“Não atires pedras a estranhos porque pode ser o teu pai” é o primeiro de uma trilogia de Fernando Alvim e que o autor lança esta sexta-feira, pelas 19h, no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Aqui, partilha as crónicas que foi escrevendo no Metro. Para Fevereiro e Maio de 2011 estão reservados uma reedição de “No dia em que fugimos tu não estavas em casa” e “Não és tu, sou eu”. Será o “não” um termo fulcral? O Metro quis saber e fez a Alvim uma... “não entrevista”, em jeito de questionário.

De que é que este livro não fala?
Do FMI, da calçada dos mestres, da pasta medicinal couto, da sensibilidade dentária, dos cientistas do detergente Skip, da ovelhinha Dolly, de problemas de canalização, do índice dow Jones, de bacalhau à Brás, de passar a ferro, sinceramente é melhor ficarmos por aqui.
Sobre o que é que não escreveria?
A relação dos super dragões com a estação de serviço da Mealhada. Porque seguramente me iria meter em sarilhos.
Um final que não faria?
Um final feliz. Não gosto nada. Um bom filme tem que ter um final infeliz e deixar toda a gente a chorar: os actores, o público, os projeccionistas, a senhora da limpeza do cinema, o tipo da bilheteira, enfim, toda a gente como nos desenhos animados japoneses. Isso é que um final bonito, e se morrer todo o elenco ainda melhor, que assim chora-se mais.
Um sonho que não tem?
Conhecer Marte. Ou a Lua. Porque não tem bons acessos, nem boa restauração, não há um único restaurante de jeito na Lua, não há um hotel decente em Marte. E depois nunca sei se são estrelas ou planetas. Por favor nunca me façam esta pergunta.
Um prato que não consegue cozinhar?
Um prato de discos. Ou de bateria. Embora já tivesse tentado, confesso que ficam sempre muito rígidos e com um sabor metalizado um pouco distante do aroma agridoce que desejaria. Não aconselho a ninguém.
Um artista que não consegue ouvir?
Estou muito inclinado entre escolher Celine Dion e Scorpions, mas não consigo decidir-me. Esperem que vou agora mesmo atirar aqui uma coisa ao ar se não se importam…. e cá está, vejo agora bem, é Celine Dion.
Uma pessoa a quem não atiraria pedras?
A ninguém. Porque sou primo afastado do Gandhi. Porque uso a não violência para ser mais forte. O rio é o único local para quem atirei pedras e mesmo assim temi que fizessem ricochete.
Uma pessoa que não odeia?
A pessoa que fez este inquérito. Porque não a conheço muito bem, mas se a conhecesse, odiava-a. De morte, que é como se sabe a pior espécie de ódio. Juro que lhe punha as mãos ao pescoço.
Um amor que não esqueceu?
Graça, a minha primeira namorada quando tinha 5 anos de idade. Graça era uma mulher para quem um dia de prazer intenso passava por saltar à corda e jogar ping pong. Já não se fazem miúdas como a graça. Graça, se estiveres a ler isto, olha que ainda tenho a tua bandolete com joaninhas e golfinhos.
Um acto que não perdoou?
O x-acto. De todos os actos é o que menos perdoo-o. Sobretudo quando pessoas sem moral nos apontam ao pescoço uma coisa destas. Se apontassem um x-acto ao pescoço do mundo, não tenho dúvidas que esta crise se resolveria num instantinho.
Um ídolo que não tem?
O bonequinho da Michelin. Ao contrário do senhor de óculos e calvo que está à porta das lojas da Multiopticas – esse sim o meu grande ídolo - com o bonequinho da Michelin não consegui estabelecer nunca o mesmo nível de idolatria. De tal modo, que nem sequer sei se é assim que se escreve. Gosto do gordito, mas não o tenho como ídolo, com muita pena minha.
Uma pergunta que não fiz e que não quer responder?
Esperem lá, mas isto eram perguntas? Mau, então as perguntas? Onde é que estão as perguntas? Ouçam lá querem ver que vou ter que me chatear com isto, mas onde é que estou as perguntas? O Sérgio está aí? Deixem-me falar com a Patrícia ou com o Diogo, eu quero falar com essa bandidagem toda e quero as minhas perguntas. Onde é que elas estão?
Patrícia Tadeia