Tráfico,
pobreza e luta pela sobrevivência. A realidade do complexo de
favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, ganha vida neste
documentário dos irmãos Mário e Pedro
Patrocínio. Gravado em 2005, já foi premiado nos
Estados Unidos, e aguarda agora a crítica em Portugal. O METRO
falou com os dois irmãos, que fazem um balanço mais que
positivo. Aprenderam que nada é impossível.

Foram
três anos a preparar este filme. O que trouxeram de lá?
Começámos
a pesquisa e investigação para a concretização
do projecto cinematográfico “Complexo” em 2005 e filmámos
no segundo semestre de 2007. De lá, trouxemos sorrisos
autênticos e sinceros, mas
acima de tudo experiências únicas que nos fizeram
acreditar que tínhamos que fazer o documentário e que
era possível superar os impossíveis. Efectivamente a
filmar para o documentário que deu origem ao filme apenas
tivemos 20 dias já que estávamos limitados
financeiramente. Mas a pesquisa e a recolha de imagens de pesquisa
duraram três anos.
Como
surgiu a ideia de filmar no complexo
Mário: Surgiu quando fui
convidado para co-dirigir o vídeo-clip “por
amor”do Mc Playboy, um
cantor de funk. Nessa altura, comecei a pesquisar sobre esta
realidade e a ideia de acedermos a um lugar considerado por todos e
referido pelos media
como impenetrável.
Como
reagiram os moradores à vossa presença?
Não
foi muito difícil ser aceite.
Fomos bem recebidos e, aos poucos, conseguimos conquistar a confiança
de todos. As pessoas
na favela sentiam-se confortáveis com a nossa presença.
A ideia era ouvi-los, conhecer os seus sonhos, os seus porquês,
os seus lamentos e sobretudo a sua essência e não
julgá-los.

Foi
fácil encontrar, e escolher, três protagonistas?
A escolha das personagens foi um
processo moroso. Partimos de um leque inicial amplo para encontrar o
morador do Complexo do Alemão, ou seja, o nosso critério
foi o de que os protagonistas deveriam espelhar de forma instintiva a
realidade da vida na favela. A narração é feita
pelos próprios moradores, sendo as suas acções
filmadas de forma espontânea e natural, mas foi quando estavam
sozinhos que obtivemos as suas reflexões mais íntimas.
Qual
a pessoa/história que mais vos marcou?
Cada história
deixou a sua marca. Talvez possamos, no entanto, destacar a
dona Célia, uma mulher guerreira com oito filhos e um marido
alcoólico. Testemunhar todos os dias a sua vontade e força
para prosseguir a sua vida, para conseguir pôr pão na
mesa, fez-nos ultrapassar os ecos de todos os “impossíveis”
que ouvimos várias vezes e pensar que mais do que um desafio,
este projecto seria uma missão.
Na época
que estavam a filmar, ocorreram operações policiais.
Como foi para vocês enfrentar estes momentos?
Creio que
vivemos os momentos de perigo com alguma ingenuidade e inconsciência
na medida em que havia
um sentimento entre a equipe que por muito perigo a que nós
estivéssemos expostos havia uma luz em nós, uma força
que nos dizia que o nosso momento de estar ali e concretizar era
aquele. Mas se havia um grande tiroteio, o processo era sempre o
mesmo, primeiro atiras-te ao chão e assim que vez uma brecha
corres pela vida.
Conheceram
moradores que morreram durante essas operações
policiais. Pode partilhar um momento em que tivessem estado em
perigo?
Mário:
Uma vez acordei de
madrugada e desci o morro para ir comprar os jornais do dia. Ao
chegar ao pé do morro, senti um leve frio na barriga, vi uma
mãe a pegar o filho ao colo e a apressar o passo, vi um senhor
a fechar a sua barraca em alvoroço, um senhor a correr com as
compras. Dei mais uns passos e tiros de fuzil soaram bem alto,
estávamos perto da acção, na altura aqueles
segundos em que toda a gente se mandou para o chão pareceram
horas, tudo era câmara lenta, via os rostos gelados. No segundo
em que caí no chão, olhei para o lado e corri favela
acima, mais depressa do que algum dia havia subido aquele lado do
morro.
Como
reagiu a vossa família a esta ausência e perigo, durante
três anos?
Durante
muito tempo não explicamos ao certo o que andávamos a
fazer, dizíamos que era um projecto social, que era tranquilo,
que nós sabíamos o que estávamos a fazer. Mas
quando saiam notícias nos media em Portugal é que as
avós, mãe, tios e amigos começavam a ligar,
todos meio em pânico.
Foi
fácil obter apoios?
Não.
Pelo conhecimento
que tinham em
relação ao lugar onde íamos filmar, os
produtores brasileiros diziam: “Vocês? Querem filmar no
Complexo do Alemão? O lugar onde o Tim Lopes foi morto? Isso é
impossível...vocês vão ser roubados e nem vão
sair de lá vivos!”. Ouvimos várias vezes a palavra
“impossível”, mas quanto mais se repetia este eco na minha
mente mais certeza tínhamos de que nada era impossível.
Como
é que pode ser tão diferente a realidade daquilo que é
publicado ou divulgado nos media?
Daí
o nome “universo paralelo”?
Trata-se
de um verdadeiro universo paralelo. Quando entramos no complexo do
alemão que estava dominado pela maior e mais forte facção
criminosa do Rio sentimos que ali era como se estivéssemos num
estado dentro do estado do Rio de Janeiro. Onde as regras eram outras
e quem controlava tudo era o poder paralelo relacionado ao tráfico.
A convivência do dia-a-dia fazia-nos entrar num mundo complexo
que nunca antes havíamos conhecido, um verdadeiro Universo
paralelo.
Se
repetissem a experiência o que faziam diferente?
É
impossível repetir, neste momento com toda a aprendizagem que
adquirimos a nível pessoal e profissional seria uma aventura
completamente diferente. Talvez até por estarmos mais
conscientes agora dos perigos reais que corremos nem fizéssemos
o documentário.
Patrícia Tadeia