Vaticano sem respeito por Saramago
20 Junho de 2010 | 16:57
Colocado por: Luís Avelãs



José Saramago era ateu. Mas não é por também fazer parte desse “clube” que o considero mais ou menos. Aliás, para que conste, nunca fui fiel apreciador da sua obra literária. Com excepção para o “Ensaio sobre a cegueira”, que considero um livro verdadeiramente notável, jamais me entusiasmei com outro dos seus escritos, sendo que vários nem cheguei a terminar. Por esta ou aquela razão, confesso, rapidamente desistia. Mas, o facto de não ser um devorador dos trabalhos que publicou não significa, por si só, ser incapaz de ver os respectivos méritos. Saramago, segundo entendidos de todo o mundo, foi um escritor de qualidade indiscutível. O Nobel que recebeu foi só um episódio que confirma o seu estatuto de grande um pouco por todo o lado, razão pela qual foi traduzido para várias línguas e vendeu livros em todo o planeta.

Mas José Saramago não era só ateu. Tinha um pequeno-enorme defeito de gostar de pensar pela sua cabeça e, mais perigoso ainda, de dizer o que queria, de não ter medo de enfrentar ideias pré-concebidas, dogmas históricos. Assim sendo, o seu choque ideológico (ainda por cima sendo comunista assumido) com a Igreja Católica era sistemático. Para ser sincero... não vejo qualquer problema nisso, o que não quer dizer que concordasse com ele em tudo. E também considero normal que no Vaticano o nome do escritor português fizesse parte da lista de “inimigos”.

Tenho dificuldade em compreender – e aceitar – é que na hora do desaparecimento do intelectual luso o Vaticano tenha utilizado o seu jornal oficial (“L’Osservatore Romano”) para um “ajuste de contas”. Que a Igreja Católica ignorasse a notícia não me admiraria, pois tal seria normal face às inúmeras divergências que os separavam. Também aceitaria pacificamente que o jornal se limitasse a informar que o escritor tinha falecido aos 87 anos. Agora, dedicar um espaço considerável (e nobre) a um “ideólogo anti-religioso” e “populista extremista”, sabendo que este, claro, já não se pode defender é, no mínimo, triste e configura uma tremenda falta de respeito. Quem manda no tal jornal parece ter ignorado aquela ideia tão católica de “perdoar a quem nos ofende”.

“Saramago era um homem que não admitia metafísica alguma, aprisionado até ao fim na sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo (...) O escritor colocou-se com lucidez ao lado das ervas daninhas do Evangelho (...) Ele dizia que perdia o sono só de pensar nas Cruzadas ou na Inquisição, esquecendo-se dos gulags, das perseguições e dos genocídios culturais e religiosos da época soviética”, lê-se no editorial do jornal.

Perante tudo isto folgo em saber que no Vaticano ainda há alguém com boa memória. Dava jeito é que não fosse tão selectiva e que, por exemplo, pudesse dedicar alguma atenção a outros temas. Sugiro o abuso de crianças em instituições da Igreja, a pedofilia praticada por padres ou a guerra absurda contra o uso dos preservativos num mundo com milhões de infectos com o HIV. Fazer alguma coisa pelos vivos é capaz de ser mais útil que atacar os mortos...

 
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Comentários

# marara disse em 20-06-2010 às 17h23

Parabéns pela crónica, a verdade nua e crua...

ps: Sem ter muito a ver com o tema, pergunto também onde estava o Presidente da Republica que representa todos os Portugueses no funeral deste Grande Senhor, que deu mais ao Pais que por exemplo ele?

# semclubites disse em 20-06-2010 às 18h34

Ora. Sem respeito ou com ele, não é evidente que Saramago apreciaria bem mais o artigo do jornal do Vaticano do que praticamente tudo o resto que tem sido dito e escrito?

É que, sem ou com respeito, no jornal do Vaticano não há réstia nem hóstia de hipocrisia, de falsidade e por aí fora.

Viva o Vaticano que, ao contrário de certos outros estados, não se diz laico mas que sabe o que dizia Marx. Ao contrário daqueles estados outros governados por ditos Partidos Socialistas ou por um Partido Social Democrata que, pasme-se, é católico, liberal, conservador. A cegueira não está no Vaticano, não senhor. Ai não, não, Senhor.

# Daniel Oliveira disse em 20-06-2010 às 18h49

Caro Luís,

obrigado por este texto. Um bálsamo, num momento que para mim é de tristeza profunda, enquanto grande leitor e admirador do homem que foi Saramago, que com a sua escrita e exemplo ajudou a moldar boa parte daquilo que sou.

E é um bálsamo porque muito mais me custa sentir que este país não merece homens assim, como se vê a cada minuto que passa. Temo que Saramago seja rapidamente esquecido pela maioria. Que se lixe, cá estará uma minoria militante (e não o digo em sentido partidário, entenda-se) para o continuar a perpetuar através da sua leitura, a qual lhe recomendo retomar, se mo permite.

Por último, e apesar de também ateu e até algo anti-clerical, não quero deixar de realçar que a Igreja em Portugal (se bem que se trate de uma instituição UNA, Católica e Apostólica), teve uma atitude bem mais decente que é de saudar. Mesmo relembrando as diferenças ideológicas, destacou a grandeza inegável do escritor e mostrou Saramago como um bom exemplo. O daquele que estuda, que pesquisa, que confirma, para depois sim, documentado e sabedor, falar dos assuntos. Assim fez Saramago com a Bíblia..

g1.globo.com/.../igreja-catolica-de-portugal-lamenta-morte-de-saramago-ateu-e-critico.html

# joaocarneiro disse em 20-06-2010 às 19h44

Quem era José Saramago? Um homem e um grande escritor. Primeiro, era um ser humano, e como tal deve ser respeitado, depois era um homem que, como qualquer outro, tinha as suas próprias convicções, e também como qualquer outro homem naturalmente as defendia, isto é, as suas convicções. No campo da literatura, notabilizou-se e fez-se notabilizar, porquanto era mui talentoso como escritor, mas não como filósofo, por exemplo, embora por vezes parecesse pretender mostrar ser um grande pensador, o que não era. Era um inventor de imagens, sim, e um ideólogo, mas não um grande pensador, na media em que muitas vezes se atia a uma análise superficial e simplista de certas questões que lhe eram mais insípidas, devido a uma certa aversão sensível ao gosto de coisas contrárias ao seu gosto próprio e predileto. Daí o seu fixismo e o seu, é verdade, extremismo na hora de tratar da existência de Deus e do papel da Igreja na sociedade. Agora, meus caros, o jornal do Vaticano tinha todo o direito de criticar a posição de um homem que em vida desejava mesmo o desaparecimento da Igreja, e o qual, agora desaparecido, não pode esperar que a Igreja o não critique depois de morto.

# Celtic since 86 disse em 20-06-2010 às 21h27

Boas tardes Luis Avelãs.

Falar de desaparecimento de pessoas tão controversas como Saramago, para mais com a sua natural avesão à Igreja Católica, é entrar num terreno tão pantanoso como falar de Casa Pias ou Apitos Dourado desta vida.

Não conheco a obra de Saramago, logo abstenho me de comentar a sua qualidade ou falta dela.

De Saramago retenho ser uma pessoa que tinha convicções fortes, tão fortes que essa paixão poderia toldar um pouco a razão. Reconheço que a Igreja Católica é passivel de ser condenada de diversos crimes lesa humanidade como a analfabetização cultural a que vota os pobres de espirito. Quanto ás convicções politicas, já dizia Olof Palme: "Quem não é comunista aos 18 anos, não é boa pessoa. Quem ainda é comunista aos 30, não é bom da cabeça.". fim de citação.

Em resumo, e para concluir, retive a posição extremamente crítica de Saramago aquando os Cartoons Dinamarqueses que glosavam com o Islão e Maomé... Onde estava a defesa da mesma Democracia que Saramago reclamava para as suas posições politicas e religiosas?

É por esta e por outras que penso que o facciosismo leva a contradição de conceitos.

Simplesmente, lamento a morte de um ser humano....

# Blue Eyes disse em 20-06-2010 às 21h34

Um grande escritor, sem dúvida. Mas, que não era o dono da verdade. O artigo do jornal do vaticano foi escrito por alguém. Esse alguém, também não é o dono da bola. Cada um tem o direito de fazer a apologia daquilo em que acredita. A igreja católica tem muitos defeitos, sim mas também tem muita gente boa: padres, freiras, missionários que deram (dão) a vida e sofreram na pele vicissitudes várias. Todos temos direito a opinião. Ateus, agnósticos, crentes.

# record4ever disse em 20-06-2010 às 21h38

E o Saramago quando escrevia repeitava o Vaticano? Vamos, lá a olhar para o todo, e não para a parte....

O timing é discutivel, isso concordo.

Abr

# Rui Ribeiro disse em 20-06-2010 às 21h50

Saramago era tão crítico do catolicismo e tão desculpabilizador de todo os torcionários ditos comunistas... em minha opinião evidenciando uma enorme desonestidade intelectual. Nem vou abordar aquilo que fez em termos de saneamentos e quejandos.  Tanta desonestidade intelectual foi sempre razão suficiente para não o respeitar enquanto personagem da vida pública.

No entanto, pela sua morte, fica a minha solidariedade cristã para a familía que perdeu um ente querido.

# nunogolos21 disse em 20-06-2010 às 22h06

Lamento discordar de si. Saramago nao era ateu. Era ANTI-Deus e ANTI-Igreja.

Pugnou durante toda a sua vida por ideiais tortos e acusando os catolicos de estarem errados e de prejudicarem com as suas acções o mundo.

É normal que quem tanto mandou abaixo a Igreja, hoje que caiu de vez, possa ver algumas palavras de desconforto sobre a sua pessoa. Sim, perdoar e dar a outra face é de católico, mas nao me recordo de alguma vez Saramago ter clamado por perdão...

# Luis Oliveira disse em 21-06-2010 às 04h24

Caro Luis Avelas,

Parabens pelo seu texto e pelo obvio uso que faz da faculdade de pensamento critico e independente.

# nunogolos21 disse em 21-06-2010 às 12h10

Blue, escreveste bem agora :)

# jorgen80 disse em 21-06-2010 às 14h49

Sou religioso, mas o que este homem diz faz-me pensar.

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Autor

» Olhos de Ver
por Luís Avelãs

O gosto pelas letras, pelos jornais, começou cedo, antes de entrar na escola. A razão dessa paixão sempre foi um mistério. Aos 17 anos, depois de uma primeira tarde a experimentar ser jornalista, a decisão estava tomada. Era isto que queria. Foi há muito tempo...

 

 

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