparam sociedades em que as decisões políticas eram tomadas com base em votações de massas — a cada decisão cabe um referendo.
Tal como sucedeu com as outras antecipações, também esta ficou longe da realidade — tanto nos aspectos de que afinal se reveste, como no poder de impacto.
Tem vindo a suceder nas indústrias e na economia, na socialização, na privacidade: a Internet — a sociedade digital reticular — tudo toca e transforma. É ingénuo imaginar que a política resiste ao efeito.
Se é verdade que em democracia a cidadania activa confere a indivíduos e associações uma capacidade de intervenção que está para além do voto, não o é menos que tal participação é extremamente limitada, circunscrita a pequenos grupos. Além do voto, não existem formas de intervenção susceptíveis de representar todas as perspectivas do eleitorado. Muito menos existem mecanismos que permitam consultar a sociedade de forma imediata — tanto no sentido do tempo como no sentido de livre de intermediação.
A rede acaba com essas falhas. Estar em rede empossa tanto os indivíduos como os grupos de todos os tamanhos e feitios. Empossa-os de ambas as faculdades: fazerem ouvir a sua voz sem a filtragem da sub-elite que decide o que cabe nos meios de comunicação de massas tradicionais e influenciarem a governação em ciclos temporais muito mais curtos.
Ao contrário do que muitos disseram temer, nas reações à manifestação de 12 de Março, esse empossamento não se reveste da capacidade golpista: por si só não derrubará governos ou promoverá ditadores. Mas tem um impacto pesado e direto nas formas de exercer (e legitimar) a ação governativa diária.
Voltando por uma frase ao português simples: subitamente, “a rua” passou a ter mais do que o voto de 4 em 4 anos.
Em sociedades onde a governação já esteja demasiado longe da “rua”, criando um vazio que lhe tira sustentabilidade, pode acontecer que o empossamento digital reticular implique uma “diferença de temperaturas” capaz de dar o golpe final para o derrube do regime.
Podemos incluir o Egito nesse quadro. Mas não Portugal. A pressão sobre as classes da imensa mediania — isentando-se daqui as super-elites e o lumpen, que não só não foram tocados como beneficiam da situação de crise — resulta bastante mais dos problemas gerais do sistema do que da ação governativa, com as suas contradições e, até, respostas erradas aos desafios gerais.
Isto explica porque o 12 de Março foi sobretudo uma manifestação, apresentou sinais de rebelião, mas ficou muito longe da revolução silenciosamente temida por um pequeno grupo e secreta e ardentemente desejada por outro pequeno grupo.
Em poucas palavras: no caso português o tiro não atingiu diretamente o governo (ou o PR, ou a AR), mas chamusca visivelmente os partidos. Porque os curto-circuita, estabelecendo ligações diretas entre governados e governantes. Podemos detestar perder o estatuto de intermediários ou não gostar que os níveis de intermediação, tão essencialmente democráticos, sejam postos de lado, como fez Cavaco Silva ao usar o Facebook para responder às críticas ao seu discurso, fazendo Marcelo Rebelo de Sousa abanar a cabeça e manifestar a sua desaprovação. Mas não podemos ignorar.
Como comecei por dizer no Correio da Manhã, o desafio dos empossados, não é um desafio à democracia em si mesma, pelo menos por enquanto. Mas é um desafio para a sua organização — o que em Portugal é feito através do sistema partidário.
Não é, sequer, a primeira vez que vemos o sistema partidário ser abalado. A sua perda de eficácia é notória de eleição para eleição, visível no aumento do número de eleitores que não se reconhece nele.
O que fazem as crowdpolitics e wikipolitics — a política ativa das multidões, por analogia com os termos wikinomics e crowdsourcing — é desafiar a lógica hierárquica dos partidos e apresentar uma alternativa horizontal, em que a colaboração das massas coloca as questões a que a classe dirigente tem o dever de dar resposta, e concorrer com eles na apresentação de propostas de ação.
Uma das características mais importantes destas rebeliões — faz notar Manuel Castells, que lhes chama wikirrevoluciones — é não poderem ser abafadas. A Internet não se trava ou pára facilmente. Quando muito, consegue-se desacelerar durante breves períodos de tempo.
Ontem o El País apresentou uma reportagem intitulada Twitterrevolución em que identifica alguns aspetos das mudanças no poder político resultantes do empossamento reticular.
Resumindo, como fiz na primeira versão da crónica para o CM: a Internet tem vindo a desconstruir sucessivamente tudo o que toca. Depois de atirar indústrias ao tapete, está agora a baralhar as contas da democracia representativa.
Os partidos deverão ter algum tipo de reação. Tanto podem vir a aproveitar o caudal de energia e a janela tecnológica para usar a política das massas, a crowdpolitics, para a revitalização de que tanto têm vindo a falar, como perderem importância para novos tipos de interlocutores eventuais, que saltam do Facebook como pulgas da areia.
Há reflexões pertinentes por produzir, nomeadamente em torno do conceito de mediação. O tempo de maturação, de diálogo, até de negociação têm sido fundamentais para o exercício democrático, estão na sua genética. Até que ponto vem a crowdpolitics mexer com essa genética?
Contudo, nenhuma reflexão pode omitir, marginalizar ou esquecer a crowdpolitics. Em português simples: é como estar nos anos 90 a pensar sobre a música ignorando os downloads.
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