Crónicas da Sábado: Sinais dos tempos - 2
25 Fevereiro de 2012 | 21:00
Colocado por: Alex Pais

1. Desejando enganar-me, estou convencido de que a teimosia ideológica de Passos Coelho, a tal que vai para além da troika, acabará por asfixiar de todo a nossa frágil economia e de nos meter, então sim, num buraco do qual jamais sairemos. Mas hoje quero apenas salientar a prestação do líder do Governo em Gouveia, aguentando os insultos organizados com fair-play e entrando mesmo em diálogo com os manifestantes. Não sei se teremos primeiro-ministro para resistir a esta crise diabólica, mas sei que temos um homem que dá a cara, com coragem e humildade, pragmatismo e bom senso. Chapeau!

2. A hora da verdade aproxima-se também para os clubes de futebol profissional. Viveram de empréstimos bancários, venderam o património que tinham ou que as autarquias lhes deram, anteciparam receitas de direitos de transmissões televisivas, elegeram dirigentes desqualificados, deixaram-se embarrilar por empresários, compraram pernas de pau, assumiram compromissos com o fisco e não cumpriram. Só podiam ir à falência.

3. Os centros comerciais facilitam a distinção entre as empresas que remam para sobreviver à maré negra e aquelas que se deixam ir, até ao naufrágio. Há dias, num dos shoppings da capital, fui abordado por vendedores de duas lojas de ramos diferentes que, à porta, tentaram convencer-me a entrar. Mas eu queria comprar um relógio e dirigi-me a outra, na altura sem qualquer cliente. Passei por uns dez empregados, que conversavam animadamente, em grupos de dois ou três. Parei em todos os expositores à procura da máquina do tempo que pretendia e não encontrava. Acabei por sair em cinco minutos, sem que um único daqueles candidatos ao desemprego me perguntasse se queria alguma coisa. É uma desgraça, não tarda está lá um tapume.

4. O início da semana trouxe-me a notícia da morte de Igrejas Caeiro, uma das mais fascinantes personalidades que conheci e com quem privei quando ele foi director de programas da Emissora Nacional. Era detestado pelos administradores da rádio, por concentrar todas as atenções em encontros sociais ou de trabalho. Há quase 40 anos, manteve uma polémica com o crítico de teatro do Diário de Lisboa, Carlos Porto, o que levou o jornalista Neves de Sousa a interpelar os barões da redacção do antigo vespertino, dizendo que, quando morresse, viria na primeira página do Diário de Notícias, e Porto, um homem sério, sairia apenas na secção de necrologia. Caeiro foi uma estrela do seu tempo, não deste, e o DN não o levou à capa. Fê-lo o Record porque o seu director não resistiu ao facto de dispor desse poder, e abusou dele para cumprir a profecia. E para a fazer chegar a mais do dobro dos leitores.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 23 fevereiro 2012

 
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Alexandre Pais publicará aqui os seus textos de opinião e tudo o mais que lhe apetecer. Aviso: é sócio do Belenenses, desde 1957, e adepto do Real Madrid, desde que se conhece (na foto, o autor, o segundo da direita, em cima, entre Carlos Andrade e Manuel Falcão, na equipa fundadora do "Off-Side", em 1982).

Autor

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por Alexandre Pais

 

Diretor de "Record" desde 2003, Alexandre Pais integra ainda o Conselho Editorial da "Sábado" e é colunista do "Correio da Manhã". Iniciou a sua carreira jornalística no "Mundo Desportivo", em 1964 (no primeiro post deste blog pode encontrar-se a biografia completa do artista e no segundo algumas imagens que recordam momentos de uma carreira já longa mas ainda não penosa)

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