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Todos sabemos que o País não atravessa uma fase de grande fulgor. E perante
tantas e tantas situações graves – que mereciam intervenção célere e decidida
das entidades competentes -, considerar os problemas do desporto algo de
essencial é, naturalmente, bastante questionável. Contudo, se se aceita uma
visão colectiva assim, convém não esquecer que, para alguns, a prática
desportiva não é apenas um passatempo ou uma paixão, mas sim um modo de vida. E
para esses, quem desvaloriza a importância do desporto está a olhar com menor
respeito para o seu trabalho. Logo, é normal que fiquem revoltados e sintam que
andaram anos e anos a perder tempo
quando, por esta ou aquela razão, são alvo de verdadeiras injustiças.
Vem tudo isto a propósito de várias situações que, recentemente, mostraram que,
em Portugal, o desporto é mesmo encarado como um mero acessório. E se não seria
surpresa constatar que as desconsiderações fossem protagonizadas pelo público
em geral, torna-se grave quando são o Governo (através do Instituto Português
do Desporto e da Juventude) e o Comité Olímpico os primeiros a tratar tão mal
os atletas.
A mais mediática polémica envolve os canoístas Emanuel Silva e Fernando
Pimenta. Os únicos medalhados portugueses nos Jogos Olímpicos de Londres’12
ficaram surpreendidos quando, em vez dos esperados 22445 euros, só receberam
metade dessa verba como prémio da prata conquistada em terras britânicas.
Apesar de serem atletas individuais, que apenas juntam forças para formar um
par fortíssimo porque a modalidade contempla essa vertente, os jovens nortenhos
receberam o seu prémio enquanto desporto colectivo. Bom, deixemos o individual
ou colectivo de lado. O que aconteceu é que o Estado, na sua luta incessante
para poupar tostões enquanto milhões são desviados para causas cinzentas, achou
por bem desvalorizar o feito de Emanuel e Pimenta. E com um argumento de algibeira
pagou apenas metade do que devia (se uma selecção de futebol ganhar uma medalha
olímpica vai ser engraçado ver o Gorverno a mandar dividir os tais 22445 euros
por 23 jogadores...). Os rapazes não gostaram, denunciaram a situação, contaram
com o apoio da respectiva Federação e, bem vistas as coisas, deviam merecer o
reconhecimento de todos nós. Já era altura de quem merece ser recompensado.
Creio que estamos todos fartos de ver apenas alguns, com ou sem resultados nas
suas áreas, a encher os bolsos. E esse, acrescente-se, não passam horas e horas
a treinar, com o sonho de colocar o mais alto possível o nome de Portugal...
Mas, houve mais nos último dias. Imaginem, por exemplo, que a entidade
responsável por atribuir as compensações financeiras face aos resultados dos
Jogos Olímpicos se esqueceu de convocar os remadores Pedro Fraga e Nuno Mendes.
Compreende-se. Afinal, os rapazes só ficaram em... quinto lugar! Quem é que
iria reparar nisso quando, todos os dias, conquistámos um ror de medalhas?
Sinceramente!
Mas, a justificação ainda foi mais pitoresca. Como a Federação de Remo –
instituição que, em traços gerais, não existe – não enviou a documentação...
ninguém reparou. Então, os responsáveis pelo processo não se lembraram de falar
com o Comité Olímpico para confirmar os dados? Sendo assim, será legítimo
pensar que se alguma federação resolvesse “inventar” um qualquer sétimo ou
oitavo lugar o Governo pagaria sem questionar ninguém.
Por fim, também o próprio Comité Olímpico, a entidade que mais devia defender
os nossos atletas de eleição, achou por bem não incluir no projecto para o Rio
de Janeiro’16 o velejador Miguel Nunes. Para quem não sabe, trata-se de alguém
que em quatro participações olímpicas consecutivas conquistou outros tantos
diplomas (classificações até ao oitavo lugar). E qual a razão para excluir o
velejador da classe 470? O simples facto do seu parceiro Álvaro Marinho ter
abdicado da carreira olímpica! Que culpa tem Miguel Nunes disto? Prosseguindo a
carreira, embora com outro companheiro, não tem direito a receber as verbas que
justificou em competição ao longo de mais de uma década?
E assim vai andado o nosso desporto. A rapaziada só serve para as fotografias
da praxe quando conseguem resultados de excepção. De resto, são humilhados por
aqueles que mais obrigações tinham de os defender. Rico país que estás tão bem
entregue...
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