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Entrevista: "Não foi muito difícil ser aceite na favela"
Publicada por Bruno Martins
11 Jan 2011 0:32

 

Tráfico, pobreza e luta pela sobrevivência. A realidade do complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, ganha vida neste documentário dos irmãos Mário e Pedro Patrocínio. Gravado em 2005, já foi premiado nos Estados Unidos, e aguarda agora a crítica em Portugal. O METRO falou com os dois irmãos, que fazem um balanço mais que positivo. Aprenderam que nada é impossível.

Foram três anos a preparar este filme. O que trouxeram de lá?
Começámos a pesquisa e investigação para a concretização do projecto cinematográfico “Complexo” em 2005 e filmámos no segundo semestre de 2007. De lá, trouxemos sorrisos autênticos e sinceros, mas acima de tudo experiências únicas que nos fizeram acreditar que tínhamos que fazer o documentário e que era possível superar os impossíveis. Efectivamente a filmar para o documentário que deu origem ao filme apenas tivemos 20 dias já que estávamos limitados financeiramente. Mas a pesquisa e a recolha de imagens de pesquisa duraram três anos.

Como surgiu a ideia de filmar no complexo
Mário: Surgiu quando fui convidado para co-dirigir o vídeo-clip “por amor”do Mc Playboy, um cantor de funk. Nessa altura, comecei a pesquisar sobre esta realidade e a ideia de acedermos a um lugar considerado por todos e referido pelos media como impenetrável.

Como reagiram os moradores à vossa presença?
Não foi muito difícil ser aceite. Fomos bem recebidos e, aos poucos, conseguimos conquistar a confiança de todos. As pessoas na favela sentiam-se confortáveis com a nossa presença. A ideia era ouvi-los, conhecer os seus sonhos, os seus porquês, os seus lamentos e sobretudo a sua essência e não julgá-los.

Foi fácil encontrar, e escolher, três protagonistas?
A escolha das personagens foi um processo moroso. Partimos de um leque inicial amplo para encontrar o morador do Complexo do Alemão, ou seja, o nosso critério foi o de que os protagonistas deveriam espelhar de forma instintiva a realidade da vida na favela. A narração é feita pelos próprios moradores, sendo as suas acções filmadas de forma espontânea e natural, mas foi quando estavam sozinhos que obtivemos as suas reflexões mais íntimas.

Qual a pessoa/história que mais vos marcou?
Cada história deixou a sua marca. Talvez possamos, no entanto, destacar a dona Célia, uma mulher guerreira com oito filhos e um marido alcoólico. Testemunhar todos os dias a sua vontade e força para prosseguir a sua vida, para conseguir pôr pão na mesa, fez-nos ultrapassar os ecos de todos os “impossíveis” que ouvimos várias vezes e pensar que mais do que um desafio, este projecto seria uma missão.

Na época que estavam a filmar, ocorreram operações policiais. Como foi para vocês enfrentar estes momentos?
Creio que vivemos os momentos de perigo com alguma ingenuidade e inconsciência na medida em que havia um sentimento entre a equipe que por muito perigo a que nós estivéssemos expostos havia uma luz em nós, uma força que nos dizia que o nosso momento de estar ali e concretizar era aquele. Mas se havia um grande tiroteio, o processo era sempre o mesmo, primeiro atiras-te ao chão e assim que vez uma brecha corres pela vida.

Conheceram moradores que morreram durante essas operações policiais. Pode partilhar um momento em que tivessem estado em perigo?
Mário: Uma vez acordei de madrugada e desci o morro para ir comprar os jornais do dia. Ao chegar ao pé do morro, senti um leve frio na barriga, vi uma mãe a pegar o filho ao colo e a apressar o passo, vi um senhor a fechar a sua barraca em alvoroço, um senhor a correr com as compras. Dei mais uns passos e tiros de fuzil soaram bem alto, estávamos perto da acção, na altura aqueles segundos em que toda a gente se mandou para o chão pareceram horas, tudo era câmara lenta, via os rostos gelados. No segundo em que caí no chão, olhei para o lado e corri favela acima, mais depressa do que algum dia havia subido aquele lado do morro.

Como reagiu a vossa família a esta ausência e perigo, durante três anos?
Durante muito tempo não explicamos ao certo o que andávamos a fazer, dizíamos que era um projecto social, que era tranquilo, que nós sabíamos o que estávamos a fazer. Mas quando saiam notícias nos media em Portugal é que as avós, mãe, tios e amigos começavam a ligar, todos meio em pânico.

Foi fácil obter apoios?
Não. Pelo conhecimento que tinham em relação ao lugar onde íamos filmar, os produtores brasileiros diziam: “Vocês? Querem filmar no Complexo do Alemão? O lugar onde o Tim Lopes foi morto? Isso é impossível...vocês vão ser roubados e nem vão sair de lá vivos!”. Ouvimos várias vezes a palavra “impossível”, mas quanto mais se repetia este eco na minha mente mais certeza tínhamos de que nada era impossível.

Como é que pode ser tão diferente a realidade daquilo que é publicado ou divulgado nos media? Daí o nome “universo paralelo”?
Trata-se de um verdadeiro universo paralelo. Quando entramos no complexo do alemão que estava dominado pela maior e mais forte facção criminosa do Rio sentimos que ali era como se estivéssemos num estado dentro do estado do Rio de Janeiro. Onde as regras eram outras e quem controlava tudo era o poder paralelo relacionado ao tráfico. A convivência do dia-a-dia fazia-nos entrar num mundo complexo que nunca antes havíamos conhecido, um verdadeiro Universo paralelo.

Se repetissem a experiência o que faziam diferente?
É impossível repetir, neste momento com toda a aprendizagem que adquirimos a nível pessoal e profissional seria uma aventura completamente diferente. Talvez até por estarmos mais conscientes agora dos perigos reais que corremos nem fizéssemos o documentário. 

Patrícia Tadeia




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Comentários
IuVZToREOtOeduaFOlK disse em segunda-feira, 15 de Abril de 2013 16:25

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