Crónicas da Sábado: mioleira, esse horror
13 Março de 2012 | 14:13
Colocado por: Alex Pais
 

Pertenço a uma geração demasiado marcada pelas dificuldades suportadas pelas anteriores, atingidas por períodos de guerras mundiais e pelas revoluções dia sim, dia não, que antecederam, em Portugal, o advento do Estado Novo. Nesses tempos, contava-me o meu pai, o desemprego era brutal e o abastecimento deficiente, mesmo caótico, existindo filas imensas, e até senhas de racionamento, para se comprar pão. Daí que eu sentisse em casa, desde muito pequeno, uma forte pressão para que tivesse boa boca, ou seja para que gostasse de tudo e comesse o que me pusessem à frente. Vejo hoje as minhas filhas mais novas, com manias infinitas no que respeita aos alimentos, e verifico que, também aí, o Planeta em que vivi desapareceu.

Tive a sorte de serem simples as preferências dos meus pais e dos meus avós, que não apreciavam comida pesada, condimentada, ou apaladada, como se dizia, e raramente me sujeitaram a surpresas desagradáveis. Mas lembro-me que os bifes não eram enormes, que não existia ainda o hábito das saladas, que o açúcar e a manteiga se usavam com moderação, que a fruta não abundava, enfim, hábitos herdados da miséria do início do século 20, e na crença de que a desgraça se escondera apenas atrás da porta e que portanto voltaria. Ah, e pormenor importante, comia-se sempre com pão, porque, percebi mais tarde, isso compunha o estômago, tal como a sopa, que era obrigatória – e que em muitas casas antecedia o prato principal, para prevenir excessos. Essa técnica permitia depois encurtar as doses do chicharro ou das costeletas, do frango, das salsichas ou da carne assada. A economia doméstica impunha uma gestão rigorosa dos escassos recursos e sobrepunha-se ao resto. Estamos agora a regressar a essa ditadura das donas de casa, que voltam às cozinhas para evitar desperdícios. Nem temos outro remédio.

Aprendi a comer de tudo mas não gosto de tudo. Há, aliás, comidas que não suporto, nem consigo sequer ver os outros comer. É o caso de um horror com que fui confrontado em miúdo, a tenebrosa mioleira – que desenvolveria a inteligência, coitadas das crianças – misturada com ovo, uma coisa abominável.

Conforme fui crescendo pude libertar-me dessas grilhetas mentais, embora mantendo até hoje a visceral aversão a que se compre mais do que se necessita e a que se deite para o lixo, porque nos sobra, o que falta a outros. Posso, isso sim, assumir livremente os meus enjoos de estimação: arroz de cabidela e de lampreia, dobrada e cabeça de pargo, ovas e leitão, pezinhos e moelas, coelho e caviar, chispe e ostras, castanhas cozidas e favas, orelha de porco e dióspiros. E etc, muitos etc. Fizeram de mim um esquisito, foi o que foi.

Observador, crónica publicada na edição impressa da Sábado de 8 março 2012

 
Tags:
 

Os comentários estão reservados para Utilizadores Registados.




PUBLICIDADE

SIGA-ME EM...

Pesquisa

Sobre este Blog



Alexandre Pais publicará aqui os seus textos de opinião e tudo o mais que lhe apetecer. Aviso: é sócio do Belenenses, desde 1957, e adepto do Real Madrid, desde que se conhece (na foto, o autor, o segundo da direita, em cima, entre Carlos Andrade e Manuel Falcão, na equipa fundadora do "Off-Side", em 1982).

Autor

» Quinta do Careca
por Alexandre Pais

 

Diretor de "Record" desde 2003, Alexandre Pais integra ainda o Conselho Editorial da "Sábado" e é colunista do "Correio da Manhã". Iniciou a sua carreira jornalística no "Mundo Desportivo", em 1964 (no primeiro post deste blog pode encontrar-se a biografia completa do artista e no segundo algumas imagens que recordam momentos de uma carreira já longa mas ainda não penosa)

Outros Blogs Record

» Blog do Magalhães
por António Magalhães

» Campo Novo
por Nuno Farinha

» Lado B
por Bernardo Ribeiro

» Olhos de ver
por Luís Avelãs

» Mercado Aberto
por João Rui Rodrigues

» Futebol e Algo Mais
por Luís Pedro Sousa

» Semanada
por António Varela