
Noah Lennox, mais conhecido no universo da música como Panda Bear, volta aos álbuns a solo antes de se lançar em estúdio com os Animal Collective. O músico nasceu em Baltimore, mudou-se para Nova Iorque, mas o amor trouxe-o até Lisboa, onde vive há oito anos com uma designer portuguesa. Foi aqui que compôs os seus dois últimos discos a solo: o brilhante "Person Pitch", de 2007, e agora o novíssimo "Tomboy", o mote para esta conversa como METRO à beira rio. Entre crises de confiança, Benfica, fado e Frank Sinatra, ficamos a saber que o novo dos Animal Collective também está para ver. Mas, por hora, urge conhecer, cuidadosa e pacientemente, este "Tomboy".
Tocou muito ao vivo
este “Tomboy” antes de o editar. Isso foi importante?
Sim, mas
tornou-se um hábito, já desde os
Animal Collective. Há desvantagens, sobretudo
nestes dias: perde-se o fascínio pelo disco em si,
porque já muita gente ouviu as canções,
há bootlegs, há demos, há versões das canções. Mas as vantagens é que se
consigo ficar muito familiarizado com as canções. Há uma parte do cérebro que
se desliga quando se toca uma canção uma centena de vezes,
em que não estamos a pensar quantas vezes é que se tem de tocar aquela parte
específica, carregar naquele
botão... e então começamos a ouvir tudo! Quando partimos para o estúdio já
vamos com o sentido daquilo que a canção precisa.
Passaram quatro anos
desde que lançou Person Pitch. Claro que tem sempre os Animal Collective, mas fazer este “Tomboy” foi uma relação mais
íntima com as canções para demorar tanto tempo?
Quando terminei o “Person Pitch” os Animal Collective ainda
estavam a trabalhar a sério no “Merriweather Post Pavilion”, estávamos em digressão. E depois ainda fomos
gravar. Só isso impediu que mudasse de direcção com facilidade. E depois todo o
processo demorou mais do que eu também esperava e eu não queria apressá-lo. Eu
sempre quis fazer as minhas coisas a solo de uma forma mais descontraída. Vejo
os Animal Collective como o meu trabalho – não num mau sentido – e nestes
trabalhos quero fazer as coisas com calma,
para condizer com as minhas expectativas.
É curioso que fale de
expectativas, porque “Person Pitch”
é um álbum extraordinário. Pessoalmente acho que este “Tomboy” é um grande
disco, mas que ainda preciso de
consumir mais para percebê-lo melhor... Mas foi difícil para si, por todas essas expectativas,
fazer estas músicas?
Sim,
completamente! Com a banda a pressão não acontece tanto porque há outras pessoas
com quem discutir as coisas, com
quem partilhar opiniões e dizer “esta canção é muito boa”. Mas quando estamos
sozinhos é muito mais difícil: tenho de lidar com questões de confiança e esse
tipo de coisas. É uma batalha mental muito mais complicada. Antes de “Person
Pitch” nunca tive de pensar nas coisas dessa forma,
porque nunca presumi que as pessoas se fossem importar com a minha música. Mas
correu tão bem que comecei a sentir essa pressão para que,
este “Tomboy” fosse, pelo menos, uma progressão. Eu sabia que queria fazer as
coisas de forma diferente, tornar um
bocadinho mais complicado até para ser desafiante.
Que influências é que
um tipo de Baltimore que está a morar em Portugal há oito anos tem em Lisboa
para escrever um disco?
Acho que tudo aquilo que vivo no meu dia a dia também se
reflecte, de pequenas formas. É
difícil rastrear essas influências. Mas o meu estilo de vida mais tranquilo
aqui tornou a minha música mais calma. É como a luz: o “Person Pitch” soa a
muito luminoso porque vivo num sítio com muita luz. Este “Tomboy” foi gravado
numa sala escura, numa cave, só com uma luz,
sem janela.
Lembro-me de falar
consigo antes e dizia-me que neste disco até poderíamos sentir um bocadinho de
fado, indirectamente, nas suas canções. Isso acontece?
Acho que tem muito que ver com a forma como cantei. Mas
também me inspirei muito em cantores como Frank Sinatra,
Scott Walker, Roy Orbison, tipos muito expressivos,
emotivos. Sei que não sei cantar nesse estilo,
mas queria fazer a minha versão disso. E fado,
para mim, tem esse poder emotivo, que vem do estômago,
mais do que da garganta.
A última canção do
disco chama-se “Benfica”. Tenho de perguntar,
de onde vem essa paixão imensa pelo clube?
Eu já era um fã de desporto nos EUA,
mas lá é difícil ser um conhecedor profundo de todas as matérias. E lá nem há
muito futebol europeu. Quando cheguei cá fiquei completamente impressionado com
o desporto: tem uma presença tão forte... A minha mãe e eu temos uma discussão
há já alguns anos sobre competição: a minha versão é que a competição é tudo.
Estar vivo é estar a competir, mas
não de uma forma negativa! É apenas o espírito da vida. E ela não: “é feio ver
as coisas assim! Os desportos são uma chatice,
são mentalidades terríveis, são o
que está mal no mundo”. A canção mostra a minha versão,
a beleza da competição, que leva-nos
a sítios que habitualmente a que não vamos. E o Benfica para mim, sobretudo depois do ano passado em que foram
campeões, representou isso, a beleza e a glória da competição.
Costuma ir ao
estádio?
Este ano tenho ido pouco. Mas o ano passado fui praticamente
a todos os jogos, com um amigo meu
que tinha bilhetes.
E os Animal
Collective? Como estão as gravações?
É difícil, porque
não temos planos para gravar. Temos uma intenção de gravar um disco. Diria que
nos próximos dois anos, talvez
antes. Mas não quero cair no mesmo erro que caí com o “Tomboy" de estar a adiantar prazos e depois a ter de atrasar.
Ouça aqui "Benfica", de "Tomboy".