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  Uma coluna do Correio da Manhã. Todos os sábados e domingos no papel, diariamente no blog e em contínuo nas redes sociais
sábado, 1 de Novembro de 2014

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WikiLeaks à portuguesa, jornalistas e Cavaco Silva
 
Colocado por Paulo Querido 14 Dezembro 2010 Comentar
 

Já o referi aqui: alguns cables são efetivamente notícia. Respondendo à questão que me tem sido repetidamente colocada no Twitter, se eu publicava "aquilo" ou não, sim, publicava o material relativo ao BCP, seguindo a prática jornalística de tentar obter outros ângulos (isto é, procurando ouvir Carlos Santos Ferreira, o banco e até o Governo). Os jornais portaram-se bem aí.

Isso não invalida que a maioria do material seja de fraca ou nula qualidade, do ponto de vista noticioso. Cavaco e o jornalismo macio, por exemplo. Dado o seu impacto em causa própria, os jornais aceitaram a frase literal. Mas, e o contexto? E o significado?

Cavaco Silva também disse no passado, sendo citado à exaustão, que "raramente lia jornais". Ninguém confrontou a discrepância? A opinião sobre o jornalismo de alguém que raramente lê jornais tem importância?

Foram ouvidos os intervenientes na conversa? Cavaco ou com quem ele conversava? Em que contexto o disse: numa roda informal, tentando ser simpático com algum político americano que estivesse a ser particularmente fustigado pela Imprensa? Fazia sentido.

Cavaco quis realmente tranquilizar "os americanos" sobre a "boa imprensa" portuguesa? Tendo memória, tenho alguma dificuldade em aceitar que o homem fustigado violentamente pelo Independente, gozado pelo bolo rei e pela espuma ao canto da boca tenha proferido aquela frase sem ser num contexto específico de "boa conversação". Também o pode ter dito com ironia. Embora nem sempre seja fácil de descodificar, o Presidente tem alguma.

Isto tudo para dizer que fora do clima de orgia informativa que Julian Assange soube tão inteligentemente criar, a maioria dos cables não seria notícia. Nenhum editor lhes pegava. Outra parte não resistiria ao processo jornalístico de confirmação através de outras fontes.

 

Os novos desafios do jornalismo, por Steve Doig
 
Colocado por Paulo Querido 10 Novembro 2010 Comentar
 

Este post é de uma autora convidada, Vanessa Quitério *

Nos tempos que correm, e na área de comunicação e jornalismo, o clamar que mais se houve é sobre os novos desafios com que se deparam os profissionais e, mais que eles, aqueles que estudam e almejam um lugar ao sol da prática de reportar a realidade.

No passado dia 29 de Setembro tive o prazer de assistir à pequena conferência do ilustre Steve Doig, conceituado professor de Computer-Assisted Reporting na Arizona State University, e Pulitzer Prize for Public Service em 1993. (bio completa aqui)

Mais que tentar absorver toda a experiência daquele profissional, tentei perceber o que leva uma pessoa como o Steve Doig a lutar por uma prática como o jornalismo, mais a mais nos tempos que correm. Facilmente percebi que ele é uma pessoa apaixonada. Apaixonou-se sempre pela prática de contar e encontrar a verdade; pela busca de razão para o leitor e depois nas aulas, na formação de novos historiadores do instante.

Fiquei contentíssima por não ter escolhido outro afazer naquele dia, em Lisboa. Porque quem me conhece sabe que não prescindo de aprender com os profissionais, de ouvir as boas estórias de quem ainda tem pó nos sapatos e, neste caso concreto, caminhou pelo advento da computação e chega aos dias de hoje com a prática desde o início. Steve Doig é um mestre no computer assisted reporting. Atentem nisso!

Deixo aqui algumas dicas que o próprio deixou na conferência na FCSH-UNL. Retirem ilações e acima de tudo, olhem para o jornalismo com paixão e suor. As lágrimas também fazem parte deste árduo caminho. Mas sem elas não valorizamos a prática nobre que é lidar com a informação:

  • Journalism is a great profession: important for democracy and society. You (we) can make a difference;
  • Journalism can impact; is fun and exciting. Journalism is walking in the morning and make a lot of different things every day,
  • Multimedia skills are necessary and useful in many areas;

Journalism assists many challenges today:

  • Delivery is changing;
  • New business model is installed;
  • Investigative reporting is endangered (watch dog democracy);
  • 24/7 news cycle:
  • Every moment is deadline!
  • Ethical questions are important (very);
  • Proliferation of information sources
  • What audience wants vs needs

* AUTORA: Vanessa Quitério edita o blogue Historiador do instante. Jornalismo, Twitter e Jazz addicted. 

(imagem retirada do blogue de Tom Scott)

Do veredicto sobre a paywall do Times à frivolidade de alguns diretores: o futuro do jornalismo
 
Colocado por Paulo Querido 04 Novembro 2010 Comentar
 

Eu quero acreditar que as declarações de três diretores de jornais portugueses hoje ao Diário de Notícias são apenas bluff de quem insiste em fazer de conta que acredita que há segredos nesta fase do negócio do jornalismo ou apressadas respostas de circunstância.

É que, se assim não for, a forma como discorrem sobre a imposição do modelo pago -- fundamentando-se em inconsistências como "os conteúdos têm de ser pagos, são os únicos que têm valor" (Henrique Monteiro dixit) -- terá de entrar no departamento das frivolidades. O que, não me tocando pessoalmente, me leva a divagar sobre as incapacidades dos respectivos grupos editoriais, tanto mais inexplicáveis quanto o acesso a informação específica sobre os resultados das experiências com paywalls como a do The Times não lhes está propriamente vedado...

A ideia de que os "bons" conteúdos têm de ser pagos é interessante -- mas infelizmente não tem relação com a realidade. Dois exemplos rápidos para não perdermos mais tempo com isto: TSF e SIC. Pensem.

Há muitas formas de pagar os custos de produção da informação. A mais comum e transversal delas é a publicidade: aproveitar a audiência e o espaço que envolve a informação para passar mensagens de terceiros, que pagam a facilidade de acesso a alvos com a atenção garantida e até treinada.

Praticamente todos os modelos de negócio que permitiram nos últimos 2 séculos o florescimento da indústria da informação se basearam na publicidade; as receitas diretas, quando existem, não passam de complementares, em percentagem maior ou menor.

A Internet como veículo de informação tem sido erroneamente avaliada como imprensa, como jornal. Na prática ela está muito mais perto da difusão hertziana ou por cabo. Estabelecido o acesso à difusão, os conteúdos são omnipresentes e a única forma de cobrar pela sua entrega é cifrar o sinal à saída da emissora e decifrá-lo no receptor.

Ora, na Internet isto também é possível -- mas nem tudo o que é possível é viável e cifrar conteúdos digitais não vale o esforço. Por duas ordens de razões. Primeira, porque a capacidade de processamento é ilimitada e grátis e nenhuma cifra comercial resiste à força bruta (as militares resistem muito mais tempo, sendo o tempo o elemento crucial). Segunda -- e determinante -- porque o ambiente é de grande riqueza informativa. As alternativas são tantas, o acesso às fontes é tão fácil, inutilizando obstáculos como a geografia, que um conteúdo cifrado, ou de qualquer forma difícil de obter, é imediatamente substituído pelo conteúdo sem restrições.

No limite, na Internet os conteúdos lutam pela atenção das pessoas -- e não o contrário. Enquanto esta inversão não for compreendida, nada feito. Não se consegue avançar.

Nos modelos estabelecidos da difusão hertziana ou por cabo a fatura paga pelo consumidor envolve não apenas o acesso via antena, satélite ou cabo, mas também uma percentagem que o distribuidor entrega aos produtores dos conteúdos.

Em sentido estrito, não há essa coisa chamada conteúdos gratuitos. O que tem havido é a incapacidade -- ou, para os mais sensíveis, o atraso -- do jornalismo incumbente em estabelecer um modelo de negócio funcional: que compreenda a natureza da rede e as diferenças fulcrais entre a horizontalidade desta e as difusões verticais, o diferente comportamento das audiências de poderes reforçados pelas telecomunicações e informática de baixíssimo preço, e -- talvez o mais importante, nesta altura -- onde é que está a caixa registadora da Internet. Refiro-me aos ISP, Internet Service Providers -- as empresas às quais pagamos pelo acesso à Internet.

(Divagação: em vez de esconjurarem os leitores e os bloggers que lhes "roubam" os "conteúdos", ganhavam mais em enfrentar quem assume o papel económico determinante no novo ambiente comunicacional: os ISP.)

As funções de separar as informações, catalogá-las, relacioná-las, apresentá-las em narrativas coerentes e adequadas assumem maior importância num meio ultra-rico em informação, está bem de ver.

O problema de tantos jornalistas é insistirem em pensamentos que não se aplicam no novo ambiente. Um deles, o de que decretam o comportamento das audiências.

O outro, o de que tais funções -- historicamente cumpridas pela classe, com grande garbo e resultados discutíveis, mas isso são contas de outro rosário -- continuam sob seu monopólio.

Em parte a separação do que interessa e não interessa é cumprida pelas... redes sociais. Cada um dos nossos nós, followers, amigos, etc, funciona como um filtro para o qual passámos uma parte do trabalho anteriormente adjudicado ao profissional do jornalismo.

Outra parte é cumprida -- com maquinal isenção, eu diria -- pelos filtros informáticos. Sejam o News Google ou os agregadores e filtros montados pelos challengers da indústria do jornalismo (como o The Huffington Post ou, aqui ao lado, o La Información), filtram o caudal de informações com uma eficácia e rapidez que não estão ao alcance do jornalista desprovido de auxílio informático.

(Nota marginal: enquanto este grupo constituir a imensa maioria nas Redações, o papel de filtro do jornalista é tão limitado que as massas antigamente conhecidas por audiência optarão pela eficácia dos algoritmos. Esta está longe de perfeita, mas os resultados satisfazem e a rapidez compensa.)

Até a função de gate-keeping está a ser transferida do jornalismo para a cidadania de poder aumentado pela informática -- processo a que não será totalmente alheia alguma quebra de reputação de jornalistas comprometidos de forma menos clara com o poder, ou os poderes.

Quero com isto dizer que desacreditei no papel do jornalista? Não. De todo em todo, não. Pelo contrário. É verdade que há alguma desorientação com tanta mudança de funções, deslocação de poderes e modificação parcial das audiências, mas nada disso coloca em causa o valor de um profissional treinado.

Um jornalista em acção é capaz de "cheirar" a manipulação que a fonte procura fazer em menos tempo do que leva a um algoritmo para estabelecer comparações com os dados disponíveis, ou à rede social do leitor a perceber a marosca. Um jornalista em acção é capaz de apontar quase instintivamente (muito treino, muito treino) quais as 3 notícias mais confiáveis entre uma lista de 30 -- só lendo os títulos. Na altura de solucionar o puzzle de informações sobre um acontecimento ou encontrar uma explicação sobre o que acabou de suceder, esta vantagem é preciosa e ainda não encontrei software que a supere.

Estas aptidões mantêm intacto o seu valor -- assim saiba o jornalista, bem como a estrutura que o envolve profissionalmente, perceber como as deve enquadrar com as fabulosas ferramentas de tratamento de informação que são os computadores, o recurso de sabedoria formidável e de custo zero que são as massas de leitores (crowdsourcing, Mechanical Turk, wikis, Twitter), os serviços web auxiliares que nascem todas as semanas (já viram o Storify?) e as novas expressões da narrativa noticiosa.

Voltando ao essencial, para finalizar: as experiências com conteúdos pagos têm sido insatisfatórias -- se preferirem qualificá-las de desastres, quem sou eu para me opôr. O António Granado (ex-Público online, agora no grupo RDP/RTP) fez uma importante recensão: The Times revela números pós-paywall. Leitura recomendada para todos aqueles que se sintam tentados a trocar uns milhões de pageviews mensais, que demoraram anos a construir, por um muro entre as suas marcas e os leitores.

Nota final: o diretor do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, foi o mais prático. Tem razão num ponto -- que é uma das raras mais valias, ou vantagens, de que os incumbentes dispõem sobre os desafiantes do jornalismo. Curiosamente, essa vantagem escapa a João Marcelino, diretor do Diário de Notícias, pelo menos a avaliar pelo que declarou sobre a notícia na hora.

De que vantagem falo? Tema para um próximo artigo -- assim haja manifestações de interesse em que eu o escreva.

USA Today aponta o novo caminho: fim da redação integrada, organização em anéis
 
Colocado por Paulo Querido 21 Outubro 2010 Comentar
 

Há 8 semanas o USA Today anunciara uma profunda remodelação, da qual dei nota na coluna Ondas na Rede por achar que viria dali algo sério. O meu faro não me enganou. À medida que se conhecem os detalhes, percebe-se que é o fim da ideia da “redação integrada”, onde toda a gente trabalha para todos os meios e formatos.

Um modelo mais eficiente será, espera-se, a organização em anéis de conteúdo. Cada anel tem um editor com a função de verticalizar a sua produção. Este modelo não é propriamente uma novidade, dirão os mais antigos. Sim, mas a diferença está na quantidade de anéis e no facto de deixarem de corresponder às áreas do jornal (Nacional, Economia, Política, Cultura, …).

Este artigo na Poynter revela mais pormenores:

In addition, USA Today has eliminated several managing editor jobs and will be organizing around “15 distinct content areas,” Hunke said, like travel, personal finance and personal technology. Each will have its own top editor and a dedicated general manager to develop so-called “vertical” advertising and other revenue opportunities.

(…)

I was struck by the parallel to what I had heard from a Financial Times digital editor during Poynter’s Leadership Academy last week: Having pioneered the integrated multi-platform newsroom, the Financial Times is now starting to think that the structure divides attention across too many formats and is thus becoming obsolete.

 

Ler original, USA Today aponta o novo caminho: fim da redação integrada, organização em anéis
Fonte: Poynter Online

O Telegram, o número de visitantes, as paywalls e os modelos delas
 
Colocado por Paulo Querido 20 Outubro 2010 Comentar
 

Peter Kafka escreveu com júbilo acerca da subida de tráfego de um jornal mesmo depois de ter erigido uma paywall (A Newspaper Pay Wall Goes Up–And So Do Visitor Numbers, no All Things Digital).

Eu diria que é um erro devido ao seu otimismo entusiasta e às expetativas demasiado elevadas quanto aos modelos de negócio dos media no mundo online. Dessa doença sofrem muitos.

O jornal em causa é o Telegram.com. Tendo em conta o seu tráfego anterior, basta ser notícia na Imprensa e blogs para ter de imediato um pico nese mesmo tráfego. Ora, o Telegram foi notícia por ativar a paywall — que, diz-se, serve de laboratório de teste para o futuro modelo de subscrição do New York Times.

 

 

Ter mais tráfego pode ter algum significado no contexto. Mas eu ficaria admirado se tivesse. Algumas interrogações imediatas.

Se eu fizer uma pesquisa e for parar ao Telegram, conto como uma visita. Quem diz pesquisa diz redes sociais diz blogs: um link e aterro no Telegram. Conto como uma visita.

E que fiz eu para o sucesso do Telegram, além de contribuir para o seu número e visitas? Li o jornal, ou algum do seu conteúdo? Inscrevi-me e passei a pagar?

A página de subscrição, para a qual os leitores são redirecionados se por um extraordinário acaso forem parar ao Telegram, através de um link em pesquisa ou na web, mais de 10 vezes num período de 30 dias, conta como um visita. Assim, nos primeiros tempos em que um jornal coloca uma paywall, o tráfego referral continua a enviar leitores que continuam a contar como visitas — mesmo que tenham acertado em cheio na página de subscrição, resmungado uma imprecaução e voltado à página anterior, à procura de uma alternativa.

Ter "mais visitantes" só é, por si só, uma medida de sucesso para o ego de bloggers principiantes. Para os media e a bloga profissional, as medidas de sucesso são outras -- envolvendo por vezes, também, o número de visitantes, que é sempre agradável quando é um número grande.

Resumindo: o número de visitantes tem de ser analisado num contexto e num quadro juntamente com outros elementos, sob pena de servir apenas de instrumento de propaganda.

Quero com isto dizer que não acredito no modelo paywall?

Hoje chamamos paywall a tudo. Na realidade, há diferenças ENORMES entre modelos que estão a ser aplicados e o uso genérico da expressão devia ser evitado. Uma visita à entrada da Wikipedia permite ver algumas das diferenças: Paywall.

O modelo de subscrição é válido, na web como fora da web, em qualquer ambiente. Simplesmente tem de ser pensado com cuidado, levando em consideração os vários aspectos de cada ambiente, desde o tipo de leitores a que se dirige aos eventuais traços culturais desse ambiente. Há culturas mais propensas ao pagamento de serviços do que outras.

A questão não está em ter ou não ter um modelo de subscrição. A questão está em ter clientes para ela. Isto é: em conquistá-los.

Ao longo do século XX a indústria dos media foi evoluindo de um modelo de grande profusão de títulos e proprietários para um modelo de concentração. Esse permite, entre outras coisas, algumas imposições aos dois mercados que financiam a operação: o mercado da publicidade e o mercado dos leitores. Tão eficiente a indústria foi que as condições de escassez eram admiráveis: a determinada altura, se queríamos consumir media fosse de que tipo fosse, não havia outra alternativa senão pagar pelo acesso.

O problema com a Internet é que veio criar condições para um novo movimento de descentralização da propriedade, logo dos meios de criar escassez, necessários para fazer funcionar a subscrição. Hoje os “conteúdos” dos vários tipos fluem por todo o lado.

Do que os empresários de media agora andam à procura na Internet, finalmente, é de reconstruir o mesmo tipo de ambiente onde se possa criar, ou simular, a escassez de produto tão abundante como a comunicação. É por isso que adoram o iPad: um aparelho que devolve o controlo sobre os “conteúdos”.

Na verdade, passaram a ter de fazer de novo pela vida, o que não é necessariamente mau. Agora, é acertar num modelo e afiná-lo. Ou — isto é o que eu penso — num conjunto de modelos. Tal como no mundo dos átomos a aquisição do jornal não dispensa as receitas publicitárias, no mundo dos eletrões os dois modelos são compatíveis. Até com outros modelos que possam surgir: a comunicação no futuro será completamente multimeios, multicanais. O segredo está em dosear os modelos à disposição, sem deixar de levar em consideração o potencial do produto que se oferece, enquadrado no meio ambiente.

O jornalismo de baixa qualidade jamais conseguirá vender subscrições suficientes e mesmo a publicidade renderá sempre migalhas — estamos num mundo riquíssimo de informação de baixa qualidade, a competição é ferocíssima levando o valor desse produto a perto de zero. Só com estagiários que ainda pagam para trabalhar será possível competir com o exército de jovens e dos desempregados com demasiado tempo livre e a informática como instrumento.

Mas para cima na escala de valor… Há um mundo vasto de oportunidades. A verdade é esta, como disse Clay Shirky: It’s Not Information Overload. It’s Filter Failure. O mundo precisa cada vez mais de filtros, que é como quem diz, de jornalistas.

Os jornalistas que investigam em Portugal parecem ter descoberto uma coisa chamada Internet. Parecem.
 
Colocado por Paulo Querido 08 Outubro 2010 Comentar
 

Nos últimos dois dias praticamente todos os jornais portugueses descobriram que há contratos públicos exorbitantes. E mais: socorreram-se do base: o Portal dos Contratos Públicos para "revelar" a informação pública.

É louvável em qualquer caso. Deixo de lado a história que levou a esta descoberta, e que envolve cidadãos que a Imprensa e alguns blogs pretensiosos declararam unilateralmente de anónimos sem, sequer, direito à dignidade da citação, um deputado que os ouviu e o Twitter. É louvável em qualquer caso.

Mas estranho. O base: o portal dos Contratos Públicos está em linha há anos, foi remodelado no início de 2009, tendo até a remodelação merecido algum noticiário, os dados são lá publicados e estão pesquisáveis desde então, e só agora os jornalistas que investigam em Portugal o descobriram?

Dois anos para descobrir a melhor das fontes sobre contratos públicos, fonte essa que é pública e pesquisável -- parece-me um motivo de vergonha.

Mas mais vale tarde do que nunca. Espero que o episódio leve os casmurros a aceitarem a Internet e a informática como ferramentas de trabalho. Já vai sendo tempo de abandonarem os fantasmas.

Os 10 piores defeitos dos jornalistas. E os 10 piores defeitos dos bloggers
 
Colocado por Paulo Querido 01 Setembro 2010 Comentar
 

É um sucesso que extravasou as fronteiras da língua original (o castelhano). A lista dos piores defeitos dos jornalistas, de Esther Vargas em Clases de Periodismo.

Dele retiro os 10 piores. E faço um exercício adicional. Aplico a medida aos bloggers. Se há classe ainda menos dada à auto-crítica que a classe dos jornalistas, essa classe é a dos bloggers. O leitor discorda?

10 piores defeitos dos jornalistas 10 piores defeitos dos bloggers
  1. Faltar com o rigor ou a ética
  2. Acreditar que é o único que conhece “a verdade”
  3. Achar que é infalível.
  4. Pertencer a uma falsa elite de “jornalistas medalhões”
  5. Criar manchetes a partir de perguntas capciosas
  6. Autocensurar-se por vários motivos
  7. Acreditar que é juiz ou salvador
  8. Confiar demais nas fontes
  9. Esquecer que seu objetivo principal é informar as pesssoas
  10. Acomodar-se em recursos fáceis como o “copia-e-cola” ou “google”
  1. Faltar com o rigor ou a ética
  2. Acreditar que é o único que conhece “a verdade”
  3. Achar que é infalível
  4. Pertencer a uma falsa elite de “bloggers medalhões”
  5. Criar posts para link bait a partir de perguntas capciosas
  6. Não se autocensurar quando as condições o recomendam
  7. Acreditar que é juiz ou salvador
  8. Confiar cegamente na sua rede
  9. Achar que seu valor principal é informar as pesssoas
  10. Acomodar-se em recursos fáceis como o “copia-e-cola” ou “google”.
USA Today: a revolução do jornalismo chegou aos grandes
 
Colocado por Paulo Querido 29 Agosto 2010 Comentar
 

A revolução do jornalismo chegou aos grandes. O ‘USA Today’, segundo maior diário americano, iniciou na sexta-feira mudanças de alto a baixo.

130 pessoas serão despedidas, 9% do pessoal. A divisão em quatro áreas, um ex-líbris do jornal, dá lugar a uma organização em estrela, com 13 departamentos. Radical é a mudança operacional. "Deixamos de ser um jornal para ser uma empresa de media multi-plataforma", anunciou o presidente David Hunke.

A Redacção passa o papel para segundo plano e aposta tudo na diversidade digital, dos telemóveis aos e-readers, da web à venda a outros retalhistas. Deixem as ilusões de Murdoch e ponham os olhos no ‘USA Today’.

 

A crónica acima foi publicada no Correio da Manhã (papel e online) este domingo. No Clube de Jornalistas, João Alferes Gonçalves destacou a crónica, dizendo que, na minha opinião, o exemplo do USA Today deve ser seguido pelas grandes empresas jornalísticas.

Sem dúvida que penso isso. Incluindo as grandes empresas jornalísticas portuguesas. Com uma única diferença: despedir um em cada dez funcionários tem um peso menor nos Estados Unidos do que em Portugal (e na União Europeia em geral), pelo que prefiro o método doméstico: ir despedindo ou resolvendo com indemnizações, aos poucos. Como tem vindo a ser feito. Despedir é a parte que até um decisor de média português é capaz de compreender. O que cá falta, decididamente, é tudo o que o USA Today já está a fazer.

Mas tão importante como pôr os olhos no USA Today é tirá-los de Murdoch. Uma vez mais o negociante de influências falha o alvo das operações de papel.

As paywalls não são a solução universal, aplicando-se em casos muito concretos e pontuais. Admito que em Portugal um -- e apenas um -- dos económicos pudesse enveredar confortavelmente por esse caminho. É a imprensa de maior valor para uma audiência que lho sabe dar e está disposta a isso.

E o anúncio de jornais exclusivos para o iPad e smartphones vale o que vale enquanto operação de marketing -- recurso a que Murdoch recorre com êxito garantido, uma espécie de Steve Jobs mas da indústria dos media antigos. Basta-lhes abrir a boca.

Tirando isso, é uma irracionalidade. Está apresentada ao contrário do que se sabe, já, que deve ser uma operação jornalística nos novos media. Murdoch não se incomoda a disfarçar a sua ignorância acerca das mudanças operadas na relação com as entidades antes conhecidas por audiências (ver também aqui). Isto para não continuar a apontar os erros que, estou certo, vão por cá ser copiados por alguns grupos.

Vários analistas de novos media explicaram e comentaram a mexida no USA Today -- que, sendo crucial para o jornal e o grupo Gannett, impactará na indústria americana dos media e por extensão nas congéneres europeias, com destaque para a portuguesa (o modelo do USA Today foi por cá seguido diversas vezes nas últimas 2 décadas).

Deles destaco o artigo de Ken Doctor, autor de Newsonomics: USAT: It´s (about) time for the next re-invention. Respigo: "In business, it’s a strong recognition — finally — that the print business will never come back and is in fact dwindling faster, and that audience and revenue growth is there to be had, but it’s almost entirely digital".

Importância dos media sociais para o jornalismo, ou a socialização do conteúdo
 
Colocado por Paulo Querido 29 Agosto 2010 Comentar
 

A importância dos media sociais para o jornalismo, a otimização dos sites para facilitar a partilha de conteúdos e envolver o leitor numa das ações mais necessárias ao jornal -- a publicitação e distribuição do conteúdo -- e o que está a mudar na forma como acedemos à informação, tudo isto é tocado pelo jornalista Sérgio Lüdtke. A apresentação abaixo foi feita para o Master em Jornalismo Digital de 2010 e merece o seu olhar atento, leitor. Especialmente se é jornalista ou tem algum cargo dirigente em empresas de jornalismo.

 

"Inovação" no jornalismo online: Reuters inventa a cópia de valor diminuído
 
Colocado por Paulo Querido 19 Agosto 2010 Comentar
 

Sempre a inovar no jornalismo em rede, a Reuters deu origem a um novo conceito que, sei do que falo, fará as delícias de tantos jornalistas portugueses: a cópia de valor diminuído.

O "exemplo": numa notícia de hoje, a Reuters copia e reproduz o original da PC World expurgando os links contidos no original.

Ao retirar os links está, na realidade, a amputar o artigo original: Google CEO Exposes Dark Side of Social Networking. Nele Tony Bradley contextualiza de forma assinalável os argumentos usando essa ferramenta tão simples e poderosa quanto temida e odiada pelos jornalistas dos meios tradicionais: o hipertexto. Em sete links, a maioria deles para artigos esclarecedores da própria PC World, Bradley deixa ao leitor a possibilidade, e a iniciativa, de dominar melhor o tema -- ou de compreender os seus findamentos.

A sugestão de leituras em hipertexto enriquece um artigo de uma forma impossível, infelizmente, no papel e nos outros meios.

Não a usar no jornalismo online é negativo.

Diminuir o valor de um artigo retirando os links escolhidos pelo jornalista que o redigiu em primeiro lugar, é péssimo.

Ver a Reuters fazer isso é um desconsolo.

Nota: neste artigo faço links para as duas notícias, com um cuidado especial: a forma como os construí valoriza o artigo original (hiperligo o título do artigo) e desvaloriza a cópia (hiperligo uma frase que inclui o termo Reuters e um verbo negativo). Como disse, o hipertexto é uma ferramenta.

A web morreu. Maçada, logo agora que os jornais aprenderam a usá-la
 
Colocado por Paulo Querido 18 Agosto 2010 Comentar
 

O artigo de capa da Wired de Setembro diz que a web morreu. É uma maçada, pois acontece logo no momento em que os jornais aprenderam a usá-la. Depois de um loooooongo Curso Superior de 18 anos, o hipertexto e o debate aberto e assumido entre publicações começam a entrar na rotina dos jornais online.

Er, quer dizer, pelo menos dos melhores deles; mas os outros, seguindo o fenómeno de “imitação cautelosa” que caracteriza o meio, seguir-se-iam ao longo da próxima década.

 

 

Reparem: a Wired publica “The Web Is Dead. Long Live the Internet“. Um artigo do New York Times responde, cita e hiperliga, sem hesitações, muito naturalmente (muito invejavelmente, para um português): Is the Web Dying? It Doesn’t Look That Way.

Outros bons exemplos de utilização do hipertexto para uma conversa global sobre este assunto vêm, claro está, de publicações nascidas na web, e que por isso respiram o hipertexto.

Na GigaOM: The Web Isn’t Dead; It’s Just Continuing to Evolve
Excerto: “As with some of his other popular writings, Anderson seems to be coming to this realization rather late in the game, and has resorted to a sensationalized headline to grab some attention.

No Techcrunch: Wired Declares The Web Is Dead—Don’t Pull Out The Coffin Just Yet e When Wrong, Call Yourself Prescient Instead
Irresistível excerto: “In 1997 Wired Magazine declared the browser dead. “Sure, we’ll always have Web pages. We still have postcards and telegrams, don’t we?” said Kevin Kelly and Gary Wolf.

Na webmagazine boingboing: Is the web really dead?
Without commenting on the article’s argument, I nonetheless found this graph immediately suspect, because it doesn’t account for the increase in internet traffic over the same period. The use of proportion of the total as the vertical axis instead of the actual total is a interesting editorial choice.

E um dos meus favoritos, porque recorda algo que tenho vindo a repetir desde que o iPad foi demonstrado: a mudança de interface, libertando-nos da tirania do teclado + ratona The Next Web, The Internet’s fundamental shift isn’t browser to apps, it’s mouse to multi-touch.

(A seguir, no Ondas na Rede: Dissertação sobre a Internet (onde se falará do iPad, blogs, Google, Apple e Sapo), da web às aplicações, as mudanças em curso. Não perca o desenvolvimento por esquecimento ou impossibilidade: subscreva o feed e receberá no seu leitor. Ou, ainda melhor, assine gratuitamente a newsletter -- e receberá no final uma versão acrescentada do artigo.)

Contas feitas, ó jornalista, sabes quanto vales, sabes, sabes, sabes? 14%
 
Colocado por Paulo Querido 04 Julho 2010 Comentar
 

 

Venho defendendo há muito a tese de que o negócio do jornalismo é na realidade um negócio cujo valor reside na embalagem e transporte e não na matéria prima. Bem sei que tal contraria a ideia que os meus distintos colegas gostam de ter do seu trabalho -- até porque sem pensarmos bem do que fazemos não vamos conseguir fazer nada.


Crédito da foto: ShironekoEuro)

A matéria prima -- isto é: a informação -- é praticamente grátis. O processo de a recolher e tratar até constituir uma massa com algum interesse -- uma notícia -- envolve pessoas treinadas. As pessoas e seus os processos são a "parte editorial" da atividade. Em média, nos EUA, a parte editorial representa 14% dos custos de um jornal. Mais de metade, 52%, são custos de produção (conclusões do Chief Economist da Google, Hal Varian, que estudou elementos estatísticos da US Statistical Abstract, da Newspaper Association of America, da Pew Foundation e de fontes académicas).

Uma estimativa da Business Insider, no ano passado, dizia que imprimir o New York Times era duas vezes mais caro do que comprar e oferecer um Kindle a cada assinante (fonte).

Existirão razões para que a percentagem seja em substância diferente em Portugal ou na Europa? Desconfio que não, mas tendes a caixa de comentários abaixo para nos esclarecer.

Ora, isto significa duas coisas. Uma má, outra boa.

Primeiro, que é inútil trazer para a Internet o modelo de negócio que existe no mundo das fronteiras geográficas. Na rede há fracas e poucas fronteiras cuja superação (o "transporte") pode proporcionar algum tipo de valor. E foram tomadas pelas empresas de telecomunicações (vendem acesso) e pelas tecnológicas (recolhem e embrulham). Não sobra nada para as empresas que exploram o negócio do transporte de informação no mundo físico.

Dentro de pouco tempo comprovaremos o acerto do termo inútil aqui aplicado: quando tivermos resultados das "paywalls" de Murdoch, uma experiência irresistível e que vai contra a natureza do meio em que é levada a cabo (ler Honesty in the age of the paywall, sem esquecer os comentários).

Uma pergunta difícil para os decisores de media, agora, é: num momento de aperto, como se explica o corte na "parte editorial" que representa o menor dos custos do jornal, mas proporciona a maior diferenciação?

Tudo indica que é uma opção do tipo suicídio. No momento da passagem a um ambiente onde a diferenciação qualitativa do produto terá um papel absolutamente determinante para as antigas marcas de media, os seus executivos optam por fazer o ingresso nesse ambiente amputados de partes substanciais dos elementos diferenciadores.

A segunda coisa é que os custos operacionais de um jornal são reduzidos instantaneamente, no momento da passagem para a Internet, em mais de metade.

Na realidade os custos baixam muito mais. Aos 14% do "preço editorial" há a somar pouco mais que o know-how específico do meio. A informática é estupidamente barata.

Essa é a coisa boa. O grande desafio é encolher as estruturas e adaptá-las -- ou talvez seja melhor dizer: recriá-las -- ao meio ambiente reticular.

Vejo pelo menos 3 saídas para o negócio do jornalismo. Uma saída é essa: entender o novo meio e passar a operação para ele. A quantidade de oportunidades que se abre é tão vasta que estimula o empreendedorismo, seja de tipo pessoal (há autores em Portugal que fizeram novas marcas de media e ganham entre 3 e 10 salários mínimos só em publicidade), seja de tipo coletivo.

Outra é a mais em voga em Portugal, desde o início da própria bolha 1.0: ser engolido por uma tecnológica. Foi o caminho do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, da TSF e outros, que são hoje "as notícias do Sapo". Só falta completarem a operação, isto é, passarem para o Sapo também os "custos editoriais", depois de lhe terem dado o proveito, nalguns casos acumulado, jornal a jornal, ao longo de dezenas de anos.

A terceira, claro, é desistirem e irem alugar apartamentos em Vilamoura ou outra coisa qualquer.


Crédito da foto: inju)

 

Infográfico genial do New York Times sobre o Mundial comentado no Facebook
 
Colocado por Paulo Querido 02 Julho 2010 Comentar
 

Graças ao José Manuel Fernandes, vi este infográfico genial do New York Times sobre o Mundial comentado no Facebook. Permite perceber de que jogadores mais se falou no Facebook em cada dia da competição. Veja abaixo e clique para o disfrutar na plenitude no site do NYT.

Anatomia de uma "notícia" sobre o Twitter e os vulcões (act.)
 
Colocado por Paulo Querido 21 Abril 2010 Comentar
 
"O Twitter tem sido uma armadilha fatal para os jornalistas", é o título de uma peça publicada na parte noticiosa do Sapo. Eu não teria lá chegado se o título não tivesse sido tuítado: prefiro usar agregadores de notícias em que confio, isto quando não vou diretamente aos meios, ou os agrego eu usando as ferramentas tecnológicas ao dispor.


Tudo na pretensa notícia está errado. A autora tinha uma ideia (a de que o Twitter é "mau") e para a passar (ver actualização, em baixo) parte de um facto, que interpreta erradamente, e vai de distorção e erro em distorção e erro até à conclusão final. De caminho cita um professor universitário para emprestar credibilidade à sua própria opinião. Acontece aos melhores e o problema não está, obviamente, no que disse Hélder Bastos.


A peça, enquanto opinião, poderia ter algum valor. Podia estar alicerçada numa demonstração de factos. Podia usar a eloquência, podia usar a lógica. Estaria certo, seria leal para com o leitor. Mas não foi o que se passou: pega-se num facto, interpreta-se ao contrário e tiram-se conclusões gerais que nada têm a ver com a origem do facto, publicando o resultado final num sítio que tem notícias.






Desmontando a "notícia":


1. O "obscuro utilizador" breakingnews é, na realidade, propriedade da cadeia MSNBC, referida na peça como tendo usado "enganadamente" a informação pretensamente obtida a ler aquele tweet. Quando se passou precisamente o contrário. De posse de uma informação, a cadeia MSNBC fez o que é já rotina no seu modus operandi: meteu a informação em curto na conta @breakingnews (que, como o nome indica, é mesmo para isso). De nada disto nos informa a "notícia"; pelo contrário, desinforma, garantindo precisamente o oposto.


2. Tudo na "notícia" está redigido de forma a levar o leitor a crer que foi o malvado Twitter o culpado, quando o erro está na própria fonte. Os jornalistas da MSNBC foram induzidos em erro pelas etiquetas das câmaras de monitorização de vulcões (ver imagem abaixo da câmara que os enganou). Eles próprios, aliás, o explicaram -- mas quem escreveu a "notícia" não leu a explicação, ou se leu ignorou-a na altura da redacção, o que seria muito mais grave.


Eis a explicação, dada por Alex Johnson:

1. What happened with Hekla reports? We held off on first bulletins, awaiting second source, which was Iceland's RUV, streaming webcam ...





2. ... labeled "Hekla." We tweeted that, with link, as an "indication" that Hekla was erupting. Many retweets stripped out the hedging. ...
3. ... Remember that that tweets, which stress speed, are only as good as original sources ^AJ



3. A cadeia de retransmissão Twitter, neste caso, fez o que está certo: retransmitiu a informação de fontes absolutamente credíveis. A conta @BreakingNews é uma das fontes Twitter com maior credibilidade. A sua fonte era uma fonte oficial islandesa. Se as primeiras duas fontes da informação original erraram, a responsabilidade principal é delas e não da cadeia de retransmissão. 


Imaginemos que não havia Twitter. A MSNBC dava o breaking news da actividade vulcânica em antena. As outras cadeias e jornais o que faziam? Iam a correr comprovar a fonte, ou publicavam? Uma minoria não daria sem confirmar pelos seus próprios meios, mas a maioria retransmitia ao mesmo tempo que destaca alguém para averiguar e seguir os desenvolvimentos. É a prática corrente: avaliar o risco, ficar de fora ou entrar e procurar apanhar o fio da meada.


Imagino o título da correspondente "notícia", cuidadosamente colocado entre aspas para parecer uma citação que tem alguma coisa a ver com o assunto (basta ler o que disse o Hélder para perceber que é um abuso puxar aquilo para título): "a televisão tem sido uma armadilha fatal para jornalistas".


4. Se um jornalista transmite uma informação sem a confirmar, o problema é do meio utilizado para a obter?


É isso que fica entendido na peça. Digamos que é subverter a ordem natural da cadeia de responsabilidade. Se uma fonte oficial dá uma informação, a sua credibilidade é elevada. O jornalista pode passar a informação em breaking news, tratando do seu aprofundamento em seguida. Não é, de todo em todo, o mesmo que ler algo de uma fonte desconhecida, ou de credibilidade não avaliada, no Twitter e passá-lo como verdadeiro -- que é o que a "notícia" em análise nos quer fazer crer que aconteceu.


5. A assunção de que os "600" retweets (eram mais de 800 já na altura, mas isso agora não interessa) constituem uma medida do "sucesso" do tweet de origem obscura e mentiroso que enganou as pobres televisões, com o intuito de reforçar o lado "perigoso" do Twitter, é um disparate que não resiste a uma verificação mínima do que se passa normalmente com a conta @breakingnews, que tem um alto perfil e 1,7 milhões de followers. A título de exemplo, estoutro tweet recente teve mais de 800 retransmissões diretas e mais de 7.000 indiretas. A conta @BreakingNews está entre as mais retweeted, ou retransmitidas, o que nos dá uma indicação do prestígio de que goza.




Concluindo. Este caso é de facto um excelente exemplo do estado do jornalismo português (falo especificamente do jornalismo sobre as tecnologias e os novos espaços de fronteira por elas aberto, isso a que chamamos agora a web 2.0).


O Twitter é um pau de 2 bicos, disse -- e bem, porque o é -- o Hélder Bastos. O Sapo é um pau de 2 bicos, digo eu: também é uma plataforma para passar como notícia uma informação mal fundamentada e interpretada. (O Sapo e qualquer outro website que publique notícias, não há aqui nada de particular, digo isto para evitar desde já mal entendidos e mal intencionados.)


Mas o caso da erupção é o último a invocar para explicar os perigos do Twitter. Exactamente porque os envolvidos no engano são fontes oficiais e jornalistas profissionais, não são fontes de credibilidade indeterminada e amadores ansiosos por brilhar no "tempo real". Podia ter acontecido noutro suporte ou meio à mesma equipa de 18 - jornalistas profissionais - 18 que editam a conta @breakingnews para a MSNBC.


Fontes complementares:
Actualização: a autora da notícia, a jornalista Alice Barcellos, entrou em contato comigo. Tinha duas coisas a dizer-me: que não era sua intenção passar a sua opinião no texto e que -- e isto é importante -- o seu título não é o que saiu. O seu título original era (e ela tentará que venha a ser de novo, junto da editora): "Uma erupção que só durou algumas horas". O trabalho dos editores às vezes trai o jornalista no terreno.
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BLOG Ondas na Rede é uma coluna de divulgação/opinião publicada em papel e em formato eletrónico. Aos sábados e domingos é publicada na página de Televisão & Media do Correio da Manhã a versão para o papel.

Diariamente, e em contínuo, são publicados neste blog artigos e e dicas. O diálogo com os leitores do Correio da Manhã (papel e online) é mantido sempre que possível em tempo real, tanto neste espaço como através das redes sociais onde me encontro.

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Paulo Querido Portugal
Olá, o meu nome é Paulo Querido e mantenho este espaço como extensão  em linha de uma coluna no Correio da Manhã. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989.


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