Crónicas da Sábado: nem um mililitro de silicone
12 Fevereiro de 2012 | 08:00
Colocado por: Alex Pais

Se tudo o que contribui para melhorar a nossa realidade é bem-vindo, o silicone só podia transformar-se num enorme sucesso. Até à sua chegada ao mercado, as mulheres dependiam em exclusivo das qualidades próprias de representação para fingirem ser o que não são – uma arte a que recorrerão até ao final dos tempos – e de umas próteses manhosas para compensarem a escassa generosidade da mãe Natureza, ou a sua total ausência.

Devo começar por confessar que não tenho uma boa relação com os implantes em roda livre e que me senti mesmo agredido quando, em recente reality show, uma menina à beira da explosão, com lábios, peito e rabo literalmente a rebentar pelas costuras, ameaçou, com chocante desfaçatez, “meter mais um litro” de silicone nas disformes mamas. E maior confusão me faz que haja especialistas sem pudor suficiente para colocar um travão na excentricidade destas clientes, evitando poluir o meio ambiente com mais umas aberrações. Bem, talvez não seja assim tanta a confusão, pois a lei da selva espalha-se por todos os sectores de actividade e, afinal, pouco restará que desgraçadamente não se resolva com um punhado de notas.

Já a utilização moderada da substância me parece aceitável. Em especial em casos em que a falta de volume dos seios ou nádegas descaídas, ou metidas para dentro, causam – numa sociedade materialista dominada por doentios esteriótipos de beleza e de competição – perturbações psicológicas que por vezes se revestem de graves contornos.

Mas onde o uso do silicone é mais do que adequado, podendo até considerar-se uma dádiva divina, é na cirurgia reconstrutiva, que consegue hoje anular significativamente, ou quase por completo, os danos físicos provocados por acidentes ou por intervenções que implicam remover o que se estragou. Aí a matéria faz milagres e ajuda muita gente a regressar à vida e a recuperar o sorriso. Abençoado silicone, esse sim.

Dou comigo a pensar, escritas as banalidades acima, sobre que destino terá Deus reservado para os meus últimos dias, sejam lá eles quando forem. É que tive pais decentes, que me transmitiram valores, e filhas magníficas que só me deram alegrias. Aturaram-me mulheres infinitamente pacientes e namoradas a que mal correspondi. Não fiz tropa e não fui à guerra colonial. Escolhi a profissão e pagam-me para fazer o que gosto. Conheci pessoas excelentes e sobraram-me meia dúzia de amigos fantásticos. Comi em grandes restaurantes, viajei, e li, vi e ouvi o que de melhor podia ter desfrutado. E, oh glória!, nunca toquei num corpo com um mililitro de silicone. Morrerei assim.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 9 fevereiro 2012

 
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Alexandre Pais publicará aqui os seus textos de opinião e tudo o mais que lhe apetecer. Aviso: é sócio do Belenenses, desde 1957, e adepto do Real Madrid, desde que se conhece (na foto, o autor, o segundo da direita, em cima, entre Carlos Andrade e Manuel Falcão, na equipa fundadora do "Off-Side", em 1982).

Autor

» Quinta do Careca
por Alexandre Pais

 

Diretor de "Record" desde 2003, Alexandre Pais integra ainda o Conselho Editorial da "Sábado" e é colunista do "Correio da Manhã". Iniciou a sua carreira jornalística no "Mundo Desportivo", em 1964 (no primeiro post deste blog pode encontrar-se a biografia completa do artista e no segundo algumas imagens que recordam momentos de uma carreira já longa mas ainda não penosa)

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