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José Saramago era ateu. Mas não é por também fazer parte desse “clube” que o considero mais ou menos. Aliás, para que conste, nunca fui fiel apreciador da sua obra literária. Com excepção para o “Ensaio sobre a cegueira”, que considero um livro verdadeiramente notável, jamais me entusiasmei com outro dos seus escritos, sendo que vários nem cheguei a terminar. Por esta ou aquela razão, confesso, rapidamente desistia. Mas, o facto de não ser um devorador dos trabalhos que publicou não significa, por si só, ser incapaz de ver os respectivos méritos. Saramago, segundo entendidos de todo o mundo, foi um escritor de qualidade indiscutível. O Nobel que recebeu foi só um episódio que confirma o seu estatuto de grande um pouco por todo o lado, razão pela qual foi traduzido para várias línguas e vendeu livros em todo o planeta.
Mas José Saramago não era só ateu. Tinha um pequeno-enorme defeito de gostar de pensar pela sua cabeça e, mais perigoso ainda, de dizer o que queria, de não ter medo de enfrentar ideias pré-concebidas, dogmas históricos. Assim sendo, o seu choque ideológico (ainda por cima sendo comunista assumido) com a Igreja Católica era sistemático. Para ser sincero... não vejo qualquer problema nisso, o que não quer dizer que concordasse com ele em tudo. E também considero normal que no Vaticano o nome do escritor português fizesse parte da lista de “inimigos”.
Tenho dificuldade em compreender – e aceitar – é que na hora do desaparecimento do intelectual luso o Vaticano tenha utilizado o seu jornal oficial (“L’Osservatore Romano”) para um “ajuste de contas”. Que a Igreja Católica ignorasse a notícia não me admiraria, pois tal seria normal face às inúmeras divergências que os separavam. Também aceitaria pacificamente que o jornal se limitasse a informar que o escritor tinha falecido aos 87 anos. Agora, dedicar um espaço considerável (e nobre) a um “ideólogo anti-religioso” e “populista extremista”, sabendo que este, claro, já não se pode defender é, no mínimo, triste e configura uma tremenda falta de respeito. Quem manda no tal jornal parece ter ignorado aquela ideia tão católica de “perdoar a quem nos ofende”.
“Saramago era um homem que não admitia metafísica alguma, aprisionado até ao fim na sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo (...) O escritor colocou-se com lucidez ao lado das ervas daninhas do Evangelho (...) Ele dizia que perdia o sono só de pensar nas Cruzadas ou na Inquisição, esquecendo-se dos gulags, das perseguições e dos genocídios culturais e religiosos da época soviética”, lê-se no editorial do jornal.
Perante tudo isto folgo em saber que no Vaticano ainda há alguém com boa memória. Dava jeito é que não fosse tão selectiva e que, por exemplo, pudesse dedicar alguma atenção a outros temas. Sugiro o abuso de crianças em instituições da Igreja, a pedofilia praticada por padres ou a guerra absurda contra o uso dos preservativos num mundo com milhões de infectos com o HIV. Fazer alguma coisa pelos vivos é capaz de ser mais útil que atacar os mortos...
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