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(Foto: Mundo Deportivo)
É um desperdício perder tempo a olhar para os patéticos acontecimentos desta meia-final que opôs a melhor equipa do Mundo (para mim, a melhor de sempre) contra um Inter que está para a Liga dos Campeões 2010 como a Grécia esteve para o Euro’2004. Seis anos depois, a mesma estratégia: “Se não podes com eles, o melhor é ficares quieto.” A disposição com que o Inter surgiu em Barcelona para (não) jogar futebol foi uma cópia do “método Rehhagel”, apenas alterado – na obsessão defensiva – pela qualidade dos jogadores. Maicon é incomparavelmente superior a Seitaridis, por exemplo, Samuel é mais forte do que Dellas e até os laterais esquerdos Zanetti e Eto'o (!) são muitíssimo melhor do que Fyssas. Não vale a pena, portanto, lembrar o vulcão que obrigou o Barcelona a viajar de autocarro para Milão, a arbitragem de Olegário Benquerença ou todas as outras patetices que aconteceram antes, durante e depois do jogo da segunda mão. O Barça chegou aqui a fazer o que tem feito nos últimos 18 meses e é por isso que este projecto Guardiola já é mais do que uma equipa de futebol: é uma instituição, uma obra de arte, que devia ser promovida a património mundial. Convém preservar. O Inter é outra coisa. É uma equipa italiana sem italianos, uma equipa de futebol sem futebol, mas – admito – uma equipa! Também não valerá muito a pena falar do jogo porque aquilo não foi propriamente um jogo. Um jogo só existe quando duas equipas estão dispostas a jogar. Não foi o caso. Houve mesmo momentos em que parecia estarmos a ver um jogo, mas de... andebol – com uma linha de defesa (uma linha de nove jogadores, atenção!) à entrada da grande área e o adversário, à sua frente, a trocar a bola, à largura total do campo, esperando o momento certo para a entregar ao “pivô” ou a um dos “alas”. Uma loucura completa. No estádio, ainda cheguei a ficar com a sensação de que, a qualquer momento, poderia ser marcado um livre de sete metros! Quando Thiago Motta saiu, confesso, até pensei que fossem dois minutos de suspensão temporária. No tempo em que não estavam vergonhosamente a simular lesões, vi Samuel, Lúcio, Maicon e Cambiasso festejarem desarmes (!) como habitualmente se festejam golos. Vi Messi, em muitos momentos da segunda parte, ser o último homem do Barça. Se olhasse para trás só via Valdés. Pep Guardiola fez tudo o que era possível. A parede humana do Inter foi tão feia, exagerada e enervante quanto eficaz. Até me chega a fazer confusão como foi possível o Barcelona ainda ter conseguido criar duas ou três oportunidades de golo perante uma coisa daquelas. Só pode ser, de facto, uma equipa de outro planeta. Também não vale a pena dizer que o Barça jogou em 3-4-3, porque depois, por comparação, não é possível descrever a tática do Inter – mesmo antes da expulsão. 9-1-0? 8-2-0? 7-3-0? Enfim, qualquer coisa do género. Inútil ir à estatística porque este jogo (?) foi a coisa mais atípica que já se viu. Falar nos 80% de posse de bola é, igualmente, mais uma perda de tempo. Ou nos 20 remates. Ou em qualquer outro dado. A vida continua. E para quem ontem acabou por perder tempo a olhar para a televisão na esperança de voltar a ver a melhor equipa do Mundo, ânimo! O Barcelona vai voltar. A ganhar, a perder e a empatar. Tudo lhe voltará a acontecer, seguramente. Mas na certeza de que tudo lhe voltará a acontecer jogando o único futebol – maravilhoso, lindo, arrebatador – que ali faz sentido. Venceu o anti-futebol e, para além dos adeptos do Inter, há ainda muita gente feliz... com a eliminação do Barcelona. Enfim, são gostos. E essas coisas não se discutem. Será o Inter a estar na final da Liga dos Campeões, dia 22, no Santiago Bernabéu. Que tenha boa sorte.
PS: Estranha sina do Barcelona. Perde sempre... com vitórias! Eliminado na Taça do Rei com um triunfo em Sevilha por 1-0 e afastado ontem, na Champions, com igual resultado. Os campeões são assim.
PS2: Quando craques que custam milhões (como Sneijder, Eto'o ou Chivu) fazem o que ontem se viu em Barcelona, espero que os "novos adeptos" do Inter nunca mais critiquem os autocarros que, por vezes, "estacionam" na Luz, Dragão ou Alvalade. Perderam a moral para isso.
Barcelona 1 – Inter 0 (análise individual)
Valdés (sem nota): Não jogou. Logo, não pode ser avaliado.
Daniel Alves (2) - Muito longe do seu melhor. Só existiu ofensivamente e, quando foi preciso ir para cima de Zanetti ou Eto'o (!), quase tudo lhe saiu mal.
Piqué (5) - O melhor central da atualidade! Um jogo simplesmente perfeito, coroado com um golo... à Van Basten!
Touré (2) - Esteve bem no toque e passe curto na primeira fase de construção, mas sem soluções quando era preciso criar algum desequilíbrio. Nervoso.
Milito (2) - Jogou no lado esquerdo da defesa. Sem ninguém para marcar, chegou a ser um apoio interessante a Pedro. Guardiola tirou-o ao intervalo porque o jogo precisava de mais velocidade.
Busquets (3) - Tem a serenidade de um trintão. Inteligente, foi sempre um "farol" à procura de um "buraco" na parede do Inter. Saiu, aos 63', quando se tornava cada vez mais importante dar largura total ao jogo do Barça.
Xavi (3) - O cérebro de todas as ações. Fez 108 passes (!!!), tentou pela esquerda, pela direita, pelo meio. Teve paciência de chinês e foi premiado aos 84', com a assistência para o golo de Piqué. Quando o Inter, talvez já mais desgastado fisicamente, teve um pequeno deslize posicional... Xavi não perdoou. Mesmo no fim ainda rematou, de longe, mas Júlio César fez boa defesa.
Keita (2) - Comprometimento total com o jogo, embora tenha acusado o excesso de "população" nos últimos 30 metros. Falhou, por isso, num dos seus pontos fortes: a chegada.
Messi (2) - Bateu uma, duas, três vezes na dupla muralha do Inter e... descontrolou-se. Podia ter marcado no final da primeira parte (excelente defesa de Júlio César). Voltou a ser muito castigado por Cambiasso e companhia.
Ibrahimovic (1) - Não está bem e quase tudo lhe corre mal. A bola nunca "cola" ao pé na recepção e, por isso, a acção seguinte já em feita em esforço. Exaspera quando o jogo não lhe está a chegar e tende, nesses momentos, a fugir para as alas - onde é praticamente inofensivo.
Pedro (3) - Foi para cima de Maicon, sem qualquer receio, e teve capacidade para meter velocidade no jogo do primeiro até ao último minuto. Talvez o jogador do Barcelona que percebeu melhor o que era preciso fazer para deslocar a parede do Inter.
Maxwell (2) - As movimentações no lado esquerdo fluiram melhor com ele em campo (entrou, ao intervalo, por Milito).
Bojan (3) - Muito mais ativo do que Ibra - mesmo com menos centímetros para a luta com os "gladiadores" Lúcio e Samuel. Quase fez um golo e marcou outro - que viria a ser invalidado.
Jeffren (2) - É corajoso e, por isso, tal como Pedro, também não teve medo de ir para cima de Maicon. Fez o que Guardiola lhe pediu: alargou o jogo do Barça.
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