Portugal tem de abrir a boca
24 Março de 2011 | 20:17
Colocado por: Luís Avelãs
 

José Sócrates demitiu-se. Ninguém foi apanhado de surpresa, pois já todos sabíamos que a última versão do PEC ia ser rejeitada na Assembleia da República e que, como consequência disso, o Primeiro Ministro iria abdicar. Complicado, agora, é adivinhar o que vai acontecer, sendo certo que, para não variar, vamos continuar num período de imensa instabilidade social, com a economia em recessão e o desemprego a galgar para patamares cada vez mais assustadores.

Legalmente, Cavaco Silva tem o poder de, sem a consulta do povo, tentar encontrar uma solução governativa. Contudo, não creio que o futuro imediato passe por aí. Agendar um acto eleitoral será, sem dúvida, a medida mais lógica, embora não me pareça que isso seja suficiente para mudar grande coisa. Da mesma forma, também é relativamente fácil antever a entrada do “papão” FMI no país. E isso, bem mais que as eleições, é que está a assustar muita gente. Pessoalmente, assumo, já estou por tudo. Em condições normais, seria dos primeiros a estar contra a possibilidade de instâncias internacionais decidirem o que fazer no meu próprio país. No entanto, já percebi há muito que Portugal tem sido governado exactamente sobre os pressupostos lá de fora, sejam eles oriundos do FMI, da chanceler alemã ou de qualquer outra proveniência. Não só nas questões económicas, mas em tantas outras, Portugal – assim como várias outras nações – deixou de fazer aquilo que considera melhor ou mais adequado, sendo obrigado a trilhar os caminhos indicados pelos “amigos”. Exactamente aqueles que, directa ou indirectamente, nos ajudaram a cair nesta delicada situação.

Portugal está, decididamente, dentro de um buraco enorme e sendo certo que os problemas alheios não resolvem (nem minoram) os nossos, é capaz de ter chegado a hora de, juntamente com outros países em situação de aflição, abrir a boca e, de uma vez por todas, tentar travar o processo que nos está a levar para a bancarrota.

Sem ignorar que os nossos governantes são culpados de muitos disparates internos – e atenção que José Sócrates (e o PS) não foi o único a descarrilar, pois convém não esquecer que agora também estamos a levar com a factura dos deslizes cometidos por pessoas e partidos que, de momento, falam como se não tivessem nada a ver com a questão -, a verdade é que Portugal (tal como a Grécia e Irlanda) está a ser sugado por um autêntico cartel bancário internacional que, tão depressa solicita ajuda aos governos, como semanas depois apresenta lucros pornográficos. A Alemanha, por exemplo, tem recuperado rapidamente da crise financeira à custa da desgraça alheia. Não quero com isto dizer que os germânicos não tiveram mérito nas medidas económicas que aplicaram no seu país, no entanto, se não beneficiassem do aperto dos outros, demorariam muito mais tempo a ressurgir.

Não é por acaso que, nos últimos meses, as taxas de juros da dívida nacional não pararam de subir, independentemente da aprovação do Orçamento, da aplicação de medidas suplementares, etc, etc. Por muito que se faça ou não, o desfecho é sempre o mesmo. A conversa esgotada da “instabilidade dos mercados” reflecte, muito bem, o que nos andam a fazer muitos dos pretensos “amigos”. Para os alemães (e não só), o melhor que lhes pode acontecer é os países mais pobres estarem cada vez mais endividados e a pagar juros sempre maiores.

Posto isto, creio que chegou a hora dos mais fracos (Espanha, Bélgica e Itália podem alinhar com Portugal, Irlanda e Grécia visto terem a perfeita noção que a sua hora de cair no buraco está cada vez mais próxima) juntarem forças e recusarem este sistema em que só “engordam” os poderosos. Só abrindo a boca e ameaçando a moeda única, os chamados países periféricos podem travar o esquema. Uma crise geral na Europa, e não apenas nas nações com menor poder, deixará Alemanha, França e Inglaterra em situação de alerta, pois tal significará, quase de imediato, uma quebra de influência económica perante os Estados Unidos e os emergentes chineses. E aí, claro, a táctica terá forçosamente de passar a ser outra. Muito provavelmente... mais justa e honesta.

 
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Comentários

# lugarcativo disse em 24-03-2011 às 21h37

Isto porque é justo e honesto estar permanentemente a gastar mais dinheiro do que aquele que se tem? Falam muito de reduzir a déficit para um valor abaixo dos 3%. Acha que chega? Só saímos deste buraco quando pagarmos a nossa divida, e isso só acontece com superavit, não chega deficits baixos... Quanto ao FMI, quanto mais cedo melhor: já perdemos 1 ano. Nesse ano, teriamos obtido emprestimos a juros mais baixos (logo menos divida acumulada), e teriamos implementado medidas que ninguém tem coragem politica da assumir, embora todos saibam que são necessárias.

# Lougreen disse em 24-03-2011 às 21h41

Com tanta mania de acusar, a culpa ainda vai parar ao falecido General Vasco Gonçalves. pois até aos anos 80, a culpa era sempre dele, antes dele foi o dr. António, com tantos sabichões políticos, muitos deles com culpas no cartório, a culparem muito boa gente, que de mal foi terem lido nos livros deles. Portugal tem mesmo de abrir a boca, pois se a Chanceler alemã ainda não fez cair Portugal, sabe ela e sabem os outros que logo a seguir irá a Espanha e a Itália e depois por aí fora até acabar o Euro e a Europa ficar na bancarrota, que como diz à mercê dos americanos e chineses.

# StrangePP disse em 25-03-2011 às 03h24

A ver Inside Job - A verdade da crise.

# DragaoAustralia disse em 25-03-2011 às 11h17

Nas decadas de 80 e 90 quando a torneira do dinheiro Europeu estava aberta ninguem se queixava. Agora que esse dinheiro foi desbaratado e ha que comecar a pagar a divida ha que se revoltar. Se nao tivesse sido esse dinheiro que entrou portugal continuaria a ser uma pais de terceiro mundo em termos infra-estruturais. Ainda o e em muitos outros aspectos.

# julio moreira disse em 25-03-2011 às 17h58

Boa tarde Luis.

Parece-me óbvio que a partir do momento em que entramos, primeiro, na  CE e, depois, aderimos á moeda única, ficámos com limitados poderes decisórios a nivel interno, e do ponto de vista macroeconómico. A nossa soberania de há muito se transferiu para o exterior, neste caso para a  CE.

O dramático é que,na hora em que aderimos e vieram balurdios lá de fora, não cuidámos de criar infrestrutas a nivel ecnomico que nos possibilitassem desenvolvimento economico. Que projectos der raiz e de origem portuguesa criamos? Que estrategia macroeconomica delineamos? Apenas nos limitamos a acolher, temporariamente, o grande capital associado a multinacionais que se instalaram com o único objectivo de aproveitar os fundos que Bruxelas disponibilizava. Actividades economicas proprias não criamos nenhuma. Isto sem esquecer a forma como, alegremente, se derreteram os dinheiros do Fundo Social Europeu. Tem a palavra o inquilo de Belém que nessa altura governava, e por duas legislaturas, apenas estava menos rigoroso para nosso azar. Lembremos que até Oliveira Costa pertenceu á governação.

Posto isto, temos que o nosso problema é conjuntural e estrutural. Conjuntural porque os nossos parceiros estão a tentar saír de uma crise financeira a nivel global e sem precedentes proximos. Estrutural porque não temos Economia que alimente o nosso PIB. Não produzimos NADA em termos de bens transaccionaveis. E assim não saimos do buraco. Será divida em cima de divida.

Para colocar o quadro mais negro, gastamos que nem loucos e o Orçamento de Estado é um autentico saco sem fundo. Por mais receitas que se consigam o buraco é cada vez maior.

Tem de haver maiior rigor na despesa e, a meu modesto vêr, uma renegociação da divida para que possamos investir e criar riqueza, o que, nesta situação, não conseguimos.

E aí sim concordo consigo Luís, os pequenos terão que se unir.

Um abraço

# Olhos de Ver disse em 13-04-2011 às 23h18

Com a devida vénia reproduzo de seguida um texto que acabei de ler no site do "Jornal de

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Mais do que ver o que se passa à nossa volta é importante olhar “a sério”. Num planeta cada vez mais globalizado - e onde a informação circula a uma velocidade estonteante – é impossível estar atento a tudo, mas falhar o essencial é um erro grave. Este será um espaço com particular atenção ao desporto, mas onde todas as áreas serão susceptíveis de abordagem. Comentar, analisar e suscitar a discussão saudável são os propósitos desta experiência jornalística, mas igualmente de cidadania.

Autor

» Olhos de Ver
por Luís Avelãs

O gosto pelas letras, pelos jornais, começou cedo, antes de entrar na escola. A razão dessa paixão sempre foi um mistério. Aos 17 anos, depois de uma primeira tarde a experimentar ser jornalista, a decisão estava tomada. Era isto que queria. Foi há muito tempo...

 

 

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