Treinadores na cadeira de sonho
04 junho de 2015 | 17:36
Colocado por: LuísAvelãs

A saída de Jesus do Benfica, não sendo algo que considerava muito provável, era admissível, nomeadamente a partir do momento em que se percebeu que o clube pretendia baixar o salário do técnico e que nem sequer havia acordo no número de anos para uma eventual renovação; a saída de Marco Silva do Sporting, embora alguns teimassem em duvidar, estava decidida há muito tempo e em nada estava dependente dos resultados. O que poucos podiam imaginar – eu não acreditava nem um pouco – era que o treinador três vezes campeão nacional pelas águias, depois de seis épocas na Luz, iria mudar-se de armas e bagagens para mais uns metros à frente na Segunda Circular. Mas foi isso que aconteceu. E o futebol português entrou numa ebulição só comparável ao Verão quente de 1993, quando o Sporting “atacou” com todas as forças algumas das pedras essenciais do vizinho e rival. E vamos lá ver como é que o filme acaba, pois duvido muito que o assunto fique pelo que já é conhecido.

Para variar, em relação ao que tem sucedido na maioria das últimas temporadas, o Benfica vai ser treinado por um benfiquista e o Sporting por um sportinguista. Bem sei que, na actualidade, o desporto profissional tem muito pouco (para não dizer praticamente nada) de romântico. Os treinadores, assim como os jogadores, buscam é as melhores condições financeiras e trabalham de forma profissional. E faz sentido que assim seja, pois o coração não paga as contas e, no futebol como em outra área qualquer, quase toda a gente prefere ganhar 10 a receber 7 ou 8, mesmo que em causa estejam milhões. E neste alucinado mundo do pontapé na bola as alterações são muito bruscas: quem está na mó de cima pode cair num ápice. Por isso, enquanto a onda está de feição, manda a lógica aproveitar e, em bom português, amealhar. Ninguém deve ser criticado por isso. Quem não o faz, por esta ou aquela razão, pode arrepender-se mais tarde.

Ainda assim, sempre o disse, faz-me confusão ver gente assumidamente conotada com o clube A a jogar ou orientar o B e vice-versa. Sem muito esforço lembro-me de inúmeros casos. Eu e seguramente todos os que seguem com atenção o desporto nacional. O FC Porto não teve problemas em entregar a sua equipa a treinadores benfiquistas, o Sporting tem tido também vários técnicos benfiquistas e na Luz, basta olhar para o exemplo de Jesus, um leão protagonizou uma reviravolta no futebol do clube como há muito não se via. Esta estranha mas compreensível atracção pelos “inimigos” até tem funcionado (e funciona) com dirigentes. É evidente que em causa tem de estar é a competência e o profissionalismo dos envolvidos mas, reafirmo, a mim sempre me causou alguma admiração determinados casos. Adiante.

Jesus vai para o Sporting porque vai receber muito dinheiro. Mas vai também devido ao seu sportinguismo.  E ainda porque as tais propostas do estrangeiro seriam, afinal, de campeonatos de menor expressão ou de clubes de segunda linha. Compreendo a sua opção. Estranharia era o contrário. Ainda assim, desportivamente falando, creio estar a dar um passo questionável. O Sporting é sempre um crónico candidato ao título mas, em abono da verdade, há muitos anos que é essencialmente isso: um candidato. E objectivamente, o treinador sai de um clube bicampeão para outro que conquistou dois campeonatos nos últimos… 34 anos.

Aceito que o desafio de Jesus é aliciante. E tenho a certeza que, sendo obcecado pela sua profissão, vai “esquecer-se” de ir de férias para, em autêntico “sprint”, tentar montar uma equipa à sua imagem. E para que isso aconteça, é garantido que muitos jogadores vão deixar Alvalade e que outros vão entrar. Sabendo que o clube não nada em dinheiro, seria difícil imaginar que esta equação pudesse correr bem. No entanto, se há investidores capazes de avalizar esta contratação de vulto, é óbvio que outras igualmente sonantes vão acontecer envolvendo futebolistas. É que Jesus pode ter muito talento para trabalhar a matéria prima que lhe é colocada à disposição, mas apesar do nome… não faz milagres. E ninguém com um mínimo de bom senso resolve comprar um carro de alta cilindrada se depois não tiver dinheiro para o combustível.

Um dado importante: Jesus vai iniciar esta sua nova aventura com dois jogos fulcrais. A Supertaça, por ser contra o Benfica, terá um peso tremendo. Tanto ganhando, como perdendo. Mas o “playoff” de acesso à Liga dos Campeões, até pelas verbas que envolve, será uma autêntica final. Um investimento tão sério precisa desse encaixe.

Olhemos para o Benfica. Rui Vitória não parece ser um nome capaz de entusiasmar a maioria dos adeptos. Ainda assim, é uma escolha lógica entre os dois ou três nomes de técnicos portugueses que sempre estiveram na calha para uma eventual partida de Jesus. Improvável era prever que seria nesta fase que o seu regresso ao clube da Luz iria acontecer. Mas a vida é mesmo assim. Agora, terá o seu teste de fogo. Se corresponder… poderá ter uma carreira brilhante à sua frente. Caso falhe, talvez tenha, a exemplo de outros, de dar passos atrás.

Uma coisa é certa, quando entrar em campo para disputar a Supertaça contra Jesus, Vitória terá presente que, na única final (Taça de Portugal) em que esteve frente a frente com o opositor… ganhou.

PS – A saída de Marco Silva do Sporting não vai ser pacífica. O clube tem todo o direito a prescindir do treinador, mas devia fazê-lo com elevação. Não parece ser o caso, embora ainda tenhamos de perceber o que é que Bruno de Carvalho entende como “justa causa” para avançar com o despedimento. O que já se percebeu é que mesmo a maioria dos adeptos que estão contentes com a entrada de Jesus, não apreciaram o tratamento dispensado ao ex-treinador.

PS 1 – Jorge Jesus, finalizando o contrato com o Benfica, tem toda a legitimidade para gerir a carreira como bem entende. Mas, como se percebeu, chegou a acordo com o Sporting antes de Marco Silva sair do clube. Mesmo que tenha tentado cumprir os “timings” adequados, fica mal na fotografia. E Jesus, ao longo dos tempos, tem tido comportamentos pouco éticos com vários colegas de profissão. Em Portugal ou lá fora.

PS 2 - O Benfica teve uma má atitude ao mandar retirar a imagem de Jesus na foto que homenageia o bicampeonato. O que ele fez depois pode desagradar aos responsáveis, mas em relação às recentes conquistas é impossível dissociar o nome do treinador de todas elas.  

 
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Mais do que ver o que se passa à nossa volta é importante olhar “a sério”. Num planeta cada vez mais globalizado - e onde a informação circula a uma velocidade estonteante – é impossível estar atento a tudo, mas falhar o essencial é um erro grave. Este será um espaço com particular atenção ao desporto, mas onde todas as áreas serão susceptíveis de abordagem. Comentar, analisar e suscitar a discussão saudável são os propósitos desta experiência jornalística, mas igualmente de cidadania.

Autor

» Olhos de Ver
por Luís Avelãs

O gosto pelas letras, pelos jornais, começou cedo, antes de entrar na escola. A razão dessa paixão sempre foi um mistério. Aos 17 anos, depois de uma primeira tarde a experimentar ser jornalista, a decisão estava tomada. Era isto que queria. Foi há muito tempo...

 

 

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